JUVENTUDE

Six-Seven e Farmar Aura: entenda o 'idioma' dos seus filhos na internet

Tendências das redes sociais,termos mudam a rotina escolar e marcam uma nova fase de brincadeiras de crianças e adolescentes

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Você já ouviu alguém falando que está farmando aura? Ou mexendo os braços para cima e para baixo falando as palavras em inglês "six-seven", traduzindo literalmente para "seis-sete"? Esses dois termos têm dominado as redes sociais e fazem parte de modas da internet, mais conhecidas como "trends". Esses desafios originados no mundo digital têm a capacidade de atingir um público grande, em especial as crianças e pré-adolescentes, principalmente pelo tempo que passam nos celulares e navegando na internet. Para muitos, vistas como sem sentido, essas expressões podem guardar muitos significados.

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"Farmar aura é tudo para mim. Eu gosto bastante dessa brincadeira", afirmou o estudante do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 5 do Gama Davi Lucas, de 12 anos, que foi dominado pela nova onda digital. O primeiro contato que ele teve com o fenômeno da internet foi por meio de redes sociais. "Eu passo muito tempo mexendo no celular, então os vídeos foram aparecendo para mim e eu comecei a brincar disso também na escola", acrescentou. 

Os termos "farmar aura" e "six-seven" não possuem significados concretos, possuindo variações de acordo com cada publicação nas redes. Davi explicou de uma forma que todos conseguem entender: "Farmar aura significa fazer algo muito legal e que impressione as outras pessoas. É pular de um lugar para outro ou subir em algum lugar". "Já o six-seven é só fazer subir e descer as mãos enquanto fala six-seven", acrescentou.

Geração Alfa

A reprodução desse tipo de conteúdo se faz mais presente entre a geração Alfa, dos nascidos entre 2010 a 2024, que é composta pelas primeiras pessoas a nascerem totalmente integradas no mundo digital e nas redes sociais. Segundo dados do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), 89,8% das crianças e adolescentes da capital tinham acesso à internet por meio de celulares ou tablets. 

 30/07/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Tendências de internet, como elas interferem no dia a dia das crianças. CEF 05 do Gama. Professor Fred com alunos
Especialistas avaliam se modismos de internet que viralizam interferem no dia a dia dos estudantes (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A psicóloga infantil Renata Bessa afirma que esse tipo de modismo sempre existiu. Toda geração de criança e adolescente tem uma fase em que existem piadas internas que só fazem sentido para o grupo e que entram na lógica de nomes curtos e repetitivos. Ela relembra momentos em que músicas do grupo Mamonas Assassinas estavam em alta e influenciavam o vocabulário dos jovens da época. Ela pontua a preocupação no uso de redes sociais pelos mais novos: "Não é a busca por memes que é o problema, e sim, os vídeos curtos e rápidos de algumas plataformas", explicou.

Apesar da diversão, a especialista alerta que o excesso no tempo de uso do celular pode impactar o desenvolvimento de crianças e adolescentes. A grande quantidade de estímulos proveniente de conteúdos da internet fornecem dopamina barata, o que gera mecanismos de vício no organismo. "O problema fica maior quando a criança ou o adolescente deixa de ver filmes, ler livros ou até séries para ficar apenas em vídeos curtos e de rápidos estímulos", explica. A partir disso, o cérebro é treinado a receber reforço rápido, diminuindo a capacidade de atenção, concentração e persistência. 

Essa visão também é compartilhada por alguns jovens. Apesar de entrar na brincadeira, Ícaro Gonçalves, 13, concorda que os amigos e outras crianças precisam tomar cuidado com o excesso de telas. "Eu gosto muito de ficar no celular, mas também reservo o meu tempo para ler e brincar fora da internet. Acho que é importante não ficar o dia todo na internet", pontuou. 

A colega de Ícaro, Ingrid Gabriele, 13, também mostra-se preocupada com o excesso de telas na sua geração. "Apesar de ser legal, acho que ficar o tempo todo mexendo no celular pode causar problemas na visão das pessoas da minha idade. Eu vejo que meus amigos passam muito tempo no celular e acho isso perigoso", afirmou.  

 30/07/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Tendências de internet, como elas interferem no dia a dia das crianças. CEF 05 do Gama. Professor Fred com alunos
30/07/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Tendências de internet, como elas interferem no dia a dia das crianças. CEF 05 do Gama. Professor Fred com alunos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Ambiente escolar

Assim como seus colegas de classe, Miguel dos Santos, 12, aprendeu a nova brincadeira por meio de vídeos publicados em redes sociais e reproduz os gestos e brincadeiras na escola. "No início do ano, começou a aparecer vídeo para mim no Instagram. Depois, comecei a brincar com os meninos aqui da escola", contou. Para o estudante, a nova moda é apenas uma boa forma de interação entre os amigos. "Consegui fazer muitos amigos enquanto a gente brincava de farmar aura e six-seven. É legal ter mais essa brincadeira para fazer na escola", acrescentou.

A diretora do Colégio Sigma de Águas Claras, Aline Brito, explicou que o ambiente escolar se torna um campo propício para a divulgação de memes. "A escola costuma ser um reflexo da cultura em que as crianças e os adolescentes estão inseridos. Em pouco tempo, aquilo que surgiu em um vídeo curto passa a aparecer nas conversas, nas brincadeiras e até na forma como eles se comunicam dentro da escola", explicou a psicopedagoga. 

Apesar de existir uma distância geracional entre alunos e professoras, Aline afirma que é possível se integrar a esse novo mundo e utilizar os memes em sala de aula. "A escola não precisa ignorar aquilo que faz parte do universo dos estudantes. Muitas vezes, partir de uma referência conhecida ajuda a despertar interesse e aproximar o conteúdo da realidade deles", disse. 

O professor de matemática do CEF 5 do Gama Fredson Rodrigues, 30, comenta sobre o impacto que os memes tiveram em sua rotina. "As crianças fazem isso toda hora. Não param um segundo", disse. Apesar do alvoroço, ele conseguiu integrar a tendência para estabelecer uma comunicação melhor com os alunos. "Às vezes, quando a turma está conversando muito, eu falo que eles vão perder aura se continuarem, aí ele fica quieto. Acredito que seja importante estabelecer essa relação com as crianças", complementou. 

Para Rodrigues, o comportamento das crianças segue um padrão. "Na minha época de criança tinha essas coisas também. Isso que elas estão fazendo é normal. Não acho que seja prejudicial, é só a moda do momento", concluiu.

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*Estagiária sob a supervisão de Patrick Selvatti

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