A rotina dos entregadores de delivery virou tema de um jogo gratuito que mistura desafios de trânsito, decisões financeiras e reflexão sobre direitos trabalhistas. Lançado na terça-feira (20/10), “No Corre" coloca o jogador no controle de um motociclista que precisa cumprir entregas, lidar com imprevistos e descobrir quanto sobra da remuneração depois de pagar as contas. A experiência pode ser acessada diretamente pelo navegador, sem necessidade de download.

Criado por Hugo Bloch Anquier, formado em Game Design pela DigiPen Institute of Technology, nos Estados Unidos, o jogo foi desenvolvido com auxílio de inteligência artificial em um período de quatro a cinco dias. A proposta é usar os games para aproximar o público das dificuldades enfrentadas por trabalhadores que fazem parte do cotidiano das cidades. Para o desenvolvedor, que reconhece nunca ter trabalhado com entregas, a iniciativa também parte de uma reflexão sobre os próprios privilégios e a responsabilidade de quem tem acesso a recursos e visibilidade. “Nós todos temos a responsabilidade de usar os nossos benefícios para, nem que seja trazer um pensamento crítico para quem realmente sustenta a gente”, afirma. A trilha sonora conta ainda com participação do rapper Xamã, que conheceu o projeto durante uma manifestação no Rio de Janeiro, por intermédio da mãe de Hugo.

Leia Mais

Entre entregas e contas

A experiência do jogo No Corre imita a rotina de desafios de um entregador em uma ambientação urbana noturna e 3DReprodução

Nós jogamos “No Corre” e encontramos uma experiência que combina mecânicas de jogos de corredor, como “Subway Surfers” e “Temple Run", com uma ambientação urbana em três dimensões e estética cel shading, que lembra desenhos animados. Os controles respondem bem, e a trilha sonora acompanha o ritmo da partida. Considerando o curto período de desenvolvimento, de poucos dias, o resultado apresenta um refinamento satisfatório.

Durante as entregas, o jogador precisa desviar de obstáculos, ganhar velocidade e lidar com situações como chuva, demora no atendimento e clientes que exigem que o entregador suba até o apartamento. Os acontecimentos interferem no tempo disponível, nas gorjetas e no resultado financeiro do dia. Segundo Hugo, essas situações foram pensadas para aproximar a experiência de problemas vividos pela categoria, incluindo momentos em que o trabalhador precisa escolher entre preservar o próprio tempo e garantir o dinheiro necessário para pagar as contas. “Você tem uma filha em casa, você não pode dizer não para subir o décimo segundo andar às vezes, porque você precisa daquele dinheiro”, explica.

A experiência também permite selecionar projetos de lei que alteram as condições da partida. As medidas podem afetar tanto o andamento das entregas quanto as despesas acumuladas no fim do dia, que incluem custos relacionados à saúde. A intenção, segundo o desenvolvedor, é apresentar consequências para as escolhas sem determinar qual posição política o jogador deve adotar. “Eu queria criar uma conversa, um diálogo entre nós dois sobre as leis e como elas afetam essas pessoas, mas, ao mesmo tempo, acolher as escolhas desse cara”, afirma. Ele acrescenta que o objetivo é permitir que o jogador avalie os efeitos das medidas por conta própria, em vez de receber uma conclusão pronta.

Realidade dos entregadores







A proposta dialoga com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2024, o Brasil tinha 485 mil pessoas que utilizavam aplicativos de entrega de comida e produtos no trabalho principal. A jornada média desses profissionais era de 46,4 horas semanais, enquanto o rendimento habitual mensal ficava em R$2.340, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).

O rendimento não representa necessariamente o dinheiro que sobra depois de despesas como combustível e manutenção do veículo. A diferença entre o valor recebido e os custos da atividade é um dos aspectos que o jogo procura colocar em evidência, ao reproduzir uma conta diária que reúne ganhos e gastos do entregador.

Para construir os acontecimentos da partida, Hugo conta que buscou opiniões de influenciadores ligados à categoria e recebeu ajuda de uma jornalista que acompanha entregadores. Ele ressalva, porém, que o projeto não foi desenvolvido a partir de uma pesquisa científica. A motivação, segundo ele, foi a percepção de que esses profissionais enfrentam problemas que nem sempre recebem atenção de outros públicos. “A ideia do jogo nunca foi sobre pesquisa. A ideia do jogo foi sobre empatia com uma classe que eu vejo sendo atacada dia a dia na sociedade, que eu vejo sendo sucateada e que sustenta a gente”, afirma.

O desenvolvedor espera que a experiência alcance pessoas que normalmente não acompanham reportagens ou discussões sobre as condições de trabalho dos entregadores. Por isso, o jogo é gratuito e não tem previsão de cobrar pelo acesso ou incluir microtransações. Hugo resume o resultado que espera alcançar como uma oportunidade de reflexão, sem estabelecer uma meta comercial. “O ponto é criar uma conversa, um diálogo e um pensamento crítico”, diz.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Serviço

“No Corre" está disponível no site oficial do game gratuitamente. O jogo funciona pelo navegador, em computadores e celulares compatíveis, sem download, cobrança ou microtransações.

compartilhe