DOENÇA MULTIFATORIAL

Por que diagnosticar e tratar a endometriose é um desafio da medicina

Apesar de avanços científicos, doença que afeta milhões de mulheres é frequentemente diagnosticada tarde e tem limitações importantes no tratamento

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Marília Marasciulo - Cólicas incapacitantes, dor crônica e dificuldade para engravidar fazem parte da rotina de quem vive com endometriose. A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e entre 5% e 15% no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde. O diagnóstico pode demorar anos e não há cura, apesar de avanços no tratamento e no entendimento de seus mecanismos biológicos.

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A endometriose se caracteriza pela presença de tecido semelhante ao endométrio, o revestimento interno do útero, fora da cavidade uterina. Essas células podem se implantar nos ovários, nas tubas uterinas, no intestino ou no peritônio (membrana abdominal) e reagem aos hormônios do ciclo menstrual da mesma forma que o endométrio intrauterino: crescem, se rompem e sangram. Fora do útero, porém, esse sangramento não tem como ser expelido, o que provoca inflamação, aderências e dor.

Por esse comportamento, a doença é considerada benigna, mas crônica e recidivante. Até hoje, não há tratamento capaz de eliminar completamente as lesões e impedir que elas retornem. “É uma doença que depende de mecanismos genéticos que a fazem persistir no corpo da mulher”, explica o ginecologista Rubens Paulo Gonçalves Filho, especialista em endometriose do Einstein Hospital Israelita.

Isso não significa que todas as pacientes convivam com sintomas ao longo da vida. Com acompanhamento e tratamento adequados, muitas conseguem controlar a dor e preservar a fertilidade. “Se ela não tem dor e vive bem, por que não dizer que poderia estar ‘curada’?”, questiona o ginecologista Ricardo de Almeida Quintairos, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

A ausência de cura, no entanto, não resume o principal desafio da endometriose: a doença ainda é pouco compreendida, frequentemente subdiagnosticada e tem seus impactos subestimados pelos sistemas de saúde.

Condição multifatorial

Descrita há mais de um século, a endometriose passou a ser compreendida com mais profundidade pela medicina apenas nas últimas décadas, à medida que os avanços nas pesquisas sobre inflamação, dor crônica e infertilidade revelaram a complexidade de seus mecanismos. Hoje, está bem estabelecido que se trata de uma doença multifatorial, resultado da interação entre fatores genéticos, hormonais e imunológicos.

Essa combinação explica a variedade de manifestações clínicas. Os sintomas mais frequentes incluem:

  • cólicas menstruais intensas
  • dor pélvica crônica
  • dor durante relações sexuais
  • alterações intestinais ou urinárias cíclicas
  • dificuldade para engravidar

Segundo a Febrasgo, a infertilidade está presente em 30% a 50% dos casos. “A dor pode vir acompanhada da dificuldade de engravidar, que pode coexistir com outros sintomas. As manifestações mais comuns são dor pélvica e infertilidade, mas isso não exclui que a mulher apresente todo o conjunto”, relata Rubens Paulo. 

mulher deitada na cama de bruço
Apesar da grande quantidade de mulheres afetadas, o diagnóstico na maioria das vezes é feito tardiamente Kinga Howard/Unsplash

Do ponto de vista biológico, a predisposição genética parece criar um terreno favorável, enquanto alterações hormonais — especialmente relacionadas ao estrogênio — e falhas no sistema imunológico contribuem para a instalação e a progressão da doença. A resposta inflamatória exacerbada na pelve desempenha papel central tanto no crescimento das lesões quanto nos quadros de dor persistente.

A ciência também identifica grupos de maior risco, como mulheres com menarca precoce, ciclos menstruais curtos, fluxo intenso e ausência de gestações. “A medicina já sabe muita coisa: que é uma doença genética, imunológica, como cuidar, tratar e diagnosticar”, afirma Ricardo de Almeida. “O que ainda não sabemos é por que, em algumas mulheres, a endometriose é leve, e em outras, tão grave.”

Essa mesma lógica multifatorial ajuda a entender a resposta desigual aos tratamentos. Enquanto algumas pacientes evoluem bem com terapias hormonais simples, outras precisam de múltiplas cirurgias e continuam convivendo com sintomas, reforçando que não há um único caminho ou explicação para a doença.

Outra questão em aberto diz respeito à origem do tecido endometrial fora do útero. A hipótese mais aceita é a da menstruação retrógrada, em que parte do fluxo menstrual retorna pelas tubas uterinas para a cavidade abdominal, permitindo que células endometriais se implantem em locais inadequados. A teoria, porém, não explica todos os casos: esse fenômeno ocorre na maioria das mulheres, mas apenas entre 6% e 10% desenvolvem endometriose, segundo estudo publicado em 2024 no "International Journal of Molecular Sciences".

Alívio dos sintomas

Enquanto ainda não há um tratamento capaz de erradicar completamente a endometriose, o manejo da doença se concentra no alívio dos sintomas e na melhora da qualidade de vida das pacientes. As estratégias disponíveis combinam medicamentos e procedimentos cirúrgicos, definidos caso a caso, conforme a gravidade do quadro, a idade da mulher, o desejo de engravidar e a resposta a tratamentos anteriores.

Entre as opções medicamentosas, os anti-inflamatórios não hormonais são usados para o controle da dor, enquanto os tratamentos hormonais buscam suprimir a menstruação e reduzir o estímulo ao tecido endometriótico. Pílulas anticoncepcionais combinadas, progestagênios isolados, dispositivos intrauterinos com levonorgestrel e análogos do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) fazem parte do arsenal terapêutico.

Esses métodos, porém, não eliminam as lesões existentes e, com frequência, os sintomas retornam após a interrupção do tratamento. “Uma mulher pode fazer tratamentos muito bem-feitos e a endometriose, infelizmente, voltar”, lamenta Rubens Paulo.

Estudos recentes têm investigado o papel de terapias complementares no alívio dos sintomas. Uma pesquisa publicada em 2021 na "Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia" apontou que a acupuntura pode contribuir para a redução da dor em pacientes com endometriose. Evidências semelhantes aparecem em análises sobre atividade física: uma revisão sistemática publicada em 2025 na "PLOS ONE" associou a prática regular de exercícios a melhora da regulação hormonal, redução da inflamação sistêmica e ganhos na qualidade de vida.

Mulher sentada em sofá segurando uma xácara de chá e uma cartela de remédio
A endometriose faz com que o tecido semelhante ao revestimento do útero, chamado endométrio, cresça fora do útero Freepik

A alimentação e a suplementação também vêm sendo exploradas como estratégias adjuvantes. Uma revisão publicada em 2023 na "Frontiers in Nutrition" indica que a vitamina D pode ajudar a reduzir a dor endometrial por meio do aumento da capacidade antioxidante, enquanto a suplementação de vitaminas C e E mostrou redução significativa dos sintomas em comparação com placebo. Os autores ressaltam, no entanto, que ainda são necessárias mais evidências para a definição de protocolos terapêuticos consistentes.

Quando o manejo clínico não é suficiente — especialmente em casos de dor refratária, comprometimento de órgãos ou infertilidade associada —, a cirurgia pode ser indicada. O procedimento mais comum é a videolaparoscopia, que permite identificar e remover os focos de endometriose. Técnicas mais recentes, como a cirurgia robótica, têm sido empregadas para aumentar a precisão e preservar estruturas anatômicas.

Ainda assim, mesmo após a retirada das lesões, a recorrência da doença é possível. “Não existe um tratamento melhor, existe um tratamento melhor para determinadas condições clínicas que a mulher tem”, aponta  Ricardo de Almeida, da Febrasgo. “Ela pode ser mínima, leve, moderada ou grave. Consequentemente, em cima de cada estágio de gravidade da doença se impõe um tratamento adequado.”

Diagnóstico precoce

O principal desafio para médicos e pacientes continua sendo o diagnóstico da endometriose. O exame padrão-ouro é a videolaparoscopia com biópsia, mas o procedimento é invasivo e não indicado como primeira abordagem. Nos últimos anos, exames de imagem como a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética pélvica ganharam espaço por apresentarem boa acurácia na identificação das lesões, especialmente nos casos de endometriose profunda.

Mesmo com essas ferramentas, porém, o avanço mais urgente da ciência está na identificação precoce da doença — uma dificuldade que não se restringe a países com menos recursos. “No mundo todo, há uma grande dificuldade para fazer o diagnóstico precoce. É uma barreira que ao longo do tempo não melhorou”, pontua o especialista da Febrasgo.

No Brasil, detectar a doença leva, em média, sete anos, segundo o Ministério da Saúde. E isso após a paciente passar por diversos médicos. “Na verdade, o diagnóstico é extremamente fácil de ser feito. O problema é que, muitas vezes, essas mulheres vão em médicos generalistas que não conhecem a doença”, observa Ricardo de Almeida.

Esse atraso tem consequências diretas na evolução da endometriose e na vida das pacientes. Quanto mais tempo a doença permanece sem tratamento adequado, maior o risco de comprometimento de órgãos, agravamento da dor e desenvolvimento de infertilidade.

A endometriose não tem cura definitiva, mas com acompanhamento adequado e tratamento individualizado, é possível controlar os sintomas
A endometriose não tem cura definitiva, mas com acompanhamento adequado e tratamento individualizado, é possível controlar os sintomas Freepik

Os impactos não se limitam ao aspecto físico. Uma revisão sistemática publicada em 2021 identificou associação entre endometriose e maior prevalência de sintomas de ansiedade e depressão. E um estudo brasileiro de 2025 ampliou esse elo ao apontar a ocorrência frequente de distúrbios do sono e estresse crônico, além de indicar que abordagens multidisciplinares, incluindo acompanhamento psicológico e terapias complementares, contribuem para a melhora da qualidade de vida.

O peso da doença também se reflete em custos econômicos elevados. Uma revisão sistemática publicada em 2017 na Annals of Reproductive Medicine and Treatment estimou que a endometriose gera custos anuais entre US$ 2,2 mil e US$ 8,5 mil por mulher recém-diagnosticada e entre US$ 11,7 mil e US$ 12,9 mil por paciente com diagnóstico prévio, considerando dólares internacionais ajustados por paridade do poder de compra. Segundo o estudo, os custos indiretos, especialmente a perda de produtividade, representam a maior parcela desse impacto.

“O que falta é um pouco de trabalho do ponto de vista governamental e político com campanhas públicas que massifiquem a mensagem para que as mulheres entendam que aquela cólica forte não é normal. A partir do momento que elas têm cólica menstrual intensa, devem procurar o sistema de saúde”, frisa Ricardo.

Novas abordagens

As limitações no diagnóstico precoce e no tratamento ajudam a explicar por que a pesquisa em endometriose tem se concentrado, nos últimos anos, no desenvolvimento de abordagens mais eficazes e menos invasivas. O objetivo é duplo: melhorar o controle dos sintomas e reduzir os impactos da doença ao longo do tempo.

Entre as frentes mais exploradas estão as terapias antifibróticas, voltadas a inibir a formação de tecido cicatricial associada à progressão da endometriose. Uma das dificuldades no controle da doença é justamente a capacidade das lesões de se tornarem fibrosadas, promovendo aderências e dor crônica. Um estudo experimental de 2023 mostrou que a neferina, composto derivado do embrião da planta lótus, reduziu a fibrose endometriótica ao inibir a expressão de proteínas ligadas à formação de tecido cicatricial e à progressão das lesões em modelos celulares e animais.

Outra linha de pesquisa envolve medicamentos que atuam de forma mais seletiva no eixo hormonal. Fármacos moduladores dos receptores de progesterona e antagonistas de GnRH de segunda geração, como elagolix e relugolix, vêm sendo testados com resultados encorajadores, inclusive por permitirem maior controle de efeitos colaterais, como a perda de massa óssea. Uma revisão publicada em 2021 no "International Journal of Molecular Sciences" indica que essas drogas oferecem controle dos sintomas com menor risco de eventos adversos prolongados.

A endometriose afeta cerca de uma a cada 10 mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo
A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo BBC/Alamy

A busca por tratamentos mais personalizados também tem impulsionado o avanço da medicina de precisão na endometriose. Pesquisadores investigam marcadores genéticos e moleculares capazes de indicar a presença da doença, sua progressão e a resposta individual às terapias. Um estudo publicado em 2022 no "Journal of Clinical Medicine" mostrou que a análise de microRNAs na saliva foi capaz de distinguir mulheres com endometriose daquelas sem a condição. Se confirmada em estudos maiores, a abordagem pode contribuir para diagnósticos mais precoces e menos dependentes de procedimentos cirúrgicos.

Nesse esforço, a inteligência artificial (IA) começa a ser incorporada sobretudo como ferramenta diagnóstica. Modelos de aprendizado de máquina vêm sendo treinados para identificar padrões em exames de imagem e prontuários eletrônicos que escapam à análise humana, embora uma revisão de 2025 indique que essas aplicações ainda estão em estágios iniciais.

Além da análise de exames, há iniciativas baseadas em IA voltadas ao desenvolvimento de assistentes digitais que orientam pacientes sobre sintomas, opções terapêuticas e encaminhamento adequado, com potencial para reduzir o tempo até o diagnóstico e ampliar o acesso à informação. 

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“Acho que nos próximos quatro ou cinco anos sairão medicamentos interessantes”, especula Ricardo. “O problema é que o preço muitas vezes é incompatível com a realidade que vivemos aqui. Mas espero que, com o tempo, a gente consiga usar e resolver alguns casos de maneira mais tranquila.”

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