Gabriel Azevedo (MDB), candidato ao governo de Minas Gerais, protocolou notícia-crime contra o também candidato Ben Mendes (Missão) por possíveis crimes de difamação e injúria eleitoral. A medida é derivada de um confronto entre os dois durante debate promovido pela Rádio TMC 88.7 FM, em parceria com a TV Sim Brasil, em 2 de setembro, e cita ainda registros policiais e judiciais relacionados ao adversário.

Na ocasião, ao perguntar sobre a dívida de Minas Gerais com a União, Gabriel lembrou que Ben havia sido convidado para um encontro anterior, promovido pela TV Horizonte, mas não compareceu. Na réplica, o emedebista afirmou que o plano de governo do adversário não estava disponível publicamente no sistema da Justiça Eleitoral

Ben reconheceu a ausência no debate anterior, mas acusou Gabriel de divulgar fake news e de induzir o público a erro. Em seguida, perguntou se o adversário havia comparecido ao programa “para espalhar fake news” e afirmou que seria a segunda ocorrência em menos de três minutos. “Eu pensei que você fosse sério”, ironizou.

Na notícia-crime, a defesa de Gabriel sustenta que as duas informações apresentadas por ele eram verdadeiras. Em relação ao plano de governo, o documento afirma que o arquivo só passou a aparecer no DivulgaCandContas em 3 de setembro, um dia depois do debate. A discussão, segundo a petição, envolve a disponibilidade pública do documento, e não apenas a existência de um plano já protocolado.

“Não fui à Justiça porque ele me criticou. Fui porque esse candidato me acusou de espalhar fake news quando eu havia dito a verdade”, afirma Gabriel. 

Registros citados na notícia-crime

A notícia-crime foi protocolada em 4 de setembro e distribuída à 332ª Zona Eleitoral de Belo Horizonte. O documento foi acompanhado de relatório policial e certidões criminais e menciona “mais de vinte registros policiais e judiciais”.

A defesa também apresenta um levantamento de 14 Registros de Evento de Defesa Social (Reds), produzido em 9 de julho de 2025 no âmbito de uma investigação anterior à campanha eleitoral. Os registros abrangem Belo Horizonte, Betim, Contagem, Itambacuri, Uberlândia e Vespasiano. Os 14 Reds e a referência a mais de vinte registros policiais e judiciais correspondem a conjuntos documentais diferentes.

Para os advogados de Gabriel, o episódio do debate não teria sido um fato isolado. A petição usa os registros anteriores para sustentar a existência de um modo recorrente de atuação atribuído a Ben, como um "modus operandi". “Quem quer governar Minas Gerais precisa aceitar que sua trajetória seja conhecida. Não dá para posar de fiscal da honestidade alheia enquanto o próprio histórico exige tantas explicações”, afirma Gabriel.

A notícia-crime pede a obtenção da íntegra da gravação do debate e o envio dos autos ao Ministério Público Eleitoral, que poderá avaliar eventual oferecimento de denúncia ou a necessidade de novas diligências.

Ao apresentar os documentos, Gabriel também faz uma distinção entre os registros policiais e uma eventual responsabilização criminal. “Eu não estou pedindo que ninguém transforme um relatório policial em sentença”. Em seguida, questiona: “Esse histórico é compatível com alguém que pretende governar Minas Gerais?”

Histórico

O registro mais antigo apresentado no levantamento é de fevereiro de 2015, em Itambacuri. Segundo relatório da Polícia Civil, Ben teria se apresentado como advogado dentro de uma delegacia sem possuir essa condição. O documento policial cita “exercício ilegal de profissão” e “falsidade ideológica”, além de relatar desrespeito aos policiais. Essas são descrições constantes no relatório, e não condenações por esses delitos.

A certidão judicial relacionada ao caso registra auto de prisão em flagrante e uma ação penal por desacato e contravenções ligadas ao exercício ilegal de profissão e às informações prestadas à autoridade sobre identificação ou qualificação. Ben passou pelo Presídio de Itambacuri e obteve liberdade provisória mediante fiança no dia seguinte.

O procedimento terminou após transação penal em 2017, com apresentação em juízo, pagamento de dois salários mínimos e proibição de frequentar bares ou estabelecimentos similares. A extinção da punibilidade foi registrada em setembro de 2019.

Nos anos seguintes, o levantamento reúne ocorrências e procedimentos relacionados principalmente a calúnia, difamação e injúria em cidades como Betim, Contagem, Belo Horizonte, Vespasiano e Uberlândia. Parte dos processos citados teve a punibilidade extinta por prescrição ou outros motivos, enquanto outros documentos se referem apenas a registros policiais ou investigações.

Entre os casos mencionados está uma investigação sobre um episódio ocorrido em maio de 2025, em Betim. Segundo a narrativa policial, durante o cumprimento de uma intimação, Ben teria gritado com agentes, proferido ofensas, arremessado o documento contra o rosto de um deles e soltado um cão pastor-alemão em atitude considerada intimidatória. O procedimento apura ameaça, calúnia e desacato e, conforme certidão de agosto de 2026, ainda aguardava a conclusão das investigações.

Foi dentro desse inquérito que um investigador elaborou o levantamento dos 14 registros anteriores. A lista inclui ainda ocorrências classificadas como atrito verbal, constrangimento ilegal, agressão, vias de fato e crimes contra a honra. A existência dos registros, por si só, não corresponde a condenações.

Outro procedimento, relacionado a fatos de dezembro de 2024 e com duas mulheres indicadas como vítimas, aparece no relatório policial como em andamento. Entre os enquadramentos relacionados estão desobediência, difamação, incitação ao crime, injúria, intimidação sistemática e violência psicológica contra a mulher. O documento registra ainda despacho de indiciamento em fevereiro de 2026.

Caso de agressão em Betim

Um dos episódios mais recentes citados nos documentos ocorreu em 13 de março de 2026, em uma loja de construção, em Betim. O inquérito foi instaurado para apurar, em tese, ameaça e lesão corporal.

Em depoimento, a gerente da loja afirmou que uma discussão sobre a retirada de mercadorias terminou em agressões e ofensas. Segundo ela, Ben lhe deu um tapa e, quando tentou revidar, imobilizou suas mãos com uma camisa e a atingiu novamente no rosto.

A funcionária Gresiane da Mata de Lima também prestou depoimento e afirmou ter visto Ben agredindo Ana Paula. Segundo ela, o candidato ainda tentou agredi-la enquanto ela filmava a discussão, sendo contido por outro funcionário.

Ana Paula relatou ainda que Ben publicou vídeos com ofensas contra ela e que, depois da exposição, passou a receber ameaças pela internet. Gresiane também afirmou ter recebido mensagens de ameaça e ofensas.

Ben apresentou uma versão diferente. No boletim de ocorrência, afirmou que foi agredido pela gerente e que apenas se defendeu. Um funcionário que o acompanhava também relatou agressões contra ele. No procedimento, Ana Paula e Ben aparecem ao mesmo tempo como investigados e vítimas.

O que diz Ben Mendes

Além de divulgar uma nota à imprensa, Gabriel publicou nas redes sociais um vídeo de quase 30 minutos no qual apresenta os motivos que, segundo ele, levaram à notícia-crime e comenta os registros reunidos no documento.

Procurada pelo Estado de Minas, a assessoria de Ben Mendes enviou uma nota em que o candidato rebate as acusações. Veja a íntegra:

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“O candidato Gabriel Azevedo, por ter sido chamado no debate de Gabriel Mentirinha, faz jus a alcunha e publica uma imagem falsa, feita por inteligência artificial, para além disso, me estranha o fato de um candidato tão irrelevante como eu, segundo o Gabriel Azevedo, despertá-lo na necessidade de gravar um vídeo de 27 minutos, tentando me descredibilizar.”

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