O candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) teve um crescimento relevante nas pesquisas de intenção de voto e no número de seguidores nas redes sociais nas duas últimas semanas. Cientistas políticos avaliam o fenômeno e classificam o acontecimento como "surpreendente".

Desde o debate presidencial promovido pela Band, a relevância de Cury o percentual de intenção de voto do escritor aumentou de maneira significativa: o candidato tem 11%, segundo a BTG/Nexus; 10% de acordo com a Real Time Big Datae 7,8% pela AtlasIntel/Bloomberg, com crescimento de 9% nas duas primeiras, e 6% no levantamento da AtlasIntel, em relação à pesquisas anteriores realizados pelas mesmas empresas. No Instagram, o presidenciável ganhou 2 milhões de novos seguidores.

Segundo Antônio Fernandes, mestre e doutorando em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a ascensão do candidato tem relação direta com as redes sociais, os "cortes" do debate da TV Bandeirantes e de outras entrevistas com participação do candidato.

"Cury furou a ‘bolha’ após o primeiro debate, que estava esvaziado por estar sem os dois principais nomes na disputa, mas que, ao mesmo tempo, serviu de exposição necessária exatamente para os nomes menos conhecidos na corrida. No começo do mês, a pesquisa Genial/Quaest colocava Cury com 74% de eleitores que ‘não o conheciam’. Ao furar a bolha, o crescimento alimenta o crescimento, pois a 'surpresa’ vira notícia na rede informacional que temos hoje, viralizando nas redes, aparecendo na TV, internet, jornais, análise de blogs", analisa o especialista.

Ainda em relação às redes sociais, o doutor em ciência política Adriano Cerqueira, professor da Universidade Federal Ouro Preto (UFOP) e do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), tem a mesma opinião de Fernandes.

"Por mais popular que seja, o engajamento nas redes sociais com certeza é o que está fazendo com que ele tenha uma boa visibilidade na sua candidatura. Ele não tem um grande tempo de exposição de propagandas eleitorais, então você pode dizer que o sucesso é por conta das redes, sim", afirma o cientista político.

Cury contra a polarização política

Um outro ponto apontado por Cury em sua campanha é o fim da polarização política existente no Brasil. Em entrevistas recentes e em suas redes sociais, o psiquiatra se diz contra o fenômeno, defendendo o diálogo e afirmando que "o Brasil tem cura".

Apesar do crescimento nas pesquisas, Cerqueira não enxerga Augusto Cury como um nome capaz de superar Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nesta eleição.

"Não acho que o Cury ainda consiga vencer a polarização. Acho que ele vai crescer principalmente em relação aos outros candidatos, como Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), mas imaginar as bases lulista e bolsonarista migrando para o Cury, é muito cedo para isso. Então, acho que não vai acontecer", declarou o professor.

Já Fernandes acredita que o candidato do Avante não conseguirá acabar com a polarização, já que, segundo ele, o fenômeno nunca deixará de existir.

"Sempre vamos falar de polarização política, que deve continuar disposta entre o petismo e o antipetismo. Não por acaso, nas últimas pesquisas, Flávio tem perdido um maior percentual de intenção de votos (para Cury, nas pesquisas) do que Lula. O PT esteve em todas as disputas presidenciais desde 1989. Ganhou cinco e nunca foi terceiro lugar", explicou.

"Em um cenário de Cury indo ao segundo turno, é mais provável que seja na vaga que hoje é do Flávio. Como consequência, a terceira via vira Cury contra Lula e o PT, e continua a fala sobre polarização. Em um cenário de Cury em terceiro lugar, se apoia Lula receberá os devidos 'adjetivos’ e se declarar apoio ao Flávio, idem. Apesar disso, caso declare apoio, será importante", acrescentou o cientista político.

Entretanto, ambos os especialistas afirmam que Cury pode ser importante para a disputa presidencial. Para além da perda de votos de Lula e Flávio Bolsonaro, o apoio do psiquiatra a qualquer um dos candidatos que forem ao segundo turno pode decidir o vencedor.

"Pelas suas falas e por sua atuação, ele realmente tem condições de tirar os votos tanto do Lula quanto do Flávio. Uma postura assim mais de centro, centro-esquerda, centro-direita. E então, eleitores dessas faixas de tendência que estão ou com Lula ou com Flávio, podem migrar os votos para ele", diz Cerqueira.

"Cury com certeza impacta em outros candidatos, principalmente nos favoritos para disputar o segundo turno. Caso os últimos percentuais que Cury tem obtido nas pesquisas representem um percentual relevante do comportamento do eleitor na urna, os seus votos serão disputados em um segundo turno entre Lula e Flávio. Ou seja, um apoio seu seria definidor nesse cenário", confirma Fernandes.

A sabatina do Jornal Nacional

Mesmo com o grande crescimento repentino, o candidato do Avante foi alvo de críticas e deboches nas redes sociais após sua participação na sabatina do Jornal Nacional. Na oportunidade, Cury propôs trocar funcionários públicos por inteligências artificiais e uso de drones para defesa à violência contra a mulher, chegando até a perder seguidores nas redes sociais após a sabatina.

Fernandes minimizou o impacto da entrevista e afirmou que as ideias tidas como "absurdas" podem fazer parte da estratégia do candidato. Já Cerqueira disse que a sabatina pode prejudicá-lo.

"Do ponto de vista técnico, os analistas colocam sua apresentação como péssima. Mas nós não estamos mais em um momento de explicações longas, onde um 'story' do Instagram tem 60 segundos. Ele falou alguns absurdos, mas isso gera polêmicas, que gera mais visualizações, atenção, o que é, no momento, fundamental para sua candidatura", disse o pesquisador da UFPE.

"Não acho que a participação de Cury foi boa, não. Tiveram algumas polêmicas que ele enfatizou e pode, inclusive, se prejudicar, porque essa pesquisa não teve o impacto da participação dele, já que demora alguns dias para se firmar, ainda mais alguém que depende tanto das redes sociais. Então, não sei se foi favorável para ele a participação na sabatina", contrapôs Cerqueira.

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* Estagiário sob a supervisão da subeditora Tetê Monteiro

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