Um dia após os Estados Unidos anunciarem tarifas de 25% sobre a importação de uma série de produtos brasileiros, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escalou nesta quinta-feira (16/7) um grupo de ministros de Estado e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para responder diretamente tanto ao novo tarifaço quanto às críticas feitas pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao presidente brasileiro.
A reação conjunta do governo brasileiro combinou acusações de suposta interferência política promovida pelos EUA, críticas à família Bolsonaro e o anúncio de que o governo brasileiro dará início aos procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada pelo Congresso no ano passado.
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Por outro lado, integrantes do governo afirmam que continuarão aberto a negociações com os Estados Unidos.
Um dos mais contundentes foi o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que classificou o novo tarifaço como uma tentativa de interferência dos EUA no Brasil. Ele declarou que o governo não iria "baixar a cabeça" e nem agir com "viralatice".
A reação organizada dos ministros ocorre depois de Rubio responsabilizar Lula pelo fracasso das negociações comerciais e afirmar que as novas tarifas seriam uma consequência da postura do presidente brasileiro.
"Que não haja dúvidas sobre o motivo [das tarifas]: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa fé", escreveu Rubio no X (antigo Twitter).
"Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Durante o último ano, Lula priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso."
Um diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que o tom da resposta brasileira foi calibrado para rebater o que o governo entendeu como um "desrespeito" por parte de Rubio.
Segundo ele, a manifestação de Rubio quebrou uma regra implícita da diplomacia segundo a qual, por hierarquia, ministros de Estado não devem criticar chefes de Estado.
Além disso, a resposta foi uma tentativa de desmontar o argumento lançado pelo ministro americano e reforçado pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Reação em conjunto: 'Sem baixar a cabeça'
O primeiro a reagir diretamente à fala de Rubio foi o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Em um pronunciamento no início da tarde, ele classificou os ataques ao presidente brasileiro como incompatíveis com as relações entre países considerados amigos.
"As declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros. Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo", disse Vieira.
Para o chanceler, as críticas de Rubio revelariam uma insatisfação do governo americano com a suposta resistência brasileira às exigências apresentadas durante as negociações entre os dois países.
"Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações", complementou Vieira.
Mais tarde, o governo brasileiro organizou uma uma entrevista coletiva na sede do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em Brasília.
A entrevista reuniu Durigan, Vieira, o titular do MDIC, Márcio Elias Rosa, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o vice-presidente Geraldo Alckmin e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães.
Durigan chamou as tarifas de "interferência externa".
"A gente precisa colocar em pratos claros que (as tarifas) se tratam de uma interferência externa do ponto de vista do governo (...) É inadmissível que isso aconteça nessa altura do campeonato", disse o ministro.
Durigan afirmou ainda que a política econômica brasileira não poderia ser orientada pelas prioridades de autoridades estrangeiras ou por compromissos assumidos por grupos políticos com outro governo.
"A política econômica de um país é feita para os seus cidadãos, não para atender o secretário de Estado de um outro país, sinalizando com um programa de governo de transição para atender as suas prioridades estrangeiras."
A fala foi interpretada como uma menção direta a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, há poucas semanas, enviou uma carta a Marco Rubio oferecendo a formação de um grupo de transição junto o governo americano caso ele vença as eleições deste ano.
"E por fim, nós seguiremos sem baixar a cabeça, sem nos dobrar a interesses estrangeiros. Com isso a gente vai seguir protegendo o Pix. Nós seguiremos protegendo a nossa soberania geológica sem viralatice e nós seguiremos protegendo a nossa democracia contra a interferência internacional indevida", complementou Durigan.
O ministro disse, contudo, que o governo brasileiro ainda está disposto a negociar com os Estados Unidos.
"Com isso, nós não estamos dizendo que nós não estaremos abertos à negociação, pois seguiremos abertos a diplomacia à negociação, seja com os Estados Unidos, seja com qualquer outro país que nos trate com o devido respeito".
Reciprocidade e família Bolsonaro
A crítica de Durigan reforça a estratégia do governo Lula de vincular as tarifas à atuação política da família Bolsonaro.
Na primeira manifestação oficial após o anúncio, divulgada ainda na quarta-feira (15/7), o governo classificou a decisão americana como um marco negativo na relação bilateral e mencionou, diretamente, a suposta ação da família Bolsonaro pelas tarifas.
"É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros."
Nos últimos dias, porém, Flávio Bolsonaro tem dito que foi Lula quem provocou a imposição de tarifas para tirar proveito eleitoral e que chegou a tentar convencer Rubio e outros oficiais do governo americano a não tarifar produtos brasileiros.
Em uma segunda nota, divulgada no final da tarde, o governo rebateu a acusação de Rubio de que o Brasil não teria se empenhado ou negociado de boa-fé.
"O Governo brasileiro se manteve aberto ao diálogo com as autoridades americanas desde o início das investigações da seção 301, mesmo não reconhecendo a legitimidade desse instrumento sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Desde julho de 2025, foram mais de 30 reuniões entre as duas partes."
Hoje, Durigan voltou a mencionar que o governo poderá adotar retaliações comerciais contra os Estados Unidos em resposta às tarifas.
"Para concluir, nós levaremos esse grupo de ministros ao presidente Lula a retomada do processo de reciprocidade conforme determina a lei aprovada por unanimidade por todos os partidos políticos, por todas as lideranças políticas nacionais, aprovado por unanimidade no Congresso Nacional e o presidente Lula nos dará orientação a respeito disso."
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Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil afirmou que o governo ainda analisa o impacto prático das novas tarifas, que só deverá se manifestar sobre isso nas próximas semanas.
