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Flávio lança candidatura em meio a desgastes e incertezas

Convenção do PL, neste sábado, formalizará o nome do senador para a corrida à Presidência. Milei é esperado no evento, mas Michelle não comparecerá

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Com a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (RJ) impactada por uma série de desgastes e incertezas, a convenção nacional do PL oficializará, neste sábado, o nome dele para a corrida à Presidência da República. O evento ocorre após a reconciliação do parlamentar com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, via redes sociais. A madrasta, porém, não comparecerá à cerimônia, sob a justificativa de que precisa cuidar do ex-presidente Jair Bolsonaro — em prisão domiciliar humanitária. Um vídeo dela em apoio ao enteado deve ser exibido durante a convenção. 

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Com a crise que impacta a pré-campanha, Flávio deu início à reaproximação pública com Michelle por meio de um vídeo em que pede desculpas à ex-primeira-dama pelas agressões verbais contra ela. Ele ainda fez um apelo para que a madrasta apoie sua candidatura ao Planalto. O senador reconheceu que o momento "é difícil para todo mundo" e que "não é perfeito", mas pregou união na direita e afirmou que nunca teve a intenção de desrespeitar ninguém, ainda mais a esposa do pai. 

Michelle curtiu a publicação e postou um vídeo aceitando o pedido de desculpas e indicando que vai trabalhar pela eleição do senador. "Vamos sentar, conversar, ajustar os detalhes e, juntos, vamos reunir um grande exército de pessoas de bem para resgatarmos o nosso Brasil", disse. Desde então, Michelle e Flávio Bolsonaro voltaram a se seguir nas redes sociais, mas ainda não se encontraram. 

O gesto encerrou, ao menos publicamente, uma crise iniciada em junho, quando Michelle afirmou, em dois vídeos postados nas redes sociais, ter sido "humilhada" e "desrespeitada" por Flávio após divergências sobre o apoio do PL à candidatura de Ciro Gomes (PSDB) no Ceará.

Outros episódios fragilizaram a pré-campanha do senador. Nos últimos meses, ele passou a conviver com o desgaste provocado pelas revelações sobre sua relação com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro; pelas investigações envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, que retrata a trajetória Jair Bolsonaro; e pela divulgação de uma foto em que aparece ao lado de Luiz Phillipi Mourão, o "Sicário" de Vorcaro, além do embate público com Michelle, considerada um dos principais ativos eleitorais da direita entre mulheres e evangélicos.

Alianças

A convenção do PL ocorre, também, em meio a indefinições sobre alianças partidárias. Legendas do Centrão, como a federação União-Progressista e o Republicanos, devem assumir posição neutra em relação a candidatos à Presidência, evitando comprometer a atuação dos diretórios regionais com um único projeto nacional — o que impacta a campanha de Flávio, que esperava respaldo das siglas. 

Outro ponto negativo para a pré-campanha foram as declarações do senador contra as urnas eletrônicas, em encontro com embaixadores em Brasília, nesta semana. No evento, ele levantou dúvidas sobre a segurança dos equipamentos e pediu que os países enviem o máximo possível de observadores para acompanhar o pleito de outubro.     

O evento deste sábado deve ocorrer sem a definição de vice de Flávio na chapa. A escolha tende a ser por uma mulher, para tentar reduzir a rejeição dele no eleitorado feminino. Caso a opção seja por uma chapa pura, as cotadas são as deputadas Júlia Zanatta (PL-SC) e Bia Kicis (PL-DF). A senadora Tereza Cristina (PP-MS) era almejada para o posto, mas recusou. Também aparece o nome da ex-presidente da Caixa Daniella Marques, do Republicanos. A resistência a ela, porém, parte do próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto. O dirigente argumenta que Daniella é "ótima", mas não atrai voto. 

Além de Michelle, outras aliadas de Flávio não comparecerão à convenção: a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), que estarão em outras agendas. Já Bia Kicis participará do evento. 

Quem também comparecerá é o presidente da Argentina, Javier Milei. Nessa sexta-feira à noite, Flávio postou um vídeo nas redes sociais em que ambos aparecem como pilotos de aviões-caças em direção a São Paulo, com a missão de "livrar o Brasil dos vermelhos". O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também deve ir.

Sobrevivência

Antigos aliados não veem o eventual embarque de Michelle Bolsonaro na campanha como salvação para Flávio. Na avaliação do deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) — pastor evangélico e crítico da forma como o bolsonarismo conduz sua relação com o eleitorado religioso —, a reaproximação está ligada à necessidade de interromper o desgaste da candidatura.

“Na verdade, não há nada de espontâneo nesse movimento do Flávio em relação a Michelle. É uma questão de sobrevivência. Está nítido e claro que esse movimento dele é para estancar essa sangria de queda nas pesquisas e na percepção de que, a cada semana, nós vamos ter um escândalo envolvendo a sua candidatura”, afirmou ao Correio.

Para o parlamentar, o gesto pode produzir algum efeito imediato, mas dificilmente mudará o cenário. “Os reais problemas de Flávio Bolsonaro são problemas morais. Portanto, essa reaproximação eu não vejo como solução para as crises que a campanha está enfrentando neste momento”, acrescentou.

Já o líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), destacou que a união em torno de Michelle é fundamental para fortalecer a candidatura. “É muito importante, e não só ela, como todos os apoios das lideranças nacionais, para livrarmos o Brasil de Lula e do PT”, disse ao Correio. Na mesma linha, o líder da oposição no Senado, Izalci Lucas (PL-DF), resumiu a reconciliação: “Foi maravilhoso, era o que a gente esperava e precisava dessa união, e agora vai dar tudo certo, 100%”.

Sem sinceridade

A base governista, por sua vez, aponta motivação estritamente eleitoral. “Ninguém consegue ver sinceridade no pedido ou no perdão. Se ela negasse seria ainda mais responsabilizada pelo desgaste”, afirmou a vice-líder do PT na Câmara, Maria do Rosário (RS), à reportagem. Para o deputado Rogério Correia (PT-MG), a aproximação oferece apenas um alívio temporário. “Isso dá um fôlego para ele ser candidato, mas o desgaste é muito grande”, frisou.

Nos bastidores, a pacificação parece mais limitada do que a imagem transmitida pelos vídeos. Uma fonte próxima a Michelle, ouvida pelo Correio, afirmou que a ex-primeira-dama aceitou gravar a mensagem “mais para amenizar a barra dela” do que para assumir protagonismo na campanha.

Segundo esse interlocutor, Michelle ainda resiste a vincular sua imagem à de Flávio e, por isso, limitar-se, num primeiro momento, a uma manifestação simbólica. A cautela estaria relacionada ao receio de novos desgastes envolvendo o pré-candidato, entre eles a possibilidade de surgirem novos fatos que atinjam sua imagem junto ao eleitorado conservador. Outra fonte avalia que um eventual vazamento de material comprometedor envolvendo Flávio teria potencial de perdas expressivas entre evangélicos.

Para especialistas, o principal beneficiário da reconciliação pode nem ser Flávio. O cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, avalia que o gesto fortalece principalmente a imagem da ex-primeira-dama junto ao eleitorado feminino e religioso. “O impacto dessa reconciliação tem muito mais a ver com a Michelle Bolsonaro do que com o Flávio. Ela reforça a imagem de uma mulher de valores e de coesão familiar”, afirmou. Na análise dele, Michelle tende a concentrar esforços em sua própria candidatura ao Senado e deverá participar da campanha presidencial de forma discreta.

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Já o professor de direito eleitoral da PUC-SP Roberto Beijato Júnior entende que o movimento produz efeitos concretos para o PL. "Vai muito além da questão meramente simbólica. A base eleitoral da Michelle valoriza a coesão familiar, e isso ajuda a fortalecer a campanha de Flávio, principalmente entre mulheres e evangélicos", disse ao Correio. Para ele, a reaproximação permite que o partido tente deslocar o foco das disputas internas para temas como economia e segurança pública. 

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