Durante sessão na Câmara Municipal de Conselheiro Lafaiete, na Região Central de Minas Gerais, que debatia “os direitos e valores da família tradicional”, um pastor atacou a Lei Maria da Penha e também uma norma, aprovada neste mês pelos vereadores, que instituiu o programa "Botão do pânico", destinado à proteção de mulheres em situação de violência doméstica que possuam medida protetiva de urgência.
A fala do pastor, missionário e radialista Juliander Dias Barbosa foi alvo de um boletim de ocorrência registrado por quatro parlamentares da Câmara, entre elas, Damires Rinarlly (PV), autora do projeto que deu origem ao “Botão do pânico”.
A convite do vereador Pastor Angelino Cláudio (PRD), Juliander Dias Barbosa, afirmou, da tribuna do Legislativo municipal, que a Lei Maria da Penha “prejudica os homens” e “a família tradicional brasileira” e garante privilégios para as mulheres. “Esta lei Maria da Penha só favorece a mulher. Está tendo muito BO (boletim de ocorrência) falso, caindo por terra, muita falsa acusação, está na hora de vocês, homens, fazerem um projeto de lei para também acabar com essa desigualdade”, defendeu o pastor em nome da família.
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Ele defendeu a criação de uma legislação que proteja os homens da violência cometida por mulheres e disse que, nesses casos, eles só têm as tipificações de crimes previstas no Código Penal. “Essa lei (Maria da Penha) não é justa, é uma balança que está pesando só para um lado. Só para o lado das mulheres.” Juliander disse ainda que a lei, aprovada em 2004, está "defasada".
Ele também atacou a criação do "Botão de pânico", uma lei, segundo ele, contra a família tradicional. “Quando a mulher vai bater no homem, você aperta o botão, botão do terror”, defendeu. O pastor disse ainda que “amanhã ou depois” quem votou a favor do projeto da criação do programa, aprovado por unanimidade pelos 13 vereadores na sessão em 21 de maio, podem “ser perseguidos”.
Rinarlly classificou o episódio como tentativa de intimidação e violência política de gênero. “Não aceitaremos que a tribuna da Câmara seja utilizada para ameaçar mulheres, intimidar vereadoras ou atacar políticas públicas de proteção às vítimas de violência doméstica. Isso ultrapassa qualquer limite democrático e precisa ser tratado com a seriedade que a situação exige”, afirmou a parlamentar.
De acordo com ela, ataques contra a Lei Maria da Penha e contra mecanismos de proteção às mulheres reforçam uma cultura de violência que diariamente coloca em risco a vida de mulheres no Brasil.
A reportagem procurou o pastor por meio de suas redes sociais, mas não conseguiu contato. O espaço segue aberto para sua manifestação.
Feminicídio: a realidade
O Brasil registrou alta de 7,5% no número de feminicídios no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025. Foram 399 vítimas entre janeiro e março de 2026, ante 371 casos no mesmo intervalo do ano passado.
É o maior número para um primeiro trimestre em toda a série histórica dos últimos 11 anos, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
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Os números representam uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em contextos de violência doméstica, familiar, ou envolvendo desprezo ou discriminação à condição feminina.
