Boulos diz que proposta de Nikolas tem ‘mentalidade escravocrata’
Ministro compara defesa de compensação às empresas pelo fim da escala 6x1 ao debate sobre indenização de proprietários após a abolição da escravatura
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A defesa de compensações para empresas afetadas pelo fim da escala 6x1, encabeçada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), fez o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol-SP) associar a proposta a uma “mentalidade escravocrata”. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, Boulos afirmou que a ideia reproduz uma lógica semelhante à que marcou o debate sobre a abolição da escravidão no Brasil.
“É muita cara de pau”, afirmou o ministro. “Assim como era a proposta dos senhores de escravo lá em 1888, quando o Brasil publicou a Lei Áurea de indenizar os proprietários pela perda econômica. O Nikolas se encontra nessa mesma mentalidade. Uma mentalidade da casa grande, uma mentalidade de privilegiados, uma mentalidade escravocrata”, declarou.
Em abril, Nikolas apresentou uma emenda à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 221/2019, que discute a redução da jornada, propondo que o governo seja obrigado a criar mecanismos de compensação para empresas atingidas pela medida. Entre as alternativas defendidas pelo deputado estão instrumentos como desoneração da folha de pagamento e estímulos econômicos que permitam adaptação gradual do setor produtivo.
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Ao justificar a proposta, o parlamentar argumentou que reduzir a jornada sem medidas compensatórias poderia gerar efeitos contrários aos desejados. Em manifestação nas redes sociais, Nikolas afirmou que a redução da escala possui “inegável apelo social”, mas disse que transferir integralmente os custos para o setor privado pode produzir desemprego, aumento da informalidade e crise econômica.
“A mudança da escala precisa beneficiar o trabalhador, para que ele tenha tempo de cuidar da família, da sua fé e relaxar. Só que, ao simplesmente empurrar a conta para as empresas, o resultado pode ser desemprego, informalidade e crise”, escreveu o deputado mineiro.
Boulos rejeitou prontamente esse raciocínio e afirmou que o governo não admite discutir qualquer espécie de compensação financeira ao empresariado para viabilizar a redução da jornada. O ministro afirmou que o modelo representaria uma inversão do papel do Estado e sustentou que o setor produtivo já teve tempo suficiente para se preparar para uma eventual mudança.
“O que estão propondo é o seguinte: já que vai acabar com a 6 por 1, vamos dar uma bolsa para o empresário para indenizá-lo por isso, paga com dinheiro público, ou seja com dinheiro do trabalhador”, afirmou, ao taxar a proposta de “bolsa patrão”. “Isso é inadmissível. A gente não topa discutir isso no governo”, disse.
O ministro também ampliou a crítica para além do mérito econômico e afirmou que a discussão revelou diferenças mais profundas sobre relações de trabalho. Para ele, a defesa da compensação tornou visível uma posição que estaria em desacordo com a imagem pública de “defensor da população” construída por Nikolas. “Ele conseguiu construir um perfil de jovenzinho bonzinho, o genro ideal da sogra de família. Um menino que fala manso, que fala de religião. E enganou pessoas dessa maneira”, afirmou.
Oposição tenta atrasar votação
Nessa quarta-feira (20/5), a Comissão Especial criada para analisar a PEC 221/2019 adiou para a próxima segunda (25/5) a apresentação do parecer do relator, o deputado Leo Prates (Republicanos-BA). O adiamento ocorreu em meio à pressão de setores empresariais e de parlamentares da oposição e do Centrão para incluir uma regra de transição de dez anos, reduzir encargos como o FGTS e retirar categorias consideradas essenciais da nova regra.
Um grupo de cerca de 176 deputados, entre eles Nikolas Ferreira, apresentou emendas defendendo um período de transição de dez anos para a implementação das mudanças. “Eles não estão sabendo como lidar com isso porque são contra. Essa turma nunca defendeu trabalhador. É a turma que diz que é antissistema, mas adora um tapinha nas costas de banqueiro da Faria Lima”, declarou Boulos ao EM, ao ser perguntado sobre eventual cálculo oposicionista para impedir que o governo transforme a medida em ativo eleitoral.
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À reportagem, o ministro reforçou que o Planalto pretende manter a defesa da proposta sem compensações financeiras e sem regras extensas de transição. “Nós queremos dois dias de descanso por semana este ano. O debate já está acontecendo há quase dois anos no Brasil. Não é uma aposta no escuro”, disse.