ENTENDA A OPERAÇÃO DA PF

PF aponta dois núcleos criminosos ligados a Daniel Vorcaro

Ministro do STF autorizou prisões e medidas cautelares após investigação indicar atuação de grupos voltados a ameaças, obtenção de dados sigilosos e ataques

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A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou novas medidas na Operação Compliance Zero, descreve a existência de dois núcleos apontados pela Polícia Federal como estruturas operacionais ligadas ao empresário Daniel Vorcaro.

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Segundo a investigação, os grupos atuariam em frentes distintas: uma voltada a ameaças presenciais, obtenção de informações sigilosas e intimidação, e outra especializada em ataques cibernéticos, invasões telemáticas e monitoramento digital ilegal.

Na decisão, Mendonça relata que a PF pediu a prisão preventiva de sete investigados, além de outras medidas cautelares, como afastamento de função pública, proibição de contato com policiais federais e restrições de acesso à corporação.

De acordo com a investigação, o grupo era dividido entre os núcleos chamados “A Turma” e “Os Meninos”. O primeiro seria responsável por ameaças, coerções, levantamentos clandestinos e acesso indevido a sistemas governamentais. Já o segundo teria perfil tecnológico, atuando em invasões digitais, derrubada de perfis e monitoramento ilegal.

Ambos, segundo a PF, eram gerenciados por Felipe Mourão, conhecido como “Sicário” de Vorcaro, que morreu após uma tentativa de suicídio na Superintendência Regional da Polícia Federal (PF), em Belo Horizonte, poucas horas depois ser preso no início de março.

O papel de Henrique Vorcaro

A decisão aponta Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, como um dos principais financiadores e demandantes do núcleo “A Turma”. Segundo a PF, ele não apenas se beneficiava dos serviços ilícitos atribuídos ao grupo, mas também solicitava ações e atuava como operador financeiro dos pagamentos feitos à estrutura.

O documento reproduz diálogos extraídos do celular do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva que, segundo a investigação, indicariam pedidos de serviços ilícitos e negociações envolvendo pagamentos mensais. A PF sustenta que Henrique continuou mantendo contato com integrantes do grupo mesmo após as primeiras fases ostensivas da operação.

A decisão menciona ainda trocas de mensagens em que valores de R$ 400 mil e R$ 800 mil teriam sido discutidos para manutenção da estrutura investigada. A Polícia Federal afirma que os diálogos revelam “relação estável de troca”, na qual Henrique financiaria o grupo e utilizaria seus serviços.

Além disso, a PF afirma que Henrique teria buscado informações sobre investigações de interesse próprio por meio de consultas indevidas em sistemas internos da Polícia Federal. “[...] A estrutura clandestina mobilizada por MARILSON e pela 'Turma' não atuava apenas para intimidação ou cobrança, mas também para obter informações sigilosas sobre investigações de interesse direto de HENRIQUE, o que amplia significativamente a gravidade de sua vinculação ao grupo", diz trecho da decisão.

“Em síntese, o que se extrai, nesta fase, é que HENRIQUE MOURA VORCARO não apenas se beneficiava dos serviços ilícitos da “Turma”, mas os solicitava, os fomentava financeiramente e permanecia em contato com seus operadores mesmo após o avanço ostensivo das investigações, revelando vínculo funcional intenso, contemporâneo e indispensável à manutenção do grupo criminoso", completa.


Núcleo hacker

No braço digital da organização, a investigação aponta David Henrique Alves como líder do núcleo “Os Meninos”. Segundo a PF, ele coordenaria operadores com perfil hacker responsáveis por invasões telemáticas, monitoramento digital ilegal e derrubada de perfis em redes sociais.

A decisão afirma que David recebia cerca de R$ 35 mil mensais por intermédio da empresa BIPE Software Brasil Ltda. e que os serviços seriam executados sob a gerência de Felipe Mourão e em benefício de Daniel Vorcaro.

A PF também descreve um episódio ocorrido em 4 de março de 2026, dia da terceira fase da operação, em que David foi abordado dirigindo um carro pertencente a Felipe Mourão, transportando computadores, notebooks, caixas e malas. Para os investigadores, o contexto indicaria tentativa de fuga e possível ocultação ou destruição de provas digitais.

A investigação cita ainda movimentações consideradas suspeitas em um imóvel alugado por David em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, incluindo a tentativa de entrega urgente da residência e posterior retirada de objetos do local.

Victor e Rodrigo Pimenta

A decisão também detalha a atuação atribuída a Victor Lima Sedlmaier e Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos, apontados como auxiliares de David Henrique Alves no núcleo hacker.

Victor afirmou em depoimento prestar serviços de tecnologia para David desde 2024, incluindo desenvolvimento de software de inteligência artificial, banco de dados e suporte técnico. Segundo a PF, ele recebia pagamentos mensais e teria atuado na retirada de objetos da casa de David após a deflagração da operação.

A investigação também aponta que Victor teria utilizado documento ideologicamente falso. Um RG encontrado em veículo ligado ao grupo apresentaria fotografia semelhante à dele, segundo análise da PF.

Já Rodrigo aparece, segundo a decisão, como colaborador técnico e logístico do núcleo hacker. A PF afirma que ele auxiliava em tarefas como aquisição de domínios de internet e pagamentos ligados às atividades do grupo, além de ter participado da retirada de objetos da residência de David.

Braço no Rio de Janeiro

Outro investigado citado na decisão é Manoel Mendes Rodrigues, descrito como operador do jogo do bicho e líder de um braço local do núcleo “A Turma” no Rio de Janeiro.

Segundo a PF, ele teria participado de ações intimidatórias em Angra dos Reis, incluindo ameaças contra o comandante de uma embarcação utilizada por Daniel Vorcaro e contra um ex-chefe de cozinha ligado ao empresário. Testemunhas relataram a presença de um homem identificado como Manoel durante abordagens consideradas ameaçadoras.

A decisão afirma que Manoel manteria contato frequente com Felipe Mourão e integraria a estrutura coercitiva do grupo, responsável por intimidação física e monitoramento de alvos.

Policiais federais investigados

A investigação também alcança policiais federais da ativa e aposentados. O principal nome citado é o de Anderson Wander da Silva Lima, apontado como responsável por consultas indevidas em sistemas internos da PF.

Segundo a decisão, Anderson atuaria como “longa manus” (em latim, mão longa) de Marilson Roseno dentro da corporação, repassando informações sigilosas que seriam utilizadas em benefício do grupo investigado.

A PF sustenta que ele recebia contrapartidas financeiras e mantinha atuação contínua desde 2023. “[...] detinha acesso privilegiado, atual e funcional aos bancos de dados oficiais, sendo precisamente por isso constantemente acionado por MARILSON e, em tese, financeiramente retribuído", descreve a PF.

A decisão ainda cita a delegada Valéria Vieira Pereira da Silva e o agente aposentado Francisco José Pereira da Silva, suspeitos de repassar informações sigilosas obtidas no sistema e-Pol a Marilson Roseno.

Já Erlene Nonato Lacerda e Helder Alves de Lima são apontados pela PF como responsáveis por apoio patrimonial e contábil ao grupo, incluindo emissão de notas fiscais e movimentações financeiras ligadas à estrutura investigada.

Veja quem são os investigados e as medidas determinadas pelo STF

Núcleo “A Turma”: ameaças, intimidações e obtenção de dados sigilosos

  • Henrique Moura Vorcaro — Pai do empresário Daniel Vorcaro, é apontado pela PF como demandante de serviços ilícitos, beneficiário das ações do grupo e principal financiador da estrutura. Segundo a investigação, também atuava como operador financeiro dos pagamentos destinados ao núcleo.
    Medida: prisão preventiva.

  • Marilson Roseno da Silva — Policial federal aposentado apontado como líder operacional da “Turma”. De acordo com a investigação, fazia a articulação entre os mandantes e os executores das ações de intimidação, monitoramento e obtenção de informações sigilosas.
    Medida: transferência para o Sistema Penitenciário Federal.

  • Manoel Mendes Rodrigues — Empresário ligado ao jogo do bicho e apontado como responsável pelo braço operacional do grupo no Rio de Janeiro. Segundo a PF, coordenava ações presenciais de ameaça e intimidação.
    Medida: prisão preventiva.

  • Sebastião Monteiro Júnior — Policial federal aposentado citado como integrante e articulador operacional do núcleo “A Turma”. A PF aponta participação em reuniões e tratativas internas da organização.
    Medida: prisão preventiva.

Núcleo “Os Meninos”: ataques cibernéticos e monitoramento digital

  • David Henrique Alves — Apontado como líder do braço tecnológico da organização. Segundo a investigação, coordenava invasões telemáticas, derrubada de perfis em redes sociais e monitoramento digital ilegal.
    Medida: prisão preventiva.

  • Victor Lima Sedlmaier — Descrito como operador auxiliar do núcleo hacker. Conforme a PF, prestava serviços técnicos a David Henrique Alves e participou da retirada de equipamentos da residência do investigado após a deflagração da operação.
    Medida: prisão preventiva.

  • Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos — Investigado apontado como colaborador técnico e logístico subordinado a David Henrique Alves, auxiliando em tarefas operacionais ligadas ao braço digital do grupo.
    Medida: prisão preventiva.

Núcleo de acesso a informações sigilosas

  • Anderson Wander da Silva Lima — Agente da Polícia Federal da ativa apontado como responsável por acessar sistemas internos e obter informações sigilosas para a organização criminosa em troca de vantagens financeiras.
    Medida: prisão preventiva.

  • Valéria Vieira Pereira da Silva — Delegada da PF suspeita de acessar indevidamente o sistema e-Pol para repassar informações de investigações de interesse do grupo.
    Medidas: proibição de deixar a comarca e o país, entrega do passaporte, afastamento preventivo da função pública e proibição de acessar dependências da PF ou manter contato com servidores.

  • Francisco José Pereira da Silva — Policial federal aposentado e marido da delegada Valéria Vieira. Segundo a PF, atuava como intermediário no repasse das informações sigilosas obtidas nos sistemas internos da corporação.
    Medidas: proibição de deixar a comarca e o país, entrega do passaporte e proibição de acessar a PF ou manter contato com servidores.

Apoio financeiro, contábil e logístico

  • Erlene Nonato Lacerda — Apontada como responsável por auxiliar na gestão financeira informal do grupo e na ocultação de movimentações patrimoniais ligadas a Marilson Roseno.
    Medida: proibição de deixar a comarca e o país, com entrega do passaporte.

  • Helder Alves de Lima — Contador suspeito de emitir notas fiscais fraudulentas para ocultar pagamentos destinados à organização investigada.
    Medida: proibição de deixar a comarca e o país, com entrega do passaporte.

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  • Katherine Venâncio Teles — Investigada por auxiliar David Henrique Alves durante a fuga apontada pela PF e por atuar na ocultação e transporte de equipamentos eletrônicos considerados relevantes para a investigação.
    Medida: proibição de deixar a comarca e o país, com entrega do passaporte.

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