Horas depois de o governador Romeu Zema (Novo) anunciar reajuste linear de 5,4% para todo o funcionalismo público mineiro, o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG) reagiu com críticas ao índice e confirmou a manutenção do calendário de greve da categoria a partir desta quarta-feira (4/2). Para o sindicato, o percentual não recompõe as perdas acumuladas ao longo dos últimos anos nem representa ganho real para os profissionais da educação.

Em nota divulgada nesta segunda-feira (2/2), o Sind-UTE informou que a paralisação está mantida e lembrou que a reivindicação de reajuste vem sendo apresentada desde janeiro de 2026. Segundo a entidade, o projeto já deveria ter sido encaminhado à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) no início do ano legislativo.

O sindicato também destacou que o índice de 5,4% foi estabelecido na Medida Provisória 1.334, editada pelo governo federal em 21 de janeiro, e que, portanto, não contempla a totalidade das perdas salariais acumuladas durante a gestão Zema. A entidade reivindica recomposição de 41,83%, percentual que, segundo seus cálculos, corresponde às perdas entre 2019 e 2025, valores que teriam sido pagos a menos ou não pagos pelo governo estadual.

A decisão de entrar em estado de greve foi tomada na última quinta-feira (26/2), em assembleia realizada no pátio da ALMG. A categoria deliberou pela paralisação das atividades a partir de 4 de março, por tempo indeterminado. Além da recomposição de 41,83%, os trabalhadores defendem a aplicação do reajuste previsto na Portaria nº 82 do Ministério da Educação ao vencimento inicial das oito carreiras da educação básica. A norma oficializou o novo valor do Piso Salarial Profissional Nacional do Magistério Público da Educação Básica para 2026, fixado em R$ 5.130,63.

A coordenadora-geral do Sind-UTE/MG, Denise de Paula Romano, afirmou que a greve é uma forma de resistência diante do que classifica como grave defasagem salarial. Segundo ela, a perda acumulada se aproxima de 42% ao longo dos últimos oito anos, comprometendo não apenas a renda dos profissionais, mas também a qualidade da educação ofertada aos estudantes.

Denise argumenta ainda que a legislação garante reajuste anual aos trabalhadores da educação, estipulado pelo Ministério da Educação e que, em Minas, esse direito estaria sendo desrespeitado de forma sistemática. “Além do calote no reajuste dos salários, enfrentamos aumento da carga de trabalho, redução de direitos e condições cada vez mais precárias para o exercício da nossa profissão”, conclui.

Reajuste aos servidores

O anúncio do governo estadual ocorreu na manhã desta segunda. O Executivo informou que a recomposição de 5,4% alcançará cerca de 673 mil servidores ativos, inativos e pensionistas da administração direta e indireta. O reajuste será retroativo a 1º de janeiro de 2026 e o projeto será encaminhado à ALMG nas próximas semanas. O impacto estimado é de aproximadamente R$ 3,4 bilhões por ano na folha de pagamento.

Em nota à imprensa, Zema afirmou que o projeto será enviado ao Legislativo para que o reajuste seja aprovado e pago “o quanto antes”, ressaltando a necessidade de equilíbrio fiscal para garantir sustentabilidade às contas públicas. De acordo com o governo, a recomposição assegura que o vencimento básico inicial do magistério volte a corresponder ao valor proporcional do piso nacional da categoria.

"Minas prospera porque nossos servidores fazem toda a diferença. E continuar cuidando das contas é o que garante que possamos fazer isso não só agora, mas também no futuro. Minas segue firme", afirmou o governador, em nota encaminhada à imprensa.

O reajuste é anunciado em um cenário de pressão do funcionalismo. Levantamento publicado pelo Estado de Minas mostrou que a Receita Corrente Líquida (RCL) do estado mais que dobrou ao longo da atual gestão, passando de R$ 53,34 bilhões para R$ 111,72 bilhões no ano passado, crescimento superior a 109%. No mesmo período, segundo o Sind-UTE/MG, a inflação acumulada pelo IPCA foi de 45,14%, enquanto os reajustes gerais concedidos aos servidores somaram 15,14%.

Algumas categorias tiveram percentuais diferenciados. Servidores das forças de segurança receberam, em 2020, aumento específico de 13%, acumulando 30,11% no período. Na educação, houve reajuste de 4,17% em 2019 e de 5,40% no ano passado, para adequação ao piso nacional, totalizando 42,66% desde o início da gestão. Ainda assim, segundo o levantamento, as categorias acumulam perdas frente à inflação.

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Nos bastidores, representantes do funcionalismo trabalhavam com projeções superiores às confirmadas. O vice-presidente do Sinfazfisco-MG, João Batista Soares, sustentava que, após a adesão de Minas ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), haveria margem para reajustes de até 8,80%, conforme as regras do programa. Já o presidente da Associação de Praças Policiais e Bombeiros Militares (Aspra), Marco Antônio Bahia, mencionava estimativas que variavam entre 9,7% e 15%, a depender do espaço fiscal e da decisão política do Executivo.

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