Pré-candidata ao Senado, a ex-deputada federal de Minas Gerais Áurea Carolina (PSOL) defende uma aliança com a prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), também cotada para a disputa. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, nesta terça-feira (10/2), ela defende que 2026 abre uma janela para que o campo progressista feche uma chapa para as duas vagas que estarão em jogo no Senado.

“Eu tenho visto com muito entusiasmo a pré-candidatura da prefeita Marília Campos. Estou torcendo muito para que se consolide, para que a gente possa fazer uma dobradinha de mulheres, de luta, que trazem pautas muito abrangentes”, afirma Áurea. “Somos gerações diferentes, dialogamos com públicos diferentes. Somando as nossas forças, a gente só tem a ganhar”, completou.

Áurea revisita o passado recente para sustentar seu argumento. Em 2018, quando Dilma Rousseff concorreu ao Senado por Minas, o campo progressista, segundo ela, falhou em não organizar uma estratégia de “ganha-ganha”. Apontada pelas pesquisas eleitorais como líder na disputa, a ex-presidente amargou o quarto lugar, com 15,21% dos votos.

Naquela eleição, foram eleitos Rodrigo Pacheco, então no Democratas, e o jornalista Carlos Viana, então no PHS. Agora, oito anos depois, cada estado elegerá dois nomes para o Senado e, assim, cada legenda pode indicar dois nomes.

“Acabou que o segundo voto de quem votou na Dilma foi sendo como se fosse dispersado para outras candidaturas, inclusive que não são exatamente progressistas. É importante dizer que o voto nem sempre é coerente. O perfil de votação é algo complexo e as pessoas podem votar numa candidatura de um campo político e em outra de outro. Compreender isso como parte da matemática eleitoral é fundamental para a gente não errar”, diz.

Essa construção, no entanto, passa por um cenário ainda marcado por indefinições. Marília Campos condiciona sua entrada na disputa ao reconhecimento de sua prioridade pelo PT e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O nome de Marília foi indicado pelo Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) do partido para a disputa, mas ainda falta o aval do diretório nacional.

O ponto exigido pela prefeita vai de encontro ao projeto do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD). O ministro pretende ser candidato ao Senado, mas já acenou a Lula que, se necessário, pode ser o candidato a governador. Ao EM, Silveira disse que a decisão depende do presidente. “Ele decidirá meu futuro político”, declarou em exclusiva à reportagem.

Apesar disso, ela evita personalizar o debate. “O que interessa é que somos lideranças do campo que defendem a reeleição do presidente Lula. Essa é a prioridade absoluta”, afirma. Para Áurea, a disputa eleitoral de 2026 está diretamente ligada à sobrevivência do projeto democrático. “A confluência política não é só estratégia, é juízo. É uma questão de sobrevivência”, declarou.

Desde a redemocratização do país, em 1988, Minas Gerais nunca elegeu um senador filiado a partidos de esquerda. A primeira eleição ao Senado após a promulgação da Constituição ocorreu em 1990 e, desde então, nenhuma candidatura desse campo político conseguiu vencer a disputa majoritária no estado. Se vitoriosas em 2026, elas serão as primeiras representantes da esquerda mineira a ocupar uma cadeira na Casa.

Mulheres na política

O Senado, casa historicamente conservadora e pouco permeável a candidaturas de esquerda em Minas, é visto por Áurea como um espaço em disputa aberta para ampliar a presença feminina na política. Para ela, o surgimento de mulheres progressistas dispostas a enfrentar essa eleição é a grande novidade do próximo ciclo.

Além de Marília Campos, Áurea cita nomes de fora do estado como Benedita da Silva, Manuela D’Ávila, Marina Silva e Simone Tebet. “Eu sonho com uma campanha coletiva de senadoras pelo Brasil inteiro”, diz. “Uma bancada de mulheres firmes, corajosas, íntegras na defesa da democracia”, completa.

Áurea lembra episódios de violência política explícita, como o caso em que Marina Silva foi hostilizada no Senado e ouviu que deveria “se colocar no seu lugar”. “Esse descaramento machista precisa ser barrado”, afirma. Para ela, ampliar a representação feminina não é apenas uma pauta identitária, mas um requisito para melhorar a qualidade da democracia.

Eleita deputada federal em 2018 com 162.740 votos, Áurea havia feito história antes, ao se tornar, em 2016, a vereadora mais votada de Belo Horizonte até então. Ainda assim, escolheu interromper a carreira parlamentar para cuidar do filho, nascido às vésperas da pandemia de COVID-19, e para elaborar os efeitos de uma experiência marcada por “exaustão, violência política de gênero e raça e pressão constante”, como ela mesma diz.

“Eu era uma mãe trabalhadora da política, sem tempo para descansar”, relata. A pausa, muitas vezes interpretada como desistência, é rebatida por ela como parte de uma compreensão mais ampla do que é fazer política. “As instituições são muito importantes, mas não são tudo. A construção social coletiva é complementar”, diz.

Durante esse período, Áurea atuou na sociedade civil, dirigiu uma organização voltada à mobilização socioambiental e participou de iniciativas de enfrentamento à violência política contra mulheres. Esse percurso, segundo ela, fortaleceu sua disposição para retornar. “O Senado está na mira da extrema-direita. Existe um projeto explícito de corroer a democracia por dentro. Eu me senti convocada a voltar”, comentou.

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O retorno ao PSOL, partido ao qual sempre esteve vinculada, ocorre em um momento em que Áurea se define como mais madura, consciente dos limites e disposta a fazer política “com alegria”. Aos 42 anos, afirma estar em uma fase “mais inteira da vida”. “Eu sou uma mulher comum. A gente pode repensar trajetórias. Não existe destino engessado”, declarou.

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