Líder do maior bloco governista da Assembleia Legislativa e presidente do PSD em Minas Gerais, o deputado estadual Cassio Soares aposta em um 2026 de cautela política e pragmatismo institucional. Em conversa exclusiva com o podcast EM Entrevista, do Estado de Minas, ele afirma que o ano eleitoral não deve contaminar a rotina da Casa e defende a separação entre o debate legislativo e a disputa nas urnas. Para Soares, a transição no comando do Executivo, com a saída de Romeu Zema e a posse de Mateus Simões, tende a ocorrer de forma “natural”, sustentada por um diálogo já estabelecido entre o vice-governador, a Mesa Diretora e as lideranças partidárias.
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Ao tratar de temas sensíveis, o deputado foi direto ao afastar qualquer avanço, neste ano, sobre a privatização da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Segundo ele, apesar de o tema poder voltar ao debate em outro momento, não há clima político nem acordo entre as lideranças para levar a discussão adiante em 2026. Soares lembra que a Assembleia já fez um pacto ao avançar apenas com a venda da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) no ano passado e preservar a Cemig naquele contexto, mesmo com a estatal incluída pela Executivo estadual no pacote de adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).
No plano eleitoral, Cássio Soares vê o PSD largando em posição competitiva para 2026, especialmente por ser o partido com mais prefeituras em Minas. Para ele, o peso dos prefeitos como lideranças locais é inegável, mas não suficiente por si só. O diferencial, afirma, estará na capacidade de os candidatos dialogarem com a realidade do eleitor fora do calendário eleitoral. “Quando você tem muitos prefeitos aliados, é comum que já tenha uma arrancada de apoio”, disse. Em meio a um cenário polarizado, o deputado se apresenta como defensor do diálogo e da moderação, tanto dentro da Assembleia quanto na construção de palanques, apostando, segundo ele, em uma atuação política que privilegie resultados e não apenas discursos. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
Como líder do maior bloco governista na Assembleia, o senhor elenca alguma pauta prioritária na Casa em 2026?
Nós vencemos, até o final do processo legislativo de 2025, a tão propagada renegociação da dívida de Minas com o governo federal. A Assembleia, sob a liderança do presidente Tadeu, com a participação da oposição, da situação, dos blocos e dos líderes, cada um no seu papel, conseguiu entregar ao governo de Minas e ao Estado de Minas Gerais o legado dessa renegociação da dívida com a União. Foi um momento importante.
Agora, em 2026, teremos pautas como o orçamento ao longo do ano, projetos pontuais, cada projeto de deputado que tem o seu interesse local, regional, para que possamos avançar, e também aquilo que é importante para Minas Gerais e para o governo do Estado. Ainda não temos clareza sobre qual será o aspecto mais relevante a ser discutido neste ano. Fato é que não podemos confundir o processo eleitoral com os trabalhos que temos até o momento das eleições.
O senhor acha que isso pode atrapalhar? O fato de ser um ano eleitoral, com muitos pré-candidatos dentro da Assembleia e uma transição no governo, pode interferir nas pautas?
Creio que não. Hoje temos um amadurecimento nas relações. A partir de 22 de março, já foi anunciada a saída do governador Romeu Zema, com a entrada do vice-governador Mateus Simões, que assume o governo de Minas Gerais de forma muito natural.
Mateus já lida de forma muito direta com o presidente da Assembleia, com os líderes e com os próprios deputados, mantendo um contato próximo. O que é a minha obrigação e a minha responsabilidade enquanto líder de um bloco importante, o maior bloco da Assembleia, juntamente com os demais líderes, é a gente imprimir um ritmo de trabalho que não deixe de lado aquilo que é importante, sem antecipar ou misturar o debate eleitoral.
Na última semana, Zema falou em transferir ao vice-governador a condução do debate sobre a privatização da Cemig. Essa pode ser uma prioridade deste ano?
A discussão pode surgir, mas não acredito que prospere neste ano. Quando o presidente Tadeu avançou com a proposta de privatização da Copasa, deixou muito claro, depois de apelos da oposição, que, entre as privatizações, a Cemig seria preservada naquele momento. Avançaríamos com a Copasa. Então, eu acho que isso não vai mudar para esse ano de 2026.
Mesmo com a Cemig incluída no pacote do Propag, o senhor acredita que ela não entra na pauta? Ela pode aparecer futuramente fora desse âmbito do Propag?
Em outro momento, sim. Não acredito que em 2026 vamos ter avanço nesse aspecto. O presidente Tadeu, de forma muito clara, ao sentar com os líderes, inclusive com a oposição, recebeu pedidos de não avançar com privatização, então ele fez o meio-termo ali. Avançou com a Copasa e disse não à Cemig.
Isso não significa que nós não podemos discutir e voltar em outro momento com essa questão. Lembrando que o governador Romeu Zema foi eleito duas vezes, e sendo na última eleição em primeiro turno, defendendo em cadeia nacional, em qualquer entrevista pública, a sua intenção de privatizar todas as empresas estatais. Então, é justo, legítimo que defendam e que discutam, mas eu não vejo que tem clima e ambiente para que neste ano de 2026 possamos avançar na privatização da Cemig.
Mesmo que seja um pedido do vice-governador?
Hoje, não. Mas nada que não possa ser construído e reconstruído. Hoje eu digo que não.
O deputado estadual Cassio Soares participou do podcast EM Entrevista, do Estado de Minas
O senhor é um deputado moderado dentro da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Como vê a polarização na Casa?
O que me incomoda na polarização é o não respeito à opinião alheia, e os exageros também. Quando você pega um político extremista, em alguns casos sem conteúdo, ele vai apenas para o extremismo para poder jogar para uma plateia. Isso não contribui em nada para soluções que Minas Gerais precisa. Nós temos problemas reais hoje para ficar criando problemas fictícios.
Nós temos hoje problema do servidor público que merece a sua recomposição salarial. Nós temos o problema das estradas de Minas, estado com a maior malha viária do Brasil e que, infelizmente, as nossas estradas estão sendo recuperadas, mas não na velocidade que a gente gostaria. Nós temos problemas ainda com recursos para saúde pública, para que o paciente que precisa do SUS tenha o melhor atendimento.
Então, nós temos problemas demais para deixar de lado e resolver, discutir e debater questões que não vão agregar a nada, vão apenas servir para alimentar uma bolha e poder angariar votos dessa bolha. Então, isso, sim, me incomoda.
Não significa que a sua opinião vale mais do que a do outro. Nós vivemos em uma democracia e é dessa forma que a gente tem que seguir e defender e propagar a defesa do outro em dizer. Mas, desde que isso não atrapalhe o andamento de quem quer trabalhar, que, respondendo claramente a sua pergunta, a polarização, quando excessiva, atrapalha a busca por soluções concretas para Minas Gerais.
Como o senhor vê a troca de comando entre Romeu Zema e Mateus Simões?
Eu vejo como muito positivo, eu vejo como um encerramento de um ciclo. O governador Romeu Zema com quase dois mandatos, né? Um mandato, três anos, praticamente, três anos e pouco de mandato, fez a sua parte, né? Trouxe a sua forma de trabalho para dentro do governo de Minas e o Matheus já vem caminhando ao lado do governador, antes mesmo de ser eleito vice-governador. E agora, enquanto vice-governador, ele tem um papel na administração do Estado de Minas Gerais muito relevante. Então, eu acho que vai ser uma coisa natural o Matheus assumir esse papel de governador com muita responsabilidade e preparo, isso é importante dizer e também consciente dos desafios que ele tem, do tamanho dos problemas que Minas Gerais enfrenta.
Vejo de forma muito positiva, como o encerramento de um ciclo. O governador cumpriu seu papel e trouxe sua forma de gestão ao governo de Minas. O Mateus caminha ao lado dele desde antes de ser eleito vice-governador e, hoje, tem um papel relevante na administração estadual. Então, eu acho que vai ser uma coisa natural o Mateus assumir esse papel de governador, com responsabilidade, preparo e também consciente dos desafios que ele tem, do tamanho dos problemas que Minas Gerais enfrenta.
Com a eventual candidatura de Simões, o senhor deve participar do palanque e possivelmente dividir o espaço com nomes bolsonaristas, como o próprio Flávio Bolsonaro no plano federal. O senhor se sentiria confortável em dividir palanques com candidatos alinhados a uma imagem tida como mais radical?
Não tenho dificuldade, porque conforme eu disse anteriormente, eu sei respeitar a opinião do outro, o movimento, a atuação. Vou manter a minha coerência, o meu trabalho de sempre, em processos eleitorais, me dirigir diretamente ao eleitor, com as minhas ideias e as minhas propostas de solução para os problemas. Se amanhã o Flávio estiver ao lado levantando bandeira de arma, de desarmamento, coisa e tal, ele vai fazer o papel dele. Eu não vou assimilar e levar isso como prioridade para minha atuação política. A minha atuação vai ser de diálogo.
O PSD é o partido com mais prefeituras em Minas Gerais. Ter muitas prefeituras ajuda em 2026?
Sem sombra de dúvida. Via de regra, o maior líder local é o prefeito. O maior líder político naquele momento é o prefeito. Então, quando você tem muitos prefeitos aliados, é comum que você já tenha uma arrancada de apoio. Mas nada disso adianta se você não tiver os candidatos alinhados com pensamento e com a sensibilidade de olhar a dor do eleitor, a dor do cidadão, porque o eleitor, ele é eleitor no período eleitoral, mas durante os quatro anos ele não deixa de ser cidadão. Então, nós temos que sempre olhar, voltar a nossa atenção para a dor do cidadão.
Qual é a relação do senhor com o prefeito atual, Álvaro Damião? É boa?
Praticamente inexistente. O Álvaro depois que assumiu o mandato, ficou de nos procurar enquanto partido aliado e até hoje não procurou. Então, nós não temos contato, mas torço para que ele vá bem. Eu quero que a prefeitura de Belo Horizonte vá bem, porque assim a população vai estar melhor atendida. O que tiver ao alcance do PSD de ajudar para que a gestão vá bem, os três vereadores do PSD estarão prontos e nós enquanto partido também.
O senhor comanda um partido que transita tanto pelo Executivo estadual quanto pelo governo federal. Considerando que o ministro Alexandre Silveira integra a gestão Lula, enquanto Zema mantém uma postura crítica ao Planalto, como é possível administrar esse equilíbrio interno?
Nós não temos essa dificuldade exatamente pelo respeito. Lembremos, o Alexandre foi o coordenador do segundo turno da campanha do Lula em Minas Gerais. É natural e é até recomendável que ele esteja próximo do presidente Lula pós-eleito para poder levar Minas Gerais como prioridade, principalmente dentro da pasta dele que é Minas e Energia. Então, assim como o senador Rodrigo Pacheco, também em diversos momentos foi um aliado de primeira hora ali do presidente Lula, e também é normal que ele esteja próximo e compondo esse grupo político do presidente Lula.
Nós temos um pensamento divergente, tanto os deputados estaduais, posso dizer na totalidade, quanto a maioria também dos deputados federais, nós temos um alinhamento mais com o centro-direita em Minas Gerais e essa proximidade com o governo do estado.Nós vamos dar a nossa contribuição aqui no governo do estado, ajudando Minas Gerais. Cada qual na sua função podendo ajudar e respeitando os caminhos divergentes.
O senhor diria que o PSD vem caminhando para se tornar uma oposição ao governo Lula?
Não, o PSD sempre vai ser um partido de construção e de respeito. Nós temos hoje o PSD da Bahia com muita afinidade e proximidade com o presidente Lula. E lá nós temos grandes políticos como o senador Otto Alencar, o líder do PSD na Câmara, o deputado federal Antônio Brito, figura extremamente capaz e preparada. Tudo isso nos impõe um respeito de permitir que aquelas pessoas que querem dar uma sustentação ao governo Lula, vão seguir esse caminho. Isso não significa que outros nomes e outros filiados ao PSD de campos que são mais afeitos à direita, que vão fazer o seu papel fiscalizador, o seu papel de votar quando acham um projeto interessante. O fato de ser simplesmente oposição ou situação cega, em algum momento vai ter erro. Porque se eu sou a oposição, mas o presidente manda um projeto bom para o Brasil, eu vou votar contra apenas porque eu sou oposição. Isso não está correto. Nós temos que seguir uma coerência de fazer a política daquilo que a gente acredita que é melhor para a população.
O senhor acredita na candidatura do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, à presidência?
Lembro que o ex-governador Aécio Neves falava que é destino. Não é simplesmente vontade pessoal, é interesse. Isso tem que ser construído dia após dia e o governador, por estar no cargo há dois mandatos, isso por si só já o credencia a querer e almejar a candidatura. Se daí para a frente vai ter sucesso, vai depender dessa trajetória, da construção, das propostas que ele vai levar para a população. Então, desejo muita sorte ao governador Romeu Zema.
Acha que tem fôlego?
Acredito que sim. E para Minas Gerais seria muito bom. Imagina se tivéssemos um presidente mineiro novamente.
Já colocado como pré-candidato à Câmara dos Deputados, qual o principal desafio que o senhor identifica para construir uma campanha bem-sucedida em 2026?
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Olha, às vezes, dá um friozinho na barriga, porque estou no meu quarto mandato de deputado estadual. Foram quatro eleições seguidas e acho que chegou o momento de tentar levar a minha contribuição, a minha colaboração para a Câmara, caso aconteça de ser eleito e representar bem Minas Gerais. O poder político da Câmara dos Deputados hoje, junto ao orçamento da União, é muito grande. É uma forma que a gente tem de levar as demandas que historicamente não chegam a Minas Gerais para a gente poder contemplar Minas com recursos relevantes. Quando você chega em Salvador, você vê quilômetros e quilômetros de linhas de metrô. Quando você chega em Minas Gerais, nós estamos agora depois de tantos anos comemorando uma expansão de uma linha 2. Mas aqui nós merecemos a linha 3, a linha 4, a linha 5. Nós queremos muito mais. Então, é o que me desafia, primeiro, é óbvio que ser eleito e chegar lá e depois lutar por essas questões que Minas tanto precisa.
