O lançamento conjunto de dois livros não quer dizer exatamente que a produção poética de uma autora esteja tão intensiva quanto parece. Pode significar que há uma produção represada nas editoras, que, desde pelo menos a pandemia, vêm tentando restabelecer ritmos e o investimento em seus catálogos. “Instruções para arquitetos” e “Vaga memória” são poemários publicados por duas casas independentes importantes e que não perderam a poesia de vista. A Moinhos, que já teve sede em Belo Horizonte, atualmente é dirigida por seu editor, Nathan Matos, a partir de um escritório em Fortaleza. Sua produção ajuda a mudar a cena literária do continente, investindo principalmente na tradução de literatura latino-americana, sem esquecer jamais a produção nacional, sobretudo a nordestina, incluindo a poesia, geralmente relegada a terceiro ou quarto plano entre as empresas. 

“Vaga memória” é o décimo terceiro título da coleção Biblioteca Madrinha Lua, publicada pela editora paulistana Peirópolis, dirigida por Renata Farhat Borges e equipe, já reconhecida por sua ampla e corajosa produção para as infâncias e juventudes. A BML homenageia a poeta mineira Henriqueta Lisboa e, em razão disso, só publica obras de autoras brasileiras, reunindo já escritoras de várias partes do país. O projeto foi agraciado, mais de uma vez, pelo selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, agora inativa), além de ter títulos indicados ao prêmio Jabuti.

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Os dois livros dão sequência à produção poética de Ana Elisa Ribeiro, autora mineira que celebra quase trinta anos de atuação, com algumas indicações ao Jabuti e outros reconhecimentos relevantes. “Instruções”parte do diálogo com a poeta carioca Flávia de Queiroz, por isso apresenta o subtítulo “poemas-conversa”. A casa, a memória, os modos de habitar e a família aparecem como temas dessa troca, de que só conhecemos uma das partes, mas podemos inferir a outra. Em “Vaga memória”, as relações familiares, o envelhecimento e a vida comum surgem em poemas breves, impactantes, e em pequenas entrevistas fictícias. Embora os assuntos possam se parecer, os livros têm formas e climas diferentes, oferecendo experiências de leitura diversas, além de bons motivos para pensar e conversar. 

“INSTRUÇÕES PARA ARQUITETOS”E “VAGA MEMÓRIA”

De Ana Elisa Ribeiro

Lançamentos neste sábado (07/11) com bate-papo da autora com o mediador Kaio Carmona na Quixote Livraria e Café (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, BH)

De “Instruções para arquitetos”

“Outra versão”

A tradutora traduz as palavras

e depois retoma todo o texto

para pôr itálico nas palavras que têm itálico,

negrito nos termos em negrito,

aspas nas expressões entre aspas,

lá e aqui, lá e aqui, lá e aqui,

porque itálico, negrito e aspas

também são vertidos,

ou porque essa espécie silenciosa

de fidelidade é muito apropriada.

Negritos, itálicos e aspas, sabemos,

ajudam as palavras a parecerem outras.

*

“Osso”

Vimos o cão cavar a terra e esconder um osso.

Nunca voltou para buscar.

Guardou um tesouro,

garantia para o futuro,

medo do que não veio,

de uma fome imaginária,

puro esquecimento.

Nunca saberemos.

Tivemos vontade, Flávia,

de cavar e guardar um osso.

Esconder um osso do corpo,

algo que lembrasse, um dia,

o que fomos.

Nosso medo foi, depois,

procurar pelo osso e não o encontrar.

Perdê-lo na terra e

sabê-lo escavado por uma civilização

ainda pior do que esta.

*

“Drummond visionário”

As poetas nacionais

nem sequer se ocupam de saber os nomes

das poetas municipais.

As feministas avisaram

que seria assim, Flávia?

As poetas estaduais estão

a meio caminho entre

as antologias e os livros de capa dura.

As sociólogas da literatura

eram bem mais otimistas.

Onde estamos, querida amiga,

que não nos encontramos

nos saraus da periferia,

nem nos salões da zona sul?

Era importante estar nos livros,

passando pelas mãos

de leitores ávidos, coisa quase

impossível para a poesia,

dizem os editores seletivos.

Mandei uma carta para

a poeta internacional, Flávia.

Talvez ela nem sequer

entenda mais a nossa língua.

***

De “Vaga memória”

“Batalha”

defende-se com os dois braços

os pés em posição de ataque

pernas fortes, espáduas

o rosto atrás, os cinco dedos em riste

espalmadas as duas mãos

velocidade nos quadris

já viu o que é conseguir

beijos de filhos jovens?

*

“Contagem”

nossa mãe foi assistente social

por uma vida

dizia que as mães

sempre contam todos os filhos,

os nascidos e os não nascidos

a senhora tem quantos?

nove, minha filha,

cinco vivos

*

“Uma vida”

mamãe, posso?

mãe, vou.

mãe, cheguei bem.

mãe, um dia eu volto.

mãe, fica.

mãe, mãe...

*

“Presente de grego”

nas festas-surpresas para as esposas

ainda sobram pratos para que elas lavem

*

“Avesso reverso”

pai, por que pareço seu pai?

sou mais frágil do que você, filho.

e se eu precisar de você, pai?

aí você chame pela sua mãe, querido.

mas ela é mãe, pai;

pode ser que eu precise de um pai.

uma mãe não é uma coisa só, filho;

pode chamá-la de pai que ela atenderá.

então também posso chamá-lo de mãe, pai?

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ah, filho, aí é o avesso impossível.

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