João Pombo Barile
Especial para o Estado de Minas

“Você não sabe o peso que tirei das costas”. Sentado numa poltrona da varanda de seu apartamento em Copacabana, Silviano Santiago é um homem aliviado. Feliz. E começa então a desfiar histórias daqueles intensos anos 1970 em Nova York. Sempre contido, o aniversário de seus 90 anos, completados no último dia 29 de setembro, parece mexer com o escritor. E o acaso — sempre ele — de “XXXV” chegar às livrarias às vésperas do aniversário o deixa ainda mais emocionado.

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“Lembro bem quando o Hélio me deu a pasta. Foi uns dias antes da minha volta para o Brasil. Ele me disse: ‘Toma. Um presente para você’. Quando abri, era sua diagramação para o ‘XXXV’. Ele conhecia os poemas. Fiquei muito feliz e prometi a ele que procuraria a Lygia Pape, aqui no Rio: que ele podia ficar tranquilo. Eu ia fazer o livro. Hélio foi uma figura meteórica, fatal na minha vida”.

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Não quero recontar aqui a história de como encontrei o livro de Silviano perdido por mais de meio século. Já fiz isso no meu livro ‘Presente do acaso’, que publiquei em 2025 pela editora Autêntica. Queria apenas dar uma palavra sobre a importância do livro na trajetória de Silviano.

“XXXV” talvez tenha sido o passo mais importante dado por Silviano para que ele se consolidasse como poeta e escritor. O livro já tem um tom biográfico, marca fundamental de sua obra, e que, a partir daí se tornará uma constante de seus textos. Mas para entendermos a importância do livro perdido, temos que voltar um pouco. Para 1970. E falar do seu livro anterior de poemas, “Salto”.

Publicado pela editora da Imprensa Oficial, em Belo Horizonte com a ajuda do poeta Affonso Ávila, “Salto” tem ainda uma pegada concretista. É um livro hermético. Naqueles anos, Silviano estava ainda muito ligado aos concretistas, era amigo dos irmãos Campos e publicava na revista “Invenção”. O próprio Hélio Oiticica, aliás, leu (e gostou) de “Salto”. Sobretudo do poema ‘Man’, que acabou usando num texto seu para a revista “Navilouca”, em 1972.

“XXXV” rompe com o universo de campos e espaços presentes em “Salto”. Foi uma virada. O início da maturidade, que se consolidaria no livro seguinte, “Crescendo durante a guerra numa província ultramarina”, de 1977. No livro, escrito quando Silviano completava 35 anos, ele finalmente encontra sua voz poética. Se em “Salto” os versos são cerebrais, medidos e muito estudados, em “XXXV” Silviano, pela primeira vez, consegue mesclar vida e verso. “Hélio não foi um interlocutor: deu-me uma lição de vida. Minha volta ao Brasil e toda minha trajetória devem muito a ele. Tinha uma dívida com o Hélio. A publicação deste livro encerra um ciclo”, conta Silviano.

Olhando para “XXXV” em cima da mesa, Silviano sorri.

“O livro ficou legal. Era uma promessa que fiz ao Hélio. Demorou. Mas cumpri”.

JOÃO POMBO BARILE é jornalista e escritor, autor de “Presente do acaso” (Autêntica Editora)

‘Duas faces’ em um livro

Silviano Santiago e Ivan Angelo, presentes nesta edição do Pensar, têm 90 anos e uma amizade iniciada nos tempos de juventude em Belo Horizonte. Integrantes da Geração Complemento, começaram a trajetória literária com um livro em conjunto: “Duas faces”, lançado em 1961 pela Editora Itatiaia. No ensaio biográfico “Presente do acaso” (Autêntica), João Barile narra o início da carreira dos dois escritores. “A ideia de publicar o livro de estreia juntos surgiu de maneira natural. Naquele início da década de 1960, publicar um livro não era tarefa simples, com custos bem maiores que os de hoje. Os dois então decidiram partir para a empreitada juntos. Numa espécie de mutirão. ‘Em 1959 ganhei o Prêmio Cidade de Belo Horizonte com um livro de contos chamado Homem sofrendo no quarto. Já o Silviano tinha duas novelas que pretendia publicar. Com a ajuda do Heitor Martins, que na época trabalhava na Itatiaia, propusemos à editora juntar os trabalhos dos dois num volume só e publicar. Éramos dois desconhecidos, e por isso nos comprometemos com a editora a vender antecipadamente 200 exemplares. Corremos listas entre parentes e amigos, e o livro, que já estava pronto em 1959, saiu em 1961’, lembra Ivan.”

Intenso diálogo

Silviano Santiago
Especial para o Estado de Minas


Uma boa experiência de vida, em si, é ter livro de poemas escrito em 1971 publicado 55 anos mais tarde. O existido bagunça o coreto doméstico. “xxxv”, diagramado em 1973 pelo amigo Hélio Oiticica, circula a preço de mercado, graças à primorosa edição da galeria Pinakotheque, com matriz no Rio de Janeiro. Curtos, divertido e ferinos, os poemas retomam o espírito Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, predominante nas vanguardas, e anunciam a geração mimeógrafo do querido Chacal. Pela sua inscrição nas revolucionárias “filosofias da diferença” (em especial as desenvolvidas por Jacques Derrida), já politizam a futura “desconstrução do eurocentrismo colonial”.

No início da década de 1970, conheço Hélio Oiticica e nos tornamos bons amigos. Já famoso, o artista carioca se instala num loft no East Village, onde o visito com regularidade. Já professor de literatura francesa em universidade americana, atendo à curiosidade dele. De formação francesa, mas antenado na cultura britânica e norte americana se interessa pelas filosofias da diferença, apadrinhas pelo velho Nietzche, que explodem no pós-68 parisiense. Elas lhe trazem lembranças do avô Oiticica, gramático e anarquista. Suas novas leituras logo nos levam a intenso diálogo.

A exposição “Silviano Santiago por Hélio Oiticica”, montada na Pinakotheque, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, expõe uma série de documentos que lembram nossas conversas. A edição tardia do livro de poemas tem uma vantagem. As conversas se concretizam em duas partes bem nítidas. Na primeira, está a reprodução impecável do livro de poemas tal como diagramado por ele e segundo notas enviadas a Lygia Pape. Ao me despedir dele em 1973, oferece-me o presente numa pasta. Numa segunda parte, reproduzem-se documentos do punho de Hélio referentes a presente que lhe dou. Numa das visitas, lhe ofereço edição em inglês de “Über coca”, de Sigmund Freud. Fascinado com a leitura, dedica-me longo poema cujo título é o título do livro. Destaque final para o texto da “cosmococa8”, dedicada a Silviano. Traz como pano de fundo “Dancing with Mr. D”, o hit de 1973 dos Rolling Stones. O D significa a dança com a Morte (Death) para Mick Jagger. Significa o D do jogo dos Dados de Mallarmé para Hélio, e uma novidade, o D de Derrida para Silviano. Refere-se este ao texto do filósofo argelino francês sobre Platão, “A farmácia de Platão”, publicado em 1968, onde desconstrói o conceito em si ambíguo de “pharmakon”. Pharmakon significa tanto o remédio que cura como o remédio que mata. A diferença se faz luz, liberdade e valor precário e supremo na “cosmococa8”.

SILVIANO SANTIAGO nasceu em Formiga em 1936 e é poeta, ensaísta, contista e romancista, vencedor do Prêmio Camões pelo conjunto da obra e de outras premiações como o Oceanos e o Jabuti

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“XXXV - Silviano Santiago por Hélio Oiticica”
• De Silviano Santiago
• Pinakotheke
• 104 páginas
• R$ 90
• Exposição, com curadoria de Camila Perlingeiro, em cartaz até o dia 21 de novembro na Galeria Pinakotheke (Rua São Clemente, 300, Botafogo, Rio de Janeiro).

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