Ronaldo Lemos - Especial para o Estado de Minas

Foi o 7 de setembro de manhã, uma segunda-feira de feriado emendado. O tipo de manhã para não fazer nada e fingir que não temos nenhuma obrigação. Mesmo assim, às 9h13 uma “máquina de mundo” vibra na minha frente. Era meu celular com uma mensagem do querido Afonso Borges no whatsapp.

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"Bom dia. Sei que você não vai poder ir, mas eu queria te mandar uma provocação. Ouça “A Máquina do mundo” e escreva um artigo sobre o poema, sua atualidade e sobre o Flitabira."

O que Afonso Borges me pede eu gosto de fazer. Fui ao Spotify e o ouvi recitando Drummond na mesma hora. E em sete minutos respondi que aceitava. Ele retornou com uma risada de dez letras. Contei.

Como não sou do ramo da interpretação literária, fiz o que todos os não-especialistas (e talvez os especialistas) fazem agora. Abri a inteligência artificial.

Estava interessado em investigar o poema à luz do meu quintal: a tecnologia. Além disso, queria compreender a relação de Drummond com George Bernanos (que aparece como central para o meu livro “O monge, o iogue e o faquir: Corpo, coração e mente no tempo das máquinas”).

E a relação do poema com Richard Brautigan, autor de outro muito citado poema utópico-distópico chamado “Machines of Loving Grace”, que preconizou a inteligência artificial.

Em poucos minutos eu tinha na tela tudo isso. E mais.

A IA foi competente. Falou de José Guilherme Merquior opondo a máquina de Drummond às de Dante e Camões.

Falou de João Adolfo mostrando que os decassílabos sem rima destoam de propósito da harmonia clássica.

Falou do caríssimo José Miguel Wisnik (que maravilha!) ligando o poema à mineração de Itabira.

E falou de Haroldo de Campos, cujo Bloomsday celebrando Joyce acompanhei por anos em São Paulo. No caso de Drummond, apontando sua alegoria sobre o poema com relação à física quântica no ano 2000 (que saudades de Haroldo e do ano 2000!).

Apareceu também Silviano Santiago publicando sobre Camões e Drummond a revista estadunidense Hispania, em setembro de 1966!

A IA me ofereceu também a informação de que a Folha também no ano 2000 (de novo ele, quanta esperança naquele ano supostamente fabuloso!) um júri de dez críticos elegeu “A máquina do mundo” o melhor poema brasileiro de todos os tempos.

Precisei de muito mais tempo para ler o que a máquina encontrou do que ouvindo Afonso Borges recitar o poema no Spotify.

E uma piada então se armou, com a “delicada graça” das máquinas que zelam por nós no poema de Richard Brautigan.

Eu tinha acabado de pedir a uma máquina que me explicasse o poema em que uma máquina se oferece para explicar tudo. Só que o homem lírico do texto recusa. Enquanto eu, aceito. E não estou só. Aparentemente, cada vez mais gente também aceita.

No poema, um homem caminha por uma estrada pedregosa de Minas no fim da tarde (seria um feriado prolongado?). Está com mente e os sentidos (o coração?) exaustos. A máquina do mundo se abre diante dele. E oferece a "total explicação da vida", de graça, se precisar pagar por nenhum “token”.

O homem baixa os olhos e recusa. A máquina vai se recompondo da recusa, enquanto o homem segue seu caminho, "de mãos pensas".

Impossível ler isso sem um pequeno calafrio. O homem do poema recusou, mas eu aceitei. Abri a máquina de mundo da inteligência artificial para saber sobre a máquina do mundo do poema. E não foi de graça. Minha assinatura custa algo como mil reais por mês.

É espantoso pensar que em 1949 Drummond vaticinou a experiência de estar diante de uma máquina que se propõe a fornecer explicações totais. O poema, aliás, é das melhores coisas a se ler sobre esse tema.

A máquina da inteligência artificial também me informa que sete meses antes do poema, Drummond publicou um ensaio chamado “Poesia e pesadelo”, comentando Stephen Spender.

No ensaio, ele expressa a visão de que máquinas são sonhos e pesadelos humanos cristalizados. Esses sonhos e pesadelos seria os frutos e as vozes da nossa razão instrumental.

A IA também me informa que esse ensaio ficou setenta e sete anos fora dos livros de Drummond! Foi uma máquina que me chamou a atenção pra ele. Por isso te agradeço, máquina!

Mas como diz Gilberto Gil, o cérebro eletrônico faz “quase tudo”. E isso é muito pouco. Lendo Drummond à luz da inteligência artificial, ouvi ecos do seu poema em vários textos que publiquei nos últimos meses.

Por exemplo, escrevi na Folha sobre a obsessão atual do Vale do Silício com a ideia de “bom-gosto” (taste). A ideia de que em um mundo em que a máquina faz (quase) tudo, o diferencial humano passa a ser justamente saber o que não fazer.

Outro tema sobre que tenho escrito é a delegação cognitiva. Gente que repassa seus processos mentais para a máquina. E emburrece fazendo isso.

Até sobre o problema mais difícil de todos me aventurei a escrever: a questão da consciência. E se as máquinas a possuem, ou algum dia a possuirão (spoiler: não).

Tudo isso (e muito mais) está contido no poema. A recusa de que ele fala é em si a descrição da forma mais pura de inteligência (alô Simone Weil!).

Inteligência não é computar todo o universo existente. Inteligência é acessar o incomputável. E só humanos possuem essa capacidade. Incluindo a recusa.

A máquina sempre será máquina justamente porque não terá a capacidade encarnada de recusar. Que pode ser lida de muitas formas, inclusive incorporando Gödel ou Roger Penrose em meio aos decassílabos

Outra coisa que me chamou a atenção é que o homem do poema não parece querer quebrar a máquina do mundo. Não consegui ler revolta nem denúncia contra ela (como Bernanos faz). Ele vê que ela existe ali na sua frente, mas sua orientação é continuar andando.

Na mesma época em que Drummond escrevia o poema no Rio, Georges Bernanos morava em uma fazenda em Barbacena. Foi lá que ele escreveu “A França Contra as máquinas”. Na roça mineira (conheço!).

Fiquei alegre quando soube que uma das citações centrais para entender o mundo atual (e centrais para o meu livro) foi escrita em Minas Gerais: “o perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número crescente de pessoas habituadas, desde a infância, a desejar somente o que as máquinas podem dar”.

Aliás, uma digressão. Um dos amigos de Bernanos em Barbacena era Geraldo França de Lima, o Imortal de Araguari, como eu.

Foi quem apresentou Barbacena a Bernanos (e a Guimarães Rosa). Menciono esse fato porque estou sempre em busca de motivos para falar de Araguari em tudo que faço. Afonso Borges vai entender.

A inteligência artificial me diz também que Drummond criticava Bernanos. Em junho de 1943 Drummond criticou um artigo dele chamando sua escrita de “patética” e de “desesperante monotonia”. Diz que Bernanos tem uma coragem feroz, mas que sofre de “falta de nexo” (talvez pela quantidade de vezes que usa a palavra “imbecis” nos textos dessa época). E resume seu julgamento em duas palavras: "Um obcecado." Mais uma vez, agradeço à máquina mais essa conexão!

Achei que Drummond e Bernanos estariam no mesmo time com relação às máquinas de mundo. Mas tal como no meme de Chico Buarque, fiquei preocupado, mas logo depois meu sorriso se abriu. Percebi que estão sim.

Bernanos denuncia e faz manifestos contra as máquinas e seus idólatras (“Imbecis!”). Seu sentimento é transformar a máquina em inimigo civilizacional, contra o qual é preciso agir. É preciso mobilizar toda a “razão instrumental” contra ela própria.

Drummond não. Ele encontra a máquina na estrada e mesmo diante do seu canto da sereia, recusa e segue em silêncio. Vale lembrar, o silêncio outro caminho de inteligência.

O protagonista do poema é justamente o homem que Bernanos não quer que desapareça: capaz de desejar o que não é produto de máquina.

O homem de Drummond segue seu caminho com as mãos “pensas”. Mãos que continuam sem tarefa nenhuma à vista.

No poema de Brautigan, a ideia é que seríamos libertos do trabalho pelas máquinas, mas vigiados por elas com “amorosa graça". O presidente da Anthropic, empresa que faz a inteligência artificial Claude, usou poema de Brautigan como título de um ensaio em 2024. Nesse texto ele fala de todas as maravilhas que a inteligência artificial poderia fazer por nós. Escrevi sobre esse ensaio na Folha. Meu título não veio de poema nenhum, mas de um livro: “Inteligência Artificial Poliana”.

Setenta e sete anos depois de “A máquina do mundo”, estamos todos nós agora naquela estrada. A Máquina do Mundo está à nossa volta, nos chamando. Está também à nossa espreita para substituir a recusa por computação.

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RONALDO LEMOS é advogado especialista em tecnologia, professor, pesquisador e apresentador brasileiro, autor do livro “O monge, o iogue e o faquir: Corpo, coração e mente no tempo das máquinas” (Todavia)

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