Secchin desvenda a 'conversão' de Drummond ao soneto em 'Claro enigma'
Em ensaio para o Pensar, o imortal da ABL Antonio Carlos Secchin revela que a adesão de Drummond a padrões fixos da versificação se dissipa a partir da leitura dos "Novos poemas" escritos quatro anos antes da publicação de "Claro enigma"
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Antonio Carlos Secchin - Especial para o Estado de Minas
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Dos quarenta e dois poemas do livro, nada menos do que trinta e dois operam, de um ou de outro modo, num padrão de regularidade formal, entre eles nove sonetos. Comparativamente, a obra anterior, “A rosa do povo”, continha apenas um soneto no total das cinquenta e cinco peças do volume. Assim exposto o gritante contraste, soaria quase como um enigma a súbita “conversão” do poeta a padrões fixos da versificação. Mas tal enigma se desfaz em clara chave se atentarmos para um detalhe quase sempre esquecido: quando, em 1948, Drummond publicou “Poesia até agora”, encerrou a coletânea com um conjunto intitulado “Novos poemas”, escritos entre 1946 e 1947. É esse magro contingente de doze textos que perfaz a transição entre os discursos dos livros de 1945 e de 1951.
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De “A rosa do povo” ecoam poemas de nítido teor social, nos retratos de guerra de “Notícias de Espanha” e “A Federico García Lorca”. Em sintonia com “Claro enigma”, comparece a prática do poema em prosa – aqui, em “O enigma”, contendo metade do título do livro subsequente. E, em especial, já se verifica em “Novos poemas” a adesão às formas fixas, em cinco textos (dois dos quais sonetos) ou de modalidade “quase fixa”, em outro poema. Por “quase fixa” entendemos uma composição regular interrompida por um desvio métrico ou estrófico. É o que sucede no texto inicial da série, “Canção amiga”: quatro quadras seguidas – regularidade; e ruptura na estrofe final, um terceto. O poema, portanto, encena uma encruzilhada entre sistemas poéticos em tensão, abrigando tanto o que ´predominou até “A rosa do povo” quanto o que se instalaria em “Claro enigma”.
Em paralelo ao jogo simetria/assimetria, o poema elabora um adeus ao espírito bélico, acenando para um tempo utópico de paz e harmonia: “Eu preparo uma canção/ que faça acordar os homens/ e adormecer as crianças”. A humanidade não ouviu o apelo de Drummond, mas não impediu que ele, decepcionado com as mazelas do terreno político, mudasse o alvo de sua poesia – permanecendo, porém, sempre fiel à efetiva vocação do poeta: “Aprendi novas palavras/ e tornei outras mais belas”.
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ANTONIO CARLOS SECCHIN é poeta, ensaísta e crítico literário. Ocupante da cadeira nº 19 da Academia Brasileira de Letras desde 2004, integrou o conselho editorial da Coleção Carlos Drummond de Andrade da Companhia das Letras e fez a revisão final da edição de “Claro enigma” (2012).