Em 'Claro enigma, as coisas nunca estão onde parecem estar
Atravessar o livro de Carlos Drummond de Andrade 75 anos depois, ainda é uma das experiências mais radicais – pessoal, poética e politicamente – que uma obra de arte pode oferecer
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Tarso de Melo - Especial para o Estado de Minas
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Drummond estava à beira dos 50 anos quando lançou “Claro enigma” (1951). Ele já era o autor de “Alguma poesia” (1930), “Brejo das almas” (1934), “Sentimento do mundo” (1940) e “A rosa do povo” (1945), que, em diferentes medidas, projetaram sua imagem de “poeta social”, logo reconhecido como um autor que conseguia traduzir, como pouquíssimos, as angústias políticas não apenas de seu tempo, mas também do que a história arrastava até então.
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Livro a livro, era cada vez mais impactante a forma como ele costurava, com as linhas de sua biografia, os conflitos e os dilemas do país e do mundo. Por isso, o baque de “Claro enigma”, desde a epígrafe valéryana (“Os acontecimentos me entediam”), foi tão grande entre seus leitores, como se o poeta estivesse desistindo de lidar com o “tempo presente” e suas questões. Logo de cara, ele diz: “Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada. / Pois que aprouve ao dia findar, / aceito a noite” (“Dissolução”). Parece, afinal, ter trocado as “mãos dadas” pelos “braços cruzados”. Mas as coisas, com um poeta do tamanho de Drummond, nunca estão onde parecem estar.
Gosto de lembrar de uma lição do Eduardo Sterzi: “A compreensão mais funda de um livro esquivo como ‘Claro enigma’ passa pelo rastreamento paciencioso e perspicaz dos dados da realidade histórica obscurecidos pelo sermo sublimis [discurso elevado] adotado na maioria dos poemas”. Olhar para o livro dessa maneira, entendendo-o como um nó ainda mais forte entre as velhas questões do poeta e novas formas de lidar com elas (e com sua complexificação pessoal e histórica no “tempo presente”), certamente é mais condizente com a “inquietude” que Drummond demonstrou em toda sua obra, especialmente até ali.
Assim, perde força a imagem daquela “virada” apontada por muitos críticos, em que uma expressão mais reflexiva, intimista e filosófica teria simplesmente tomado o lugar antes ocupado pelo engajamento, pela militância etc. O fato é que, 75 anos depois, atravessar ‘Claro enigma’ ainda é uma das experiências mais radicais — pessoal, poética e politicamente — que uma obra de arte pode oferecer.
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TARSO DE MELO é poeta, editor e coordena o Círculo de Poemas, coleção da editora Fósforo. Doutor em Filosofia do Direito pela USP, atualmente realiza pós-doutorado em teoria literária na UNICAMP. É autor de “Música do mundo: introduções à poesia” (Fósforo, 2026), entre outros livros.