Setenta e cinco anos depois do lançamento de “Claro enigma”, um dos pontos altos da obra de Carlos Drummond de Andrade continua contrariando a previsão de um de seus poemas: “Então no mesmo esquecimento se fundirão”, garantiu o poeta, em “Permanência”. Publicado em 1951, “Claro enigma” marca uma inflexão na trajetória poética de Drummond. Depois da linguagem coloquial e irônica dos primeiros livros e da forte preocupação social presente em títulos como “Sentimento do mundo” (1940) e “A rosa do povo” (1945), o mineiro de Itabira apresentou um conjunto de versos introspectivos, formalmente rigorosos, sem a preocupação de reagir aos fatos da época, intenção já explicitada na escolha da epígrafe (“Os acontecimentos me entediam”, de Paul Valéry).

“Talvez tenha sido o livro mais ‘polêmico’ de Drummond. Por mais que ele sempre surpreendesse de um livro a outro, a obra lançada em 1951 tinha um sabor muito diferente para os leitores que acompanharam seus livros dos anos 1930 e 1940”, afirma o professor Tarso de Melo, autor de “Música do mundo: Introduções à poesia” (Fósforo). “Não foram poucas as críticas ao livro – e ao poeta – por ter, aparentemente, escolhido o caminho da ‘alienação’, da indiferença ao momento político”, lembrou Tarso, no ensaio “Poeta do tempo presente”, publicado na mais recente edição de “Claro enigma” pela Record, em box que reúne os principais livros do poeta.

“Claro enigma” reúne 41 poemas, distribuídos em seis partes: “Entre lobo e cão”, “Notícias amorosas, “O menino e os homens”, “Selo de Minas”, “Os lábios cerrados” e “A máquina do mundo”. Neles aparecem questões como a passagem do tempo, a morte, o amor, a memória, a família, a identidade mineira e os limites do conhecimento. O título, formado por palavras de sentidos aparentemente contrários, resume uma poesia que busca a clareza sem eliminar o mistério e a incerteza.

“Publicado quando o autor chegava à beira dos cinquenta anos e prodigalizava os gestos graves, estranhos à irreverência modernista, ‘Claro enigma’ termina por corroer esses mesmos gestos que presidiam a sua origem”, afirma Samuel Titan Jr. em “Um poeta do mundo terreno”, posfácio da edição de 2012 da Companhia das Letras. Na “poesia da maturidade”, observa o professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, “longe de alcançar um mirante seguro de onde ver as coisas, o Drummond de 1951 parece repor, em novo patamar e com reverberações mais tremendas, a mesma inquietude que, por duas décadas, vinha minando e semeando sua necessidade de escrever poesia.”

Em comparação com a fase modernista inicial, “Claro enigma” apresenta vocabulário mais elaborado, tom predominantemente grave e retomada de formas tradicionais, como o soneto, os versos metrificados e os esquemas regulares de rima. Para os estudiosos da obra do poeta mineiro, a aproximação com a tradição, perceptível no diálogo com autores como Dante, Camões e Paul Valéry, não representou o abandono do modernismo. Recursos modernos permanecem presentes, agora combinados a uma visão desencantada do indivíduo e da história, no contexto do pós-guerra e do início da Guerra Fria. “O livro é profundamente marcado por um sentimento da história, por uma noção expandida de história em que se cruzam o familiar e o público, o amoroso e o político – sempre de maneira cifrada’’, ressalta Samuel Titan Jr..

Entre os poemas mais conhecidos de “Claro enigma” está “A máquina do mundo”, composição em tercetos que acompanha um caminhante por uma estrada de Minas Gerais diante da oferta de uma explicação total para a existência. Também se destacam “Amar”, dedicado à experiência amorosa; “Memória”, sobre a permanência do que foi perdido; “Os bens e o sangue”, que examina herança familiar, decadência e história; “A mesa”, centrado na lembrança do pai e no convívio familiar; e “Morte das casas de Ouro Preto”, voltado para a ação do tempo sobre o patrimônio e a memória mineira.

“Claro enigma” consolidou-se como um dos pontos altos da produção de Drummond e referência incontornável da poesia brasileira do século 20. Cumpriu, assim, o vaticínio decretado nos últimos versos de “Memória”, um dos mais conhecidos da poética drummondiana: “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.

Leia, nesta edição do Pensar, textos de Antonio Carlos Secchin e Tarso de Melo sobre “Claro enigma” e também artigo de Ronaldo Lemos sobre o poema “A máquina do mundo”.

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