LITERATURA

Leia conto do livro de Ana Cecília Carvalho

Escritora e psicanalista mineira lança neste sábado na AML "E se eu disser apenas a verdade", livro que reúne contos publicados nos anos 1970 e 1990

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Contos escritos por Ana Cecília Carvalho nos anos 1970 e 1990 se encontram no século 21 em “E se eu disser apenas a verdade”. A edição que reúne histórias de “Livro dos registros” e “Uma mulher, outra mulher” terá lançamento neste sábado em Belo Horizonte. “Há nesses contos um toque intenso de maravilhoso, de sobrenatural, de mágico, de sutis e candentes mergulhos na alma, na psique dos personagens”, aponta, no prefácio, o escritor Danilo Gomes.

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Em “Livro de registros”, publicado em 1976 pela Editora Interlivros, constam onze contos premiados no ano anterior no Concurso Literário Cidade de Belo Horizonte e que, no mesmo ano, foram publicados pela Editora Comunicação com o título “Trilha sonora para o capitão no sonho”. Já “Uma mulher, outra mulher” teve lançamento pela Editora Lê em 1993. Doze contos deste livro receberam, em 1985, o Prêmio de Literatura Cidade de Belo Horizonte. Somados outros cinco, formaram obra que, em 1991, recebeu o Prêmio Brasília de Literatura concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal.

Psicanalista e escritora, integrante da Academia Mineira de Letras, Ana Cecília Carvalho afirma que, ao reler os dois livros décadas depois, foi tomada por “uma sensação de estranhamento familiar que evoca o Unheimlich descrito por Freud”. “A maior parte desses contos foi escrita no frescor dos meus 20 e poucos anos e revela algo perturbador que só posso descrever como um olhar nada ingênuo, quase despido de ilusão, sobre a realidade”, acredita. “Ao mesmo tempo, o clima onírico, de realismo fantástico, das histórias deixa entrever uma posição temperada de ironia diante do que, penso agora, poderia ser descrito como uma visão destemida diante da crueldade, da solidão, da loucura, da falta de esperança que expõe a fragilidade dos laços entre as pessoas”, complementa, no posfácio da nova edição.

No texto, Ana Cecília reconhece elementos recorrentes nas histórias: referências musicais, históricas, cinematográficas e culturais. “Essa marca distintiva é feita de um assombro diante do que, provavelmente, tempos depois, me levaria ao exercício da psicanálise, que pratico desde 1980. Na minha vida, a escrita literária, ofício iniciado muito antes da escuta dos pacientes, provavelmente, se faz, desde muito cedo, para elaborar a minha inquietação diante do previsível e ao mesmo tempo inevitável da vida e de seus infinitos modos de recomeço”, lembra.

Leia, a seguir, um dos contos do livro.

“Nenhum final”

Era uma vez, não, eram muitas vezes, pelo menos mais de mil vezes, o mesmo carro passava de manhã, vindo devagar assim como se procurasse um número na rua. Vinha devagar e, de repente, dava meia volta e acelerava, exatamente em frente à árvore do 911. Um metro adiante, parava e depois andava devagar e acelerava em frente ao 917. Aí eu via uma pessoa descer, um homem, segurando um jornal debaixo de um braço e um embrulho azul debaixo do outro. O mesmo homem descia do carro em frente ao 917 e trancava o carro que estava sempre mal estacionado, com uma das rodas encostando no meio fio, descia mal-humorado e com o nariz vermelho por causa do frio. Isso devia ser lá pelas seis horas da manhã e, quem diria que, apesar do mau humor e do frio e do carro estacionado, ele estava para cair dentro de um fato na sua vida que o marcaria, como depois de uma operação no coração, que passaria a exigir cuidados e muito descanso. 

Só de olhar, eu podia ver toda a agitação e saber que, antes de entrar no edifício, ele daria uma última olhada para os lados e, pronto, aí não tinha mais jeito, era esperar mais um minuto com a boca aberta de apreensão e correr para o apartamento 801 e tocar a campainha e não pensar em nada e só querer que, dessa vez, ela estivesse lá. 

Às vezes, ela estava, mas muitas vezes, era impossível dizer onde havia passado a noite. Se estava, o corredor escuro com portas escondidas em algum lugar tinha o seu perfume e um mistério que era só dela, alguma coisa que ela deixava quente e elétrica de faíscas. Ele quase podia sentir no rosto as pontas do seu cabelo vermelho como cócegas, e então espirrava. Se ela estava, era tão grande a confusão de poeiras e amanhã começando a chegar, e o barulho, e debaixo da porta uma corrente de ar, esses traços abstratos que só ele podia pegar e guardar dentro de seu corpo como em uma caixa, e depois em casa abrir a caixa e aspirar o sentimento como se fosse um inalador e se ele estivesse doente, necessitado desse ar e dessa sensação de remédio e de vinho? Se ela estava, demorava em média vinte segundos para abrir a porta, não menos e não mais, porque era o tempo que ela demorava para se levantar do sofá e deixar cair a correspondência com um pedaço de bolo de chocolate e não preparar o melhor de seus sorrisos, porque o melhor de seus sorrisos era para depois, muito depois, um sorriso que mostrava tantas possibilidades como a janela aberta para a cidade, que você podia olhar com um binóculo e, ainda assim, não ser capaz de pegar todas as pessoas em flagrante dentro de suas intimidades. 

Quando ela abria a porta, ele mergulhava inteiro, às vezes soltando no chão o jornal com toda a pressa, mas não o embrulho azul, que ela pegava em algum momento durante o abraço e apertava, tentando adivinhar: Fruta? Anel? Pijama? Escova de dente? Problema? Se era problema, isso podia ficar para depois, porque, antes de tudo, era preciso não falar nada e, simplesmente, olhar um para o outro, tentando achar uma palavra, um som diferente do som e da palavra da vez anterior, alguma coisa que nunca tivesse sido expressada, mas, para isso, era preciso que fosse diferente, e muitas vezes não era diferente, mas para que pensar nisso, não é? Ele fechava a porta atrás de si com o pé, enquanto procurava se aquecer em volta dela, como uma porção de pequenas chamas, um robe comprido de cetim metálico, cuja textura enlouquecia, ou cuja intenção era emoldurar ou cobrir o corpo dela e todos os seus riscos e equilíbrios. Se era anel ou livro, era para imediatamente experimentar ou colocar na estante, e dizer exclamações curtas, mais descontraída, tentando consertar a frente do robe que ele teimava em abrir. 

O que ele fazia depois geralmente era deitar-se de comprido no sofá, não antes de pisar num pedaço de chocolate que virava uma placa escura no tapete, não antes de olhar para ela mais uma vez e ver, surpreso, que ela também olhava para ele e abria o robe. 

O que eles faziam você pode ler em qualquer lugar e ver em qualquer filme, mas para eles era diferente do que com todas as outras pessoas, eles pensavam que era mais bonito e mais ardente, e eu prefiro deixar que eles pensem que realmente era mais bonito e mais ardente, por que não? Às vezes dormiam até as onze horas da manhã, quando ela se levantava e abria um pouquinho a cortina para ver pessoas tão feias e apressadas e distantes lá embaixo na rua, fazendo barulho de cidade e de dia de trabalho, horrível. Ela fechava a cortina e voltava para ele, e conversavam e prometiam um ao outro nunca se separar, nunca. 

O que eles almoçavam, o que eles falavam, como tomavam banho e depois riam, e depois ela abria o robe outra vez, e depois, quando ela ia olhar a cidade, o movimento tinha diminuído bastante, e agora só passavam umas poucas pessoas talvez voltando do cinema, um táxi, a noite lá fora e eles o dia todo fazendo gestos redondos e quentes, ele contornando um ombro e um quadril, muitas vezes um seio, e ela contornando as costas e a barba. 

Vamos ter um final feliz, ou vamos morrer, eu de velhice e você de crime? E riam, imaginando bengalas e interrogatórios de polícia, amarrados com pernas, braços e o cabelo dela com o último nó. Ou não vamos ter nenhum final, como só mesmo esquecer e perder a importância? Ele queria falar que não iam ter nenhum final, mas não que ia esquecer ou perder a importância. Quando ela olhava para ele, ele desenhava uma cicatriz em cima do coração com o batom vermelho que havia achado no banheiro, e ela sabia.

Mas, às vezes, ela não estava e não havia nenhum perfume, nenhuma poeira, nada debaixo da porta. Impossível dizer onde havia passado a noite, impossível dizer quando ela ia voltar. Ele deixava o jornal e o embrulho azul na caixa de correio e saía do edifício, pensando “quem sabe ela esqueceu, quem sabe perdeu a importância?” Abrindo o carro, ele podia sentir com uma das mãos uma marca profunda e dolorosa em cima do coração.



“E se eu disser apenas a verdade”

De Ana Cecília Carvalho

Editora Sinete

156 páginas

R$ 60

Lançamento neste sábado (19/9) às 10h, na Academia Mineira de Letras, em debate com a professora Lyslei Nascimento, da FALE-UFMG, e Rogério Faria Tavares, presidente emérito da AML.

Os preferidos de Ana Cecília

Livros

“Crime e castigo”, de Dostoiévski 

“Niétotchka”, de Dostoiévski 

“Angústia”, de Graciliano Ramos

“O tempo e o vento”, de Erico Verissimo

“O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald 

*

Autores 

Júlio Cortázar

Jorge Luis Borges

Italo Calvino

Isaac Bashevis Singer

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