João Pombo Barile - Especial para o Estado de Minas
“O que, exatamente, são as memórias de uma nação? Onde são guardadas? Como são moldadas e controladas? Há vezes em que esquecer é o único jeito de interromper ciclos de violência, ou de impedir uma sociedade de se desintegrar em caos e guerra? Por outro lado, poderiam nações estáveis e livres serem realmente erguidas sob pilares de amnésia proposital e justiça frustrada?” A frase do japonês Kazuo Ishiguro, lida durante a cerimônia de entrega do Nobel de Literatura em 2017, bem que poderia servir de epígrafe para “A ilha do silêncio: terror e genocídio na Terra do Fogo” (Fósforo), de José Godoy. Fruto de uma grande pesquisa, na qual o autor ouviu dezenas de pessoas e visitou arquivos no Chile e na Dinamarca, o ensaio explicita a trágica maneira como nós, latino-americanos, sempre nos relacionamos com o passado: esquecendo.
A história do livro começa quando o escritor, durante uma viagem ao Chile, cisma de conhecer a ilha Dawson, no extremo sul do país. Ali, aconteceram dois dos mais sombrios episódios da história chilena: o confinamento e morte sistemática de povos originários (século 19) e dezenas de crimes durante a ditadura Pinochet (século 20). Só o capítulo do encontro de Godoy com o arquiteto chileno Miguel Lawner, que ficou preso na ilha, já vale o livro.
“É grande nossa ignorância a respeito de acontecimentos violentos ocorridos em lugares que conhecemos, que frequentamos sem nos dar conta de que há ali um passado que não deveria ser esquecido, pelo contrário, que deveria nos pertencer como nossas histórias mais íntimas”, afirma Godoy ao Estado de Minas.
Doutor em literatura pela PUC-RJ com pós-doutorado em teoria literária pelo IEL-Unicamp, José Godoy é escritor, crítico literário e editor. Ele atua como âncora, comentarista e crítico literário da rádio CBN e consultor editorial da DBA Literatura.
Leia a entrevista do autor de “A ilha do silêncio: terror e genocídio na Terra do Fogo” ao Pensar.
Como surgiu a ideia de fazer um paralelo entre duas violências de Estado: o extermínio de povos originários na Terra do Fogo e os crimes da ditadura de Pinochet?
Há mais de dez anos venho pesquisando recorrências espaciais traumáticas na história da América Latina, buscando exemplos de repetições ocorridas num mesmo lugar em tempos distintos. O tema me fascinava e ainda fascina: nossa ignorância a respeito de acontecimentos violentos ocorridos em lugares que conhecemos, que frequentamos sem nos dar conta de que há ali um passado que não deveria ser esquecido, pelo contrário, que deveria nos pertencer como nossas histórias mais íntimas. A ilha Dawson era um lugar exemplar desse tipo de processo. O espaço circunscrito da ilha tinha uma característica didática, que permitia visualizar, como numa maquete, esses eventos. Neste caso, primeiramente, no final do século 19, o projeto de missionários salesianos de isolar para catequizar povos nômades que ocupavam há milênios a região da Terra do Fogo, contribuindo decisivamente para seu genocídio. E então, setenta anos depois, a construção do único campo de concentração erguido para essa finalidade pela ditadura Pinochet. Contar essa história, de certo modo, foi uma tentativa não só de manter a memória daqueles acontecimentos viva, mas também, de algum modo, aguçar a atenção do leitor para esse tipo de recorrência que, muitas vezes, está mais próxima de nós do que imaginamos.
Mesmo tratando de um tema tão pesado, triste, a leitura do livro flui facilmente. Qual o segredo de encontrar um narrador que consegue prender o leitor?
Sem dúvida, esse foi o grande desafio em termos de escrita. Desde o começo do projeto eu sabia que não queria fazer um relato impessoal, em terceira pessoa, como um narrador que enxergava aqueles acontecimentos à distância, sentado num escritório com a bibliografia disponível. Eu queria que a narrativa trouxesse um componente emocional que impactasse tanto quem conta como quem lê essa história. A partir de um dado momento, entendi que precisava de um narrador que trouxesse sua experiência subjetiva para a história. A escrita começou a fluir a partir daí, dando voz a esse narrador em campo, um pesquisador obcecado que tenta entender o que aconteceu naquele lugar, visitando aquela região, conversando com pesquisadores, ex-prisioneiros, descendentes de vítimas da ditadura. Também essa era a chance de conectar, por vias emocionais, o impacto da ditadura entre nós, latino-americanos, buscando aproximar a história brasileira, na qual o passado do pesquisador tem lugar, com o passado chileno.
Num trecho do livro, você escreve: “Numa pausa para um café, eu conversava com uma canadense sobre assuntos diversos até que ela me perguntou por que havia escolhido o Chile como centro do meu trabalho. Sim, você é brasileiro, ela prosseguiu, por que pesquisar uma história chilena, e não um tema relacionado ao seu país? (...). Sim, por que o Chile? Eu também me perguntava”. O livro aproxima a história brasileira da história da América Latina. Por que os brasileiros muitas vezes não se consideram latino-americanos? Como você hoje responderia hoje a sua colega canadense?
Creio que ainda exista uma grande tensão entre nos vermos como latino-americanos e o reconhecimento desse pertencimento por parte de nossos vizinhos. De um ponto de vista mais teórico, o esforço em formular uma ideia de identidade nacional a partir das independências desses países no século 19 – no caso brasileiro, na ideia de formação que povoou a reflexão de nossos principais teóricos da primeira metade do século passado – em muita medida interditou um diálogo mais amplo. Vale também ressaltar que a ideia de América Latina que serviu a burocratas franceses e aos criollos independentes do império espanhol não enxergava o Brasil como um igual. Tudo isso é importante de ser considerado; porém, o que me interessa mais é entender o que nos aproxima em termos de trauma constitutivo, não apenas como consequência da violência colonial, mas também no contexto de nações independentes, cujas elites, em conluio com a alta hierarquia militar, praticaram continuamente as mais nefastas violações. É essa semelhança que me interessa, a proximidade de populações que sofrem continuamente da violência estatal. De certo modo, uma das questões que o livro tenta responder é essa que você resgata de minha colega canadense. Com a virada testemunhal das últimas décadas, onde se destaca nas narrativas o valor da experiência vivida, qual é o lugar daqueles que estão de fora, nem foram vítimas, nem perpetraram essas violências? (É claro que nunca estamos fora, sempre somos afetados, reconhecendo ou não). Creio que, em nosso momento atual, de profunda crise nas democracias e sistemático ataque ao Estado de Direito, essa passa a ser uma questão premente. Para que possamos dizer “não, daqui não passa” àqueles que fantasiam o retorno de tempos sombrios, é preciso muito mais do que a voz das vítimas; é preciso que todos, incluindo os que não foram afetados diretamente por aquela violência, digam em alto e bom som: “não, isso não pode se repetir”. Essa é a única chance para nós que queremos construir países verdadeiramente democráticos neste continente.
Escrever um livro de leitura acessível, para quem não é especialista, foi intencional? Os acadêmicos brasileiros sabem escrever para o grande público?
A meu ver, essa oposição entre o trabalho acadêmico rigoroso e o prazer do texto se dá por uma dificuldade de expressão das próprias ideias. Uma dificuldade do autor, não do leitor. Não há nenhuma bula que determine essa relação, pelo contrário. De Montaigne a Barthes, de Sérgio Buarque a Roberto Schwarz, escreve-se de forma clara e prazerosa sobre temas complexos. Falando especificamente dos Departamentos de Letras no Brasil, seguimos ainda, com raras exceções, uma tradição positivista, importada de áreas científicas. Nossos departamentos são Teoria da Linguagem, de Ciências da Informação etc. De algum modo, não se considerou que o trabalho estético deveria fazer parte desse rol; o escritor não foi convidado a lecionar nos departamentos de Letras. É óbvio que isso é uma generalização, uma provocação, mas creio que é preciso entender por que sabemos analisar minuciosamente um texto alheio, mas não temos acesso ao processo da escrita. Dito isso, há alguns acadêmicos brasileiros que são excepcionais escritores, que têm plena noção da necessidade de conversar com o público fora da academia. É preciso expandir esse diálogo, abrir-se ao debate público, sem que isso seja sinônimo de perda de rigor e qualidade.
Em outro trecho do livro, você escreve: “Nem viajante, nem turista, nem pesquisador, nem escritor. Percebo que, tomado por anacronismos, procurara imaginar em nossa cultura digital a possibilidade de uma experiência genuína, capaz de diferenciar o viajante daqueles que se lançam em outras terras para confirmar estereótipos, ou reafirmar as próprias fantasias de uma identidade nacional”. Viajar se tornou desnecessário? O que significa viajar hoje?
No livro eu faço menção ao impacto da cultura digital sobre a possibilidade de encontrar na viagem uma abertura ao desconhecido, algo muito explorado por várias gerações de escritores do século passado. Hoje, viajar, cada vez mais, se tornou um checklist de imagens já vistas. Porém, para mim, viajar também se dá de outra forma, como um verbo gêmeo do narrar. Nossa tradição ocidental se ancora fortemente no relato de viagem, seja ele a “Odisseia”, seja o conjunto de relatos de navegadores portugueses do século 16, ou narrativas de exploradores estrangeiros do interior do Brasil do século 19 que influenciaram decisivamente a escritura de “Grande sertão: veredas”. O diário de campo colhido durante uma viagem é para mim um dos gêneros mais poderosos para se relatar a experiência do mundo.
O ápice do livro parece ser o seu encontro com o arquiteto Miguel Lawner. Em um dos trechos do livro, você escreve: “Se mesmo vinte anos atrás, numa data tão importante, envolvendo personagens fundamentais do país, durante um governo progressista, composto por ministros que foram prisioneiros — como Bitar — ou cuja família foi duramente atingida pelo golpe — como Bachelet — a resistência era explícita, e se fazia ouvir publicamente, escapando dos quartéis, como poderia eu imaginar chegar à ilha? E, por outro lado, se mesmo cinquenta anos após a tomada do poder pelos militares, a impossibilidade de acesso a Dawson segue de pé, o que diz isso sobre a democracia chilena?” Ao ler este trecho, me lembrei da condescendência que parte dos brasileiros têm com a tentativa de golpe que vivemos recentemente. O que isso diz de nossa democracia? Estamos fadados ao eterno retorno da ditadura?
Sim, é verdade, temos um fraco por tiranos; porém, os tempos recentes vêm demonstrando que não se trata apenas de uma manifestação local de nossa região. Democracias que se julgavam consolidadas há muito mais tempo hoje também caem nas mãos de personagens grotescos. De certo modo, os 40 anos de democracia que alcançamos de forma inédita recentemente me parecem sinalizar um desejo de liberdade e de expressão inéditos no país. Por outro lado, parte da população tem pouca clareza do que é viver sob um Estado de exceção. Há muita desinformação e um desinteresse atávico sobre nossa própria história. Vivemos uma grande crise da reflexão crítica; as humanidades foram secundarizadas pelo impacto das big techs no cotidiano, banalizando o lugar do debate. Penso que a democracia só se manterá pela profunda consciência do impacto de sua ausência. n
Trechos
“Há alguns anos eu tentara sem muito sucesso trabalhar a partir de um arquivo sobre a violência urbana produzida pelo Estado de exceção no Brasil pós-1964. Procurava contar de que modo a história do país podia ser narrada a partir de certos espaços que marcam nosso cotidiano, sem nos darmos conta de seu passado. De como o tempo diluindo esse componente histórico, como se não fosse possível para nossa sociedade lidar com a memória incrustada nesses lugares. Em larga medida, esse me parecia mais um sintoma de nossa doença coletiva do esquecimento, referendada em pactos políticos como a Lei da Anistia, e que dizia mais a respeito do modo que encontramos para lidar com a nossa violência original, no qual o passado precisa a todo o momento ser superado, substituído por um presente ocupado pela afasia cotidiana.”
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“Não se tratava de chilenos ou brasileiros ou peruanos ou uruguaios, paraguaios, venezuelanos, eu poderia ter dito naquela tarde em Copenhague. Somos todos filhos do mesmo colonialismo, das mesmas práticas, constituídos de repetições que rasgam a pele e aderem à consciência. Nossa identidade é dupla e ao mesmo tempo vazia, existe num vácuo entre a prótese mal--acabada da nacionalidade e as cicatrizes supuradas legadas pelos diversos imperialismos. Estamos, e isso é o mais importante, encharcados uns pelos traumas dos outros.”
“A ilha do silêncio: terror e genocídio na Terra do Fogo”
De José Godoy
Fósforo
176 páginas
R$ 79,90
