Calculando, o Homem passa os dedos pela pedra do machado. Não precisariam de muito, dois desses javalis mais parrudos atenderiam às necessidades mais imediatas, fornecendo carne e gordura, provendo ossos e couro, sangue morno e fresco, porém, uma coisa é estarem em um grupo de caçadores, outra é serem surpreendidos assim, em trânsito com toda a gente: os bichos se voltariam contra eles e facilmente inverteriam a ordem da caçada.

Um homem neandertal na caça de javalis. Esta foi a primeira cena de “Os imortais” a aparecer na imaginação de Paulliny Tort. “A partir disso, entrei na história”, conta a escritora brasiliense, autora do livro mais comentado da literatura brasileira de 2026 até agora. Lançada em janeiro, a história de um clã de neandertais identificados apenas por suas características – Homem, Mulher, Velha, Menina – já teve cinco reimpressões e ‘furou a bolha’ da literatura contemporânea brasileira.  

“Um livro profundo, diferente e com uma escrita que não dá vontade de parar”, afirmou a cantora Zélia Duncan. “Deveria ser leitura obrigatória de todo ser humano do planeta”, sugeriu a jornalista Maria Prata. “Uma leitura que me deixou encantado, maravilhado, assustado, mas sobretudo atormentado”, revelou Francisco Custódio, do podcast Histórias Diversas. “A autora consegue criar uma história situada em tempo prévio ao aparecimento da linguagem sem recorrer a anacronismos ou termos desgastados”, observou a crítica literária Maria Fernanda Vomero, em resenha publicada na revista Carta Capital. “O livro do momento”, resumiu o fotógrafo Marcelo Moreno, em comentário no perfil do cantor Lucas Lima, que tem mais de dois milhões de seguidores e fez uma postagem com o livro e brincou com o sobrenome da autora.

“Honestamente não sei dizer o que faz furar a bolha. Não sei nem se é possível prever ou apontar com segurança o que agrada ou não os leitores. Apenas procuro me manter fiel àquilo que quero contar, da forma que quero contar”, afirma Paulliny ao Pensar. Autora também de “Erva brava” e “Allegro ma non troppo”, a escritora brasiliense falará pela primeira vez aos leitores mineiros sobre “Os imortais” neste sábado no Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu). Às 17h, ela participa da mesa “Ficção especulativa entre o passado e o futuro” com o escritor e cientista político Sérgio Abranches, colunista do Estado de Minas e autor do romance distópico “A franja do fim do mundo”, com mediação de Calila das Mercês. Haverá transmissão ao vivo pelo canal do Fliparcatu no YouTube.

Leia, a seguir, a entrevista de Paulliny Tort ao Pensar sobre a repercussão de seu romance pré-histórico, já com tradução assegurada para seis idiomas e que rendeu uma das mesas mais concorridas da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na ocasião, Andrea del Fuego, autora do best seller “A pediatra”, chamou “Os imortais” de “um acontecimento”.

Você participa neste sábado do Fliparacatu, que homenageia os 70 anos de “Grande sertão: veredas”. Qual a importância do livro para a sua vida? É o seu favorito de Guimarães Rosa?

Embora eu não identifique uma influência direta do “Grande sertão: veredas”, até porque não sei se essas relações são sempre tão explícitas, ainda me lembro do bom estranhamento que senti quando me deparei com o livro pela primeira vez. E meu favorito do Rosa é um conto: “A terceira margem do rio”. 

Qual fagulha acendeu “Os imortais” na sua imaginação?

A cena que apareceu um dia na minha imaginação: um homem neandertal caçando javalis. A partir disso, entrei na história.

Em uma das mesas mais concorridas da Flip, Andrea del Fuego chamou “Os imortais” de “um acontecimento”. A que atribui esse ‘acontecimento’ que fez o livro ‘furar a bolha’ e alcançar muito mais leitores do que a maioria dos lançamentos da literatura brasileira? O que foi mais marcante em Paraty?

Honestamente, não sei dizer o que faz furar a bolha. Não sei nem se é possível prever ou apontar com segurança o que agrada ou não os leitores. Apenas procuro me manter fiel àquilo que quero contar, da forma que quero contar. Sobre Paraty, foi tudo muito especial. Como bem observou a Carmen Stephan (“Malária”), autora com quem dividi uma das mesas, é incrível ver tanta gente reunida por amor aos livros. 

Das reações provocadas por “Os imortais” até agora, qual a mais surpreendente? 

Talvez não seja surpreendente, mas acho bonito ver como algumas pessoas se emocionam, se sensibilizam profundamente com os destinos dos personagens. 

Você tem usado o instagram para compartilhar leituras do livro. É possível usar as redes sociais como aglutinação e não dispersão? Você acessa as redes quando está dedicada a um novo livro?

Não manjo de redes sociais. Embora às vezes publique uma coisa ou outra, sou quase que somente uma replicadora de postagens alheias no Instagram, única plataforma que utilizo. Entendo que nosso tempo inventou esse “lugar” e que bons encontros também podem acontecer por essas vias, mas não me dedico muito. Passo alguns meses com perfil ativo e depois desativo (normalmente, passo mais tempo com o perfil desativado). Nunca tive um perfil ininterrupto. 

Acredita que o sucesso de 'Os imortais', traduzido também nos convites recebidos nos últimos meses para participações em festivais e outros eventos literários, pode ajudar a tornar mais profissional a relação do mercado com os autores brasileiros contemporâneos? O que ainda pode ser feito – e qual pode ser a sua contribuição - para se alcançar a profissionalização?

Para mim, eventos literários não são passeios, mas atividades profissionais, e considero indispensável que sejam pensados por entidades e pessoas que tenham afinidade com o livro e a leitura. O uso racional dos recursos, a seriedade da curadoria, o respeito aos autores convidados, tudo depende disso. Como escritora, só o que posso fazer é celebrar os bons convites e rejeitar as propostas que me parecem absurdas. 

O sucesso de “Os imortais” pode influenciar, de alguma forma, na criação de seu próximo livro? Já começou a escrevê-lo?

Escrita é escrita. Recepção é recepção. São dois mundos que se tangenciam em algum momento, mas não se misturam. E estou sempre escrevendo, porque gosto mesmo é do processo, do trabalho. Publicar é só a pontinha do iceberg. 

Paulliny Tort no Fliparacatu

Escritora participa neste sábado (29/8), às 17h, da mesa “Ficção especulativa entre o passado e o futuro”, no Auditório da Feira, ao lado de Sérgio Abranches, com mediação de Calila das Mercês, em Paracatu (MG). Transmissão pelo canal da Fliparacatu no YouTube.

Sem fronteiras

As editoras que compraram os direitos para tradução de “Os imortais”

* Hogarth, selo da Penguin/Random House (Estados Unidos e Canadá)

* Daunt (Grã-Bretanha): Daunt

* Éditions La Peuplade (França) 

* Anagrama (Espanha)  

* Edicions del Periscopi (Catalunha)

* Czarna Owca (Polônia)

*Crocetti/Feltrinelli (Itália)

“Algo extraordinário que só a ficção literária pode nos proporcionar”

José Godoy

“Fiquei realmente impressionado. (...) Não é todo dia que lemos em nossa contemporaneidade uma escrita que escape da ficcionalização do próprio eu, ou das tentativas de recortar do mundo em que habitamos algo que reconhecemos de antemão. Paulliny nos tira desse lugar do conhecido e nos oferece algo extraordinário que só a ficção literária, em seus melhores momentos, pode nos proporcionar: habitar espaços inesperados, romper as barreiras temporais, dando relevo à deliciosa experiência de viver como outros, totalmente diferente de nós, mas ao mesmo tempo tão próximos.”   

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JOSÉ GODOY é escritor e crítico literário, em seu perfil no instagram

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