“Antes de falar, pense. Antes de pensar, leia um livro”. A recomendação da jornalista norte-americana Fran Lebowitz é lembrada na apresentação de “Como ler para escrever”, curso online mensal ministrado por Ana Lima Cecilio, editora de Literatura Brasileira na Record. Formada em Filosofia, Cecilio trabalha há quase 30 anos no mercado editorial, foi curadora da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) em 2024 e 2025 e assina a newsletter A Lábia. O curso integra a escola “Para escrever”, dirigida pela escritora Lilian Sais e voltada para a escrita criativa.
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“Eu e Lilian pensamos uma espécie de percurso de leitura de apoio à escrita, em que escolhemos livros cruciais para desfazer os principais nós de quem escreve: narradores, estrutura, personagens, começos, ambiente etc. Escolhemos um livro por mês que nos dê assunto e exemplo para discutir uma questão específica, chamamos outros livros para a conversa e, durante uma sessão por mês, falo sobre o livro e ouço os alunos com suas considerações”, detalha Ana Lima Cecilio.
Cada ciclo custa R$ 330 e inclui quatro encontros, um por mês, com livros sobre o mesmo tema. A primeira turma, das 19h às 21h às quintas-feiras, está esgotada e será oferecida uma nova turma.
Leia, a seguir, a entrevista de Ana Lima Cecilio sobre o papel fundamental da leitura para a escrita e os problemas mais recorrentes que ela identifica nos originais de escritores estreantes e experientes.
Como a leitura ajuda a escrita?
Eu não acredito num escritor que não lê. A literatura, de modo muito geral, é uma conversa – entre pessoas, épocas, países, lugares. O que faz a literatura tão relevante como transporte de culturas, como matéria da imaginação e como invenção de uma memória coletiva é justamente a possibilidade de abrir conversas. Alguém que escreve, para manter seu interesse vivo, deve fazer parte de uma turma de perdidos de amor pela palavra, de gente que acredita que a escrita é algo vivo que nos mantém unidos, conversando. Quanto mais a gente lê, mas compreende que faz parte desse universo, e ganha mais instrumentos para compreender e experimentar, para tentar novos caminhos ou retomar caminhos antigos. A história da literatura é como um palimpsesto que vai botando uma camada sobre a outra, e é por isso que é tão vasta e bonita.
O primeiro ciclo do curso terá o narrador como tema. Por que a escolha da voz narrativa é crucial em um livro de ficção? Poderia dar exemplos recentes bem-sucedidos?
Essa percepção aconteceu tanto por conta das leituras das centenas de originais que eu recebo como editora e em conversas com a Lilian Sais – escritora brilhante que é a diretora da escola de escrita Para Escrever. A gente sente que o acerto do narrador é o que garante unidade e força ao texto, como se só com o narrador perfeito o texto fosse capaz de convencer o leitor. Também notamos que é sempre uma dúvida se o narrador vai ser em primeira ou em terceira pessoa, e mesmo se vai ser um ou mais narradores, o que acarreta uma escolha fundamental (e prazerosa) sobre a perspectiva em que a história será contada. Quanto aos bem-sucedidos, eu gosto muito quando isso acontece com narradores inusuais como crianças (“O ano do cometa”, da Maria Brant; “O hipopótamo”, do Chico Mattoso), ou com narradores perversos (“A pediatra”, da Andrea del Fuego) ou até com narradores que são objetos inanimados (como a experiência radical da Mariana Salomão Carrara, em “A árvore mais sozinha do mundo”).
Você edita literatura brasileira em uma grande editora e já passou por outras atividades do mercado editorial. Com esta experiência, poderia apontar problemas recorrentes em originais enviados por estreantes às editoras ou cometidos por autores experientes?
De modo muito geral, são três grandes problemas, que encontramos em maior ou menor grau: um deles é justamente a falta de leitura, porque deixa o repertório mais estreito, com grandes chances de fazer o autor chafurdar em lugares comuns e em terrenos mais batidos, como se ele estivesse falando daquilo pela primeira vez. Há também muita pressa em publicar, o que faz com que os autores entreguem textos ainda longe do seu estágio final, com necessidade de um grande trabalho de apuro. É claro que é papel do editor fazer esse trabalho, e é uma coisa que me dá muito prazer, mas é preciso que o texto já tenha sido pensado e repensado, para chegar mais maduro na editora. E por fim o trabalho de linguagem - é muito raro ver um autor que tem um apuro na escrita, e que traz no seu texto mais que uma história, mas também um modo de contá-la. Acredito que a leitura possa ajudar muito com todos esses problemas.
Acredita que seja possível ensinar a escrever melhor? De que forma?
Ah, não tenho dúvida. Desde as inúmeras escolas de escrita espalhadas pelo Brasil (apenas para mencionar algumas: a Para Escrever, a Escrevedeira, a Carreira Literária, a Submarino, a oficina da Jana Viscardi, entre muitas outras) até as mentorias individuais e mesmo livros sobre escrita – como a excelente coleção Errar Melhor, dirigida pelo Joca Reiners Terron para a editora WMF, acredito que estar escrevendo sob o olhar de outras pessoas é muito precioso, porque te tira da loucurinha da sua cabeça e instaura a maravilhosa e imprescindível figura do LEITOR. A edição profissional é também um modo de ensinar a escrever melhor, ainda que pareça mais um processo de troca que de ensino. Mas afora o processo mágico que é o encontro entre um leitor e um escritor, há técnicas de escrita, exercícios de imaginação, truques narrativos que podem, sim, ser ensinados.
“Como ler para escrever”
Curso online, mensal, via Zoom, de apoio à escrita. Aulas ao vivo e gravações disponíveis por seis meses. Encontros mensais de setembro a dezembro. R$ 330 (o valor pode ser parcelado em até doze vezes).
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Mais informações: paraescrever.com
