Ricardo Aleixo - Especial para o Estado de Minas

Sempre que a poesia brasileira começa a dar sinais de que está perto de entrar em mais um de seus costumeiros períodos de estagnação, em termos técnico-formais e temáticos, como agora, quando a pletora de livros publicados sem critério passa a ideia de que tudo vai bem no “nosso” acanhado mundinho literário, no tocante à arte da palavra, eu me lembro de Ademir Assunção e sua lírica incômoda, difícil, intratável, farpada, troco com ele uma meia dúzia de mensagens, ou fazemos uma chamada de vídeo, ou apenas abro um de livros, e tudo, se não melhora, exatamente, já não me parece tão sem sentido quanto antes. 

Recém-chegado à casa gloriosa das 65 idades, Ademir é um dos meus raros amigos poetas, hoje, que tenho na conta de um verdadeiro interlocutor. Porque com ele – e a poesia dele – não tem essa de conversinha instagramável. “Ou é tudo ou nada – como querer algo pela metade?”: essa frase é de Hélio Oiticica, mas poderia ter sido cunhada por Ademir – que tem um verso que diz que “raiva é energia”. Às vezes eu puxo conversa com esse meu amigo só para entender o que é que eu mesmo estou pensando sobre o sombrio tempo dito presente. É pá pum. 

Foi por isso que eu quis trazer, na entrevista abaixo, um pouco daquilo que conversamos já há quase trinta anos, quando começamos a trocar livros, palavras de incentivo mútuo e a partilha da crença no remédio/veneno a que, desde que o sol e a lua ainda nem eram saudados por esses nomes, temos chamado de poesia. 

Ademir, comecemos por aquela conhecida afirmação do seu amigo Paulo Leminski: “Ser poeta aos 17 anos é fácil, eu quero ver alguém continuar acreditando em poesia aos 22 anos, aos 25 anos, aos 28 anos, aos 32 anos, aos 35 anos, aos 40 anos, eu estou com 41, aos 45 anos, aos 50, aos 60 anos, até você encontrar um poeta, por exemplo, como Drummond ou como o admirável Mário Quintana que são poetas que estão fazendo poesia há mais de 60 anos e há mais de 60 anos que a poesia é o assunto deles.” Você completou recentemente 65 anos e está lançando um novo livro. Poesia, para você, é uma questão de crença?

A poesia, para mim, é uma necessidade vital. Desde os 16 anos, quando tomei consciência de poetas como Robert Frost, Serguei Iessienin, Oswald de Andrade ou Cruz e Sousa, para citar apenas quatro, a poesia entrou na minha vida para ficar e passei a prestar maior atenção nas palavras. Todos os dias estou anotando algo, rabiscando, escrevendo, oralizando um poema, desenvolvendo uma resenha e, principalmente, lendo. Todos os dias eu lido com a palavra, essa matéria tão barata e, ao mesmo tempo, tão essencial para a espécie humana. Não organizei toda a minha vida em torno da ideia de ficar rico, mas de me tornar um poeta. Tudo o que fiz e faço vai nessa direção. Não é algo fácil. Ao longo dos anos vão se apresentando as necessidades de sobrevivência e são raríssimos os que conseguem ganhar a vida com a poesia. Praticamente ninguém. Ou você se torna um traficante de armas, como Rimbaud, ou um diplomata, como João Cabral, ou vive na pindaíba, como aconteceu com Roberto Piva em seus últimos anos. É nesse sentido que compreendo as palavras de Paulo Leminski: ser poeta quando você não precisa pensar na própria sobrevivência é moleza. Mas continuar se dedicando à poesia ao longo de décadas é uma espécie de loucura. Uma loucura que, para alguns, significa o próprio sentido das suas vidas.   

O que é que o seu novo livro, “O jogo de xadrez e outros poemas”, significa para você neste momento de tão pouco apreço pela palavra poética e de quase total ausência de projetos coletivos com real poder de transformação? O pessimismo me parece ser uma força viva nesse seu novo conjunto de poemas. Comente, por favor.

Significa que não estou gostando da violência, da falsidade e da burrice da sociedade em que estamos vivendo – e por isso procurei radicalizar ainda mais a visão crítica e os procedimentos estilísticos já presentes em “A Voz do Ventríloquo” (2012), “Pig Brother” (2015) e “Risca Faca” (2021). Os poemas são distópicos, são marcados pelo pessimismo? Pode ser. Quando olho para o céu numa noite estrelada, com a consciência alterada, vejo a vida como algo mágico, misterioso, fascinante. Porém, os que se acham donos do mundo – banqueiros, especuladores, empresários bilionários – e os fantoches que estão a serviço deles, em vez de olharem para o céu só olham para o dinheiro. Onde vemos uma praia paradisíaca eles enxergam um espaço ocioso pronto para se tornar um resort de luxo. Injetando fortunas em publicidade, numa máquina de convencimento que trabalha incessantemente, dia e noite, conseguem criar essa engrenagem massacrante, diante da qual nos sentimos cada vez mais impotentes, deprimidos, doentes e isolados. Já reparou que hoje em dia são poucos aqueles que querem mudar o mundo – algo que era bastante comum entre os jovens de três ou quatro décadas atrás? Hoje quase todos só querem ficar ricos. Essa estupidez predatória está nos levando rapidamente ao risco de extinção da espécie humana. Isso é real, é palpável. Um doente de pedra, como Elon Musk, que gasta oceanos de dinheiro com a ideia fixa de criar colônias humanas em outro planeta antes da hecatombe climática, econômica ou nuclear, é visto como um visionário. Então, eu escrevo contra essa insanidade toda. Não são meus poemas que são distópicos. Distópicos são esses caras que estão nos levando para o buraco.

Como você escreve, Ademir? De qual ponto você parte? De uma ideia, uma imagem, um som, de algo que lhe provoca raiva? 

De tudo isso e do encantamento que tenho pela linguagem. A palavra pode ser usada para mentir, enganar, manipular, iludir, mas também pode ser usada para encantar, fascinar, despertar a consciência, pessoal e coletiva. E também para perturbar, para provocar tumulto, para modificar o ambiente social. A sonoridade e o sentido de um único verso como o de Allen Ginsberg – I saw the best minds of my generation destroyed by madness – surgem no mundo como um terremoto, algo que altera a paisagem depois de sua passagem. Em suma, Ricardo, sabemos muito bem a força que um conjunto de palavras bem arranjadas pode provocar nos falantes de uma língua. É por isso que a maquinaria da estupidez se esmera em rebaixar o repertório coletivo, isolando os espíritos mais inquietos e dando vazão a um excesso alucinante de poéticas conformistas, que não alteram em nada a percepção individual e não ameaçam a estabilidade dos donos do pedaço. 

Você tem uma rotina de escrita? Qual é o contexto mais próximo do ideal para o exercício da escrita de poesia? Você ouve música, fuma, bebe enquanto escreve?

Rotina, propriamente, não. Tenho disciplina. Desde cedo passei a me perguntar: como um poeta pode aperfeiçoar sua arte? Se um trompetista quer se ombrear a um Miles Davis não vai conseguir isso simplesmente olhando para o trompete. Tem que pegar o instrumento e estudar oito, nove, dez, doze horas todos os dias. E só vai fazer algo expressivo se tiver prazer com isso. Disciplina e prazer são indispensáveis. 

Sempre que leio um livro seu, vem-me à lembrança aquele verso do Mário Faustino, “tanta violência, mas tanta ternura”. Explico: você escreve coisas terríveis sobre esse beco sem saída e sem saúde em que nós, os auto-denominados humanos, nos metemos, mas está lá, sempre, o cuidado com a música do verbo, a minúcia na elaboração de cada sílaba, a espacialização pensada. Você se reconhece nessa imagem faustínica?

Sim, me reconheço nessa imagem faustínica. Assim como reconheço no fragmento da sua pergunta – “esse beco sem saída e sem saúde” –, ecos dos versos de Dante Alighieri, da “Divina Comédia”, na tradução de Augusto de Campos: “No meio do caminho desta vida / me vi perdido numa selva escura, / solitário, sem sol e sem saída”. Não é este um dos prazeres existentes no diálogo entre poetas, entre pessoas que compartilham um repertório, entre viventes que ainda conseguem perceber a beleza de uma melodia, a surpresa de uma dissonância inesperada, o balé das palavras no espaço de uma página impressa ou de uma tela de computador? Lembro das palavras de Nietzsche: “Se se pensa nos germes iniciais do sentido artístico e se pergunta quais são as diversas espécies de alegria produzidas pelas primícias da arte, por exemplo, entre populações selvagens, encontra-se primeiramente a alegria de entender o que o outro quer dizer. A arte é aqui uma espécie de proposições de enigmas que proporcionam ao decifrador prazer por sua própria rapidez e acuidade de sentido”. Sinto como um erro primário quando poetas abrem mão desse prazer e confundem a linguagem poética com o discurso sociológico.

Você tem acompanhado o momento atual da poesia brasileira? Importante: o termo “momento atual”, obviamente, não remete apenas às gerações mais novas, mas a todo mundo que tem feito poesia hoje.

Tanto quanto posso, sim, procuro acompanhar. Porque me interessa saber como meus pares estão lendo o mundo. Mas o ambiente está saturadíssimo. Há uma hiperinflação de poetas, fruto da multiplicação das oficinas de escrita criativa e da facilidade de mandar um livrinho para a gráfica e imprimir 100 exemplares. É bem provável que muitos dos melhores poetas que estão surgindo ainda não tenham entrado no nosso radar. Para não me perder nessa “selva selvagem”, procuro manter o olhar atento às bordas – como costumava se referir Jerusa Pires Ferreira a todos aqueles que possuem um potencial maior de causar incômodo. São esses os que me interessam: os inquietos, desajustados, arruaceiros e atrevidos.

Nossa geração, pensando aqui em gente que conta, hoje, entre 60 e 70 idades, tirou bastante proveito criativo da difusão dos meios eletrônico-digitais e da internet. Editamos blogs, gravamos audiopoemas e videopoemas, requalificamos a arte da performance, inserimos no corpo geral da poesia brasileira outras variáveis, como as poéticas africanas e afro-diaspóricas, as ameríndias e outras que, por muito tempo, não encontraram lugar em nossa cultura poética. A sensação que eu tenho é que o pessoal mais jovem desconhece absolutamente o que fizemos. Como você vê isso?

Sim, fizemos tudo isso e tenho a mesma sensação que você: tudo o que fizemos ainda não chegou ao conhecimento dos mais jovens. Mas precisamos entender que os fluxos de consciência são cíclicos: vivemos em um momento de alta ansiedade e baixa consciência. Isso pode mudar de uma hora para outra. Não podemos esquecer que após a intensa inquietação das décadas iniciais do século 20 veio um longo período de caretice absoluta, de estupidez generalizada. Quando a situação se tornou insuportável, houve uma explosão criativa planetária nos anos 1960 e 1970, que alimentou e nutriu os mais inquietos da nossa geração. Quando isso ocorrer novamente as linguagens mais audaciosas e provocantes, aquelas que estão sendo deliberadamente escondidas neste momento, virão à tona. Assim como recebemos o mel do melhor das gerações que nos antecederam, vamos deixar um precioso legado para a sobrevivência das novas gerações. Espero que o mundo não se torne insuportável antes disso. Espero que dê tempo. 

RICARDO ALEIXO é poeta músico e artista visual. Doutor por notório saber pela UFMG e membro da Academia Mineira de Letras, publicou livros como “Pesado demais para a ventania” (Todavia, 2018), “Extraquadro” (Impressões de Minas/Lira, 2021), “Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite” (Todavia, 2022) e “Tornei de Luanda um kota” (Impressões de Minas/Lira, 2024).

“O jogo de xadrez e outros poemas”

• De Ademir Assunção

• Cobalto

• R$ 52,90

• 128 páginas

Sobre o autor

Poeta e jornalista, Ademir Assunção publicou livros como “A voz do ventríloquo” (Prêmio Jabuti 2013), “Pig Brother”, “Zona branca”, “Risca faca”, “Ninguém na Praia Brava”, “Faróis no caos”, entre outros. Seus contos e poemas já foram traduzidos para o inglês, alemão e espanhol. Editou, com Rodrigo Garcia Lopes e Marcos Losnak, a revista literária “Coyote”. Tem parcerias musicais gravadas com Itamar Assumpção, Edvaldo Santana, Maricene Costa, Titante, Mona Gadelha e Patrícia Ahmaral. Desenvolve, desde 2021, uma série de poemas cinéticos, com o uso de computação gráfica, técnicas de animação e colagens sonoras.

Três poemas 

(De “O jogo de xadrez e outros poemas”, de Ademir Assunção) 

“Hamlet  quase embriagado”

um ser – (ou não

ser) tão inútil

quanto um grilo

uma borboleta

branca

uma maritaca

ousada

na janela do 12º andar

ou a chuva, tão bonita,

caindo na copa das árvores –

olha, espantado,

a longa fila de automóveis

aguardando

a abertura do semáforo

*

“A fábula da ave de uma asa só”

avesso ao avesso

avesso às luzes frias dos elogios interesseiros

avesso à papa fria das paparicações

avesso ao troca-troca de favores nas pálidas páginas dos jornais

avesso aos malas das máfias intelectuais

tão travesso ao seu tempo de quinquilharias

tão propenso ao vento que vem lá do sul

ou do nordeste

(e se for do norte boreal também está bom)

tão travesso e avesso do avesso ao verso

se tornou ave de uma asa só

e é visto com certa frequência voando só

ao sabor das camadas de ar quente

que levam seu corpo raquítico para cima

cada vez mais para cima

a alturas que nenhum tiro é capaz de abatê-lo

*

 “O homem que colecionava nãos”

no início se abalava

como se fossem balas

perfurando a pele

de um sonho tão espesso

que parecia carne;

sentia cartilagens rasgadas

tendões rompidos

ossos esmigalhados

ferimentos ardendo

no silêncio das noites coalhadas de estrelas;

no início a dor era grande

percebia algo precioso

se perdendo 

junto com a água

tragada pelo ralo escuro;

até que desmembrou

o próprio corpo

braços pernas cabeça 

tronco sexo

e jogou tudo dentro do caldeirão;

viu, com olhos outros,

o caldo grosso borbulhando

a carne e até o osso

se dissolvendo

durante luas e sóis inumeráveis;

viu uma mulher sem rosto

mexendo a fervura

com uma colher de ouro

até que a brasa 

se convertesse em cinzas;

viu a mulher sem rosto

recolher os membros

milagrosamente intactos

e costurá-los com fino fio

e soprar as cinzas sobre o novo corpo;

dali em diante

recomposto e posto ao sol

à chuva ao vento

olhou nos olhos do tempo

e passou a colecionar nãos;

a cada não

compreendia com nitidez

os movimentos celestes

os cálculos da economia

e a engenharia das guerras;

compreendeu a solidão

do primeiro primata

as invasões de Napoleão

a Noite dos Cristais

o uivo do vento na savana;

a cada não 

compreendia melhor

a obscura sombra humana

a dança da criação

e a maquinaria da destruição;

compreendeu o desejo

da primeira primata

a força do leão

a faísca elétrica do raio

a viagem de volta de Ulisses;

ao fim da vida

possuía, sem nada possuir,

uma imensurável coleção de nãos

maior que a Biblioteca de Alexandria

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menor que a pata da pulga no pelo de um cão.

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