Carlos Marcelo e Stefania Chiarelli - Especial para o Estado de Minas 

“A passagem dos anos faz com a literatura o mesmo que faz conosco. Algumas histórias crescem e amadurecem com elegância, outras encolhem, outras se deformam, e ainda outras desaparecem por completo”. Assim o guatemalteco Eduardo Halfon apresenta a nova edição de “O boxeador polonês”, publicada dez anos após o primeiro lançamento e editada no Brasil em 2014, pela Rocco, com o título “O boxeador polaco”. A nova edição chega às livrarias brasileiras pela Autêntica Contemporânea, que lançou ainda “Tarântula”, mais recente romance do mesmo autor. 

Leia: Em "Tarântula", Halfon faz preciosa incursão no território das narrativas do eu

De origem judaica, Halfon nasceu em 1971 e morou nos Estados Unidos antes de se estabelecer em Berlim. Com mais de 20 livros publicados e traduzidos em 15 idiomas, ele une memória e ficção em histórias que se conectam por personagens e situações recorrentes. “Tudo isso foi se construindo diante de mim sem nenhum planejamento”, revela ao Estado de Minas. “Um personagem pequeno em um livro se torna grande no seguinte, uma história que começo em um livro continua no outro. Vai se formando uma espécie de romance total, um romance em andamento. Vamos ver onde termina.” 

Para o escritor brasileiro Antônio Xerxenesky, Eduardo Halfon estabelece “fricções das ficções” ao conectar o literário e o ‘real’. “Ele escreve metaliteratura e demonstra grande parentesco com o chileno Roberto Bolaño”, aponta o autor brasileiro no posfácio da edição da Rocco. “Em toda escrita metaliterária, há o risco constante de se tornar chato: excessivamente cerebral, perdido em referências. A única saída é usar a própria literatura como uma ponte para o humano”, observa. É o que Halfon consegue em contos como “Distante”, sobre um professor que sai pelo interior da Guatemala em busca de aluno que abandonou a universidade, e deve ser lido “se deixando arrastar pelo rio do autor. Se essas águas são plácidas ou vertiginosas, não importa. O ponto é ter a coragem e a confiança para submergir por inteiro.” 

“A Guatemala que realmente levo comigo e à qual regresso o tempo todo é a dos anos 1970, a da minha infância”, afirma o escritor. Ele está no Rio de Janeiro para participar da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Neste sábado, às 10h, divide a mesa “A saída é a volta”com Paloma Vidal, escritora argentina que vive no Brasil, e mediação de Gabriela Mayer, com transmissão pelo canal da Flip no YouTube. Mas tem recordações muito marcantes de Minas Gerais. 

“Há mais de 20 anos, quando eu escrevia ‘O boxeador polonês’, minha então namorada, atual esposa, morava em Belo Horizonte. Ela fazia mestrado na UFMG em ecologia de mamíferos, trabalhando com o lobo-guará. E eu fui para BH, vivi com ela um tempo. Passeamos muito por Ouro Preto, Tiradentes, outras cidades históricas. Adorei. E isso foi se infiltrando no que eu escrevia. Também visitamos Salvador. Tenho muito carinho pelo Brasil, muita saudade daqueles dias, daquele tempo em Minas Gerais”, revela o escritor. 

Leia, a seguir, a entrevista de Eduardo Halfon ao Pensar do Estado de Minas.

Você nasceu na Guatemala, em uma família judaica, mudou-se para os Estados Unidos enquanto crescia e passou longos períodos em diferentes países. Como essas mudanças e experiências se refletem em seus livros? 

Nasci em uma família judia na Guatemala, mudei para os Estados Unidos quando tinha 10 anos, cresci falando inglês... As travessias que vivi em seguida, porque não terminou aí meu périplo de nômade, são um pano de fundo para os meus livros. É a mesma biografia que a desse outro Eduardo Halfon, o Eduardo Halfon narrador, que não sou eu, mas que leva o meu nome e carrega a minha biografia. 

Em “Tarântula”, pai e filho têm vínculos diferentes com o judaísmo. Essa é uma questão que a maturidade suaviza? 

Eu acho que a maturidade suaviza tudo. Suaviza a relação com os pais, a relação com o nosso país de origem, também os conflitos que temos. No meu caso, com a religião, sempre uma relação complicada. O que acontece é que, quando criança, era mais interna; na adolescência, começa a virar uma rebeldia, uma rejeição a essa imposição, não ao judaísmo em si, mas à imposição de uma série de regras e comportamentos e proibições, que neste caso estão no judaísmo. 

Depois se tornou uma rejeição absoluta, uma rejeição total a essa forma de vida. Não aceitar o mundo da minha família, o mundo dos meus avós, coisa que para a minha família foi muito dura. Mas eu sabia que tinha de ir embora, tinha que abandonar esse mundo. E somente quando começo a escrever é que começo a buscá-lo de novo. Mas passo a buscar o judaísmo como literatura, o judaísmo como histórias. Esse me interessa. E começo a me aproximar, a fazer uma série de aproximações em meus livros ao conflito que tenho com a religião.

Como a comunidade judaica recebe o seu trabalho? 

‘O que significa ser judeu’é um tema muito judeu. E cada judeu lida com isso de maneira diferente. Então, muitos judeus me entendem. Alguns, os que levam a minha rejeição para o lado pessoal, não entenderão. Mas a grande maioria, sim. 

Seus livros entrelaçam fatos históricos e intrincadas histórias de família, nas quais o nome do protagonista muitas vezes coincide com o seu. Quantos Halfons cabem em um Halfon? 

O Eduardo narrador não sou eu. Essa voz nasce com “O boxeador polonês”, esse livro cuja primeira edição em espanhol é de 2008 (editado no Brasil pela Rocco e reeditado em 2026 pela Autêntica Contemporânea). Ela surge, e surge já muito formada. Não é a minha voz. Não tem o meu temperamento nem a minha personalidade. Não fumo, mal viajo. Não estou tão perdido quanto ele, que duvida de tudo, precisa que o orientem sempre. E quase sempre é uma mulher que chega e lhe mostra o caminho. Então, insisto: é ele quem está nos contando a sua vida. Não eu.

“Luto”, “Canção”, “Tarântula” e “O boxeador polonês” foram traduzidos no Brasil. Além do autor, o que esses quatro livros têm em comum? Qual você recomendaria para quem quer começar a conhecer a sua literatura? 

Esses quatro livros fazem parte de uma série, muito importante esclarecer isso. “O boxeador polonês”foi o primeiro, mas a partir dele começam a surgir outros livros: um conto depois se torna capítulo em “Monastério”, que ainda não foi lançado no Brasil, outro conto se torna capítulo de “A pirueta”, que agora publicamos conjuntamente. Depois continua com “Senhor Hoffman”, que não está disponível no Brasil. E depois se seguem “Luto”, “Canção”e “Tarântula”, o sétimo livro. Agora trabalho no que, possivelmente, será o oitavo. 

Tudo isso foi se construindo diante de mim sem nenhum planejamento. Não sei quais personagens vão se repetir, porque isso é o que começa a acontecer. Um personagem pequeno em um livro se torna grande no seguinte. Alguma história que começo em um livro continua no outro. Vai se formando uma espécie de romance total, um romance em andamento. Vamos ver onde termina.

Por que você disse, ao receber um prêmio na Suécia, que “somos histórias”? 

No fim das contas, o que deixamos são histórias. Meu avô polonês morreu há 20 anos. E o que nos deixou, o que ele me deixou, foi o seu testemunho. A história da vida dele. Essa é a grande herança que recebemos de pais, de avós, de bisavós, do nosso país. E somos como o receptáculo de todas essas histórias. Somos os guardiões dessas histórias. Se eu não cuidar delas, desaparecem. Essa pessoa, em uma ou duas gerações, também desaparece. Continuam existindo só através da história que nos deixaram.

Foi publicado um livro nos Estados Unidos intitulado “Eduardo Halfon y el itinerario de la memoria”. Do que é feito esse itinerário? 

Esse é o primeiro livro acadêmico sobre os meus livros. E a autora faz um percurso, um itinerário deles. O meu itinerário é mais errático. Ou seja, não planejado, nunca pensei que eu estaria morando em Berlim, muito menos por cinco anos. Também não me via no Nebraska, também não me via em Paris, mas não me vejo em lugar nenhum. Ou seja, não há um lugar no mundo ao qual eu aspire chegar. É um itinerário como que sem rota e sem fim. Um perpétuo nomadismo, um vagar, um ir buscando algo, embora eu não saiba exatamente o quê. E, então, qualquer parte do mundo, qualquer cidade do mundo se torna não apenas um possível lar, mas também um possível cenário para os meus livros.

Em “Canção”, o narrador afirma que, mais importante do que o que era verdade ou relevante, era continuar falando do avô. Você também escreve para que as pessoas não desapareçam? 

Somos histórias. Continuar escrevendo para que as pessoas não desapareçam é manter as pessoas e as histórias delas vivas. Contar e voltar repetidas vezes a essas histórias para que essas pessoas não desapareçam. 

“Os nomes das aldeias guatemaltecas nunca deixam de me atormentar”, você escreve em “O boxeador polonês”. O que você carrega da Guatemala em suas memórias, mesmo quando está fora do país? 

Principalmente a Guatemala da minha infância. É a essa Guatemala que eu volto mais do que à Guatemala atual. Viajo para a Guatemala todos os anos. Lá estão meus pais, lá tenho uma casa, mas sempre como uma coisa de verão. De veraneio, de passeio. A Guatemala que realmente levo comigo e à qual regresso o tempo todo é a dos anos 1970. Sempre que escrevo, ou começo por aí ou volto para lá durante o processo, como que buscando algo, pistas, rastros, pequenas histórias que tenham certo sentido. Essa é a Guatemala que me interessa e a que mais prezo. 

Dois contos de “O boxeador polonês” mencionam Salvador e a Seleção Brasileira. Quais outras referências você tem do Brasil? 

Tem uma razão muito prática. Há mais de 20 anos, quando eu escrevia “O boxeador polonês”, minha então namorada, atual esposa, morava em Belo Horizonte. Ela fazia mestrado na UFMG em ecologia de mamíferos, trabalhando com o lobo-guará. E eu fui para BH, vivi com ela um tempo e passeamos muito por Ouro Preto, Tiradentes, outras cidades históricas. Adorei. E isso foi se infiltrando no que eu escrevia; também visitamos Salvador. Tenho muito carinho pelo Brasil, muita saudade daqueles dias, daquele tempo em Minas Gerais.

Como um acontecimento na história do seu avô, narrado em “O boxeador polonês”, prova que as palavras podem salvar vidas? 

É como fez Sherazade: usar a palavra para salvar vidas. Mas, no outro extremo, está também usar a palavra para matar: condenar, acusar, trair. O poder da palavra é o que me interessa, não apenas para o bem, mas o poder para o mal. E as consequências. 

O que você acredita que é possível ensinar aos estudantes de literatura e o que é impossível? 

Acho que a única coisa que é possível ensinar aos estudantes é o nosso entusiasmo pela literatura. Dei aulas durante vários anos na Guatemala, na universidade, e o que continua vivo nesses estudantes, quando eu os encontro hoje, é o entusiasmo com que os contagiei. Ou seja, não um sistema de leitura, não uma imposição, não uma obrigação, não uma racionalidade de como ler ou por que ler ou por que é importante ler, mas sim: ‘vejam o meu entusiasmo’. E talvez algo desse entusiasmo seja contagiante. 

Quais autores guatemaltecos, clássicos e contemporâneos, você indicaria a um leitor brasileiro interessado em conhecer mais a literatura do seu país? 

O autor guatemalteco de referência continua sendo Miguel Ángel Asturias (1899-1874), Nobel de Literatura de 1967. Mas não é um autor tão lido nas escolas, e não o considero tão próximo da minha prosa. Vejo Augusto Monterroso, o grande contista guatemalteco, pela sua brevidade, pelo seu senso de humor, bem mais próximo de mim. Dois mais contemporâneos, jovens, indico Rodrigo Fuentes (nascido em 1984, autor de “Mapa de otros mundos”) e Arnoldo Gálvez Suárez (1982, autor de “La era glacial”). Acho que nenhum dos dois ainda foi traduzido no Brasil. Há também Luis de Lión (de “El tiempo principia en Xibalbá”), um grande escritor guatemalteco que foi sequestrado e ‘desaparecido’pelos militares durante conflito armado interno nos anos 1980. 

“Posso me ver no espelho enquanto escrevo” 

Leia trechos dos quatro livros de Eduardo Halfon publicados no Brasil

“O BOXEADOR POLONÊS”

Tradução de Silvia Massimini Felix

Autêntica Contemporânea

184 páginas

R$ 69,80

“Os nomes dos povoados guatemaltecos jamais deixam de me surpreender. São todos como suaves cascatas ou como gemidos eróticos de algum belo felino ou como olimpíadas peripatéticas, depende. Já de volta à estrada, passei por Sumpango, e toda vez que passo por Sumpango e leio a placa que diz Sumpango, sinto-me obrigado a declamá-lo em voz alta, Sumpango, mas não sei por quê. Passei por El Tejar (onde, claro, antigamente faziam muitas telhas) e por Chimaltenango e depois por Patzicia, que também preciso pronunciar toda vez que leio. Todos esses nomes possuem algum feitiço linguístico, pensei enquanto dirigia e os entoava como pequenas preces. Talvez entre meus favoritos sempre tenham estado os tenangos, isto é, Chichicastenango e Quetzaltenango e Momostenango e também Huehuetenango, que me agradam como palavras, como linguagem pura (...). 

Suponho que os nomes dos povoados guatemaltecos sejam, afinal de contas, igual à sua gente: uma mescla de sutis emanações indígenas e frases toscas de conquistadores espanhóis igualmente toscos e um imperialismo draconiano que se impõe de maneira irrisória e brutal, mas sempre recalcitrante.” 

(Do conto “Distante”)

“TARÂNTULA”

Tradução de Silvia Massimini Felix

Autêntica Contemporânea

136 páginas

R$ 67,90

“Meu peito ardia. Minha boca ardia. Um murmúrio começou a crescer entre as pessoas, entre tantos familiares e amigos e desconhecidos e sócios e empregados do meu avô que agora me olhavam com uma mistura de fascínio e perversidade (como quem descobre uma cicatriz ao longo do pulso de alguém). Não conseguiam entender minha recusa em participar daquela tradição, daquele espetáculo. Embora, quem sabe...Talvez alguns entendessem muito melhor que eu. 

Meu pai se virou para mim. A testa dele estava perolada de gotinhas de suor ou talvez de chuva. E devagar, com discrição, ele me disse algo num sopro de voz que ninguém mais pôde ouvir nem compreender. Não por causa do tom tão baixo e quase inaudível, mas porque ele havia dito aquilo numa linguagem que só ele e eu falávamos. Uma linguagem privada, secreta, de pai e filho. Então dei dois passos à frente e me agachei e enfiei os dedos no montículo de terra preta e úmida e deixei cair uma bola de barro sobre meu avô.”

*

“CANCIÓN”

Tradução de Joca Reiners Terron

Mundaréu

104 páginas

R$ 58

“Estava no Japão para participar de um congresso de escritores libaneses. Ao receber o convite algumas semanas atrás, e depois de lêlo e relê-o até me certificar de que não era um erro ou uma piada, abri o guarda-roupas e encontrei ali o disfarce de libanês – entre meus tantos disfarces – herdado de meu avô paterno, nascido em Beirute. Nunca tinha estado no Japão. E nunca haviam me pedido para ser um escritor libanês. Escritor judeu, sim. Escritor guatemalteco, claro. Escritor centro-americano, cada vez menos. Escritor estadunidense, cada vez mais. Escritor espanhol, quando foi preferível viajar com esse passaporte. Escritor polaco, em uma ocasião, numa livraria de Barcelona que insistia - insiste – em colocar meus livros na prateleira de literatura polaca. Escritor francês, desde que vivi um tempo em Paris e alguns ainda supõem que continuo por lá. Mantenho todos esses disfarces à mão, bem engomados e pendurados no guarda-roupa. Mas nunca tinham me convidado para participar de algo como escritor libanês. E não me pareceu nada demais ter de me fazer árabe por um dia, num congresso da Universidade de Tóquio, se isso me permitisse conhecer o país.

*

“LUTO”

Tradução de Lui Nogueira

Mundaréu

96 páginas

R$ 58

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

“Chamava-se Salomón. Morreu quando tinha cinco anos, afogado no lago de Amatitlán. Era o que me diziam quando criança, na Guatemala. Que o irmão mais velho de meu pai, o primogênito de meus avós, aquele que teria sido o meu tio Salomón, tinha morrido afogado no lago de Amatitlán, em um acidente, quando tinha a minha idade, e que jamais tinham encontrado seu corpo. Nós passávamos todos os finais de semana no chalé de meus avós em Amatitlán, às margens do lago, e eu não podia ver esse lago sem imaginar que de repente apareceria o corpo sem vida do menino Salomón. Sempre o imaginava pálido e nu, e sempre boiando de bruços perto do velho molhe de madeira. Meu irmão e eu até havíamos inventado uma reza secreta que sussurrávamos no molhe – e que ainda lembro – antes de pularmos no lago. Como se fosse uma espécie de conjuro. Como se fosse para afugentar o fantasma do menino Salomón, no caso de o fantasma do menino Salomón ainda estar nadando por ali. Eu não sabia detalhes do seu acidente, e tampouco me atrevia a perguntar. Ninguém na família falava de Salomón. Ninguém sequer pronunciava o seu nome.” 

compartilhe