HISTÓRIA

Clássico israelense sobre expulsão de palestinos ganha 1ª edição brasileira

"A história de Hirbet Hiz'a" apresenta relato de soldado israelense que narra, em primeira pessoa, a invasão e destruição de uma aldeia palestina em 1948

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O relato, em primeira pessoa, de um soldado integrante de pelotão militar israelense que invade uma fictícia aldeia palestina, expulsa os moradores e destrói o local, deixando "um silêncio desolador de abandono". Eis o resumo de "A história de Hirbet Hiz'a", publicado logo após a fundação do estado de Israel e considerado o único representante da literatura israelense a narrar a expulsão dos palestinos logo após os fatos ocorridos em 1948.

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Escrito há mais de 70 anos por S. Yizhar (pseudônimo de Yizhar Smilansky, considerado o 'padrinho' da literatura hebraica moderna), o livro é lançado pela primeira vez no Brasil. Diante das ofensivas incessantes das forças militares do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em Gaza e na Cisjordânia, o depoimento de Yizhar, filho de imigrantes russos que participou dos combates da guerra árabe-israelense, não poderia ser mais atual. E até profético: "Hoje não há nada além de uma desolação que grita, gritos de um silêncio triste e ruim ao mesmo tempo. Aquelas aldeias desoladas, chegará o dia em que elas vão começar a gritar."

"O que a princípio pode parecer um livro banal, não é. Trata-se de um livro escrito por um israelense, ex-membro do exército, que vivenciou o narrado em várias operações de que participou, e publicado a quente, ou seja, ainda em 1949, logo após a fundação do Estado de Israel. Não é pouca coisa. O autor-narrador se questiona sobre os objetivos da operação, demonstrando seu desconforto com a situação vivenciada. O livro prenuncia, naquela época, o que viria pela frente", afirma Michel Sapir Landa, editor do Manjuba, selo da editora Mundaréu, ao Estado de Minas.

"A publicação deste livro se justifica por ao menos dois motivos: com base nos dilemas enfrentados pelo narrador, demonstrar que a forma de pensar de qualquer agrupamento de pessoas não é uniforme, que existem pessoas mais críticas, com o poder de, ao menos, questionar certas situações que lhes são impostas. Ou seja, valorizar o pensamento crítico. Outro ponto é a memória: o autor-narrador tem noção da gravidade dos eventos vivenciados e se vê impelido a preservar essa história do esquecimento. O que vivenciamos hoje, infelizmente só comprovou o seu pressentimento", complementa o editor.

Na apresentação da edição brasileira, Milton Hatoum chama "A história de Hirbet Hiz'a" de "breve e surpreendente romance" e destaca o embate moral do narrador. "A tradução do hebraico recupera a oralidade das personagens e revela uma linguagem rica, por vezes lírica, capaz de condensar, em suas contradições, um forte significado simbólico e histórico que prenuncia, já em 1949, a catástrofe do povo palestino", pontua o autor de "Dois irmãos".

Leia, a seguir, trecho de “A história de Hirbet Hiz’a”:

“É verdade que tudo isto se passou há muito tempo, mas desde então nunca deixou de me assombrar. Empenhei-me em fazer o episódio submergir com o passar do tempo, torná-lo menos importante e diluí-lo na correnteza das coisas cotidianas; mas o máximo que consegui, de vez em quando, foi um conformado dar de ombros, foi considerar que tudo aquilo, de modo geral, não havia sido tão terrível; e cheguei a me parabenizar pela minha paciência, que, como se sabe, é irmã da verdadeira sensatez. No entanto, vez ou outra, eu voltava a me agitar, perplexo com a facilidade de me deixar seduzir, enganar a mim mesmo abertamente e juntar-me sem hesitar à grande massa de mentirosos — composta de ignorância, indiferença oportunista e desavergonhado egoísmo —, trocando uma grande verdade pelo pretensioso dar de ombros de um pecador experiente. Vi que não era mais possível ignorar os fatos, e apesar de ainda não ter decidido onde isso vai terminar, me parece que, de qualquer modo, em vez de ficar calado, é melhor que eu me abra e conte a história. 

Uma possibilidade é narrar em sequência. Começar por um dia claro, um dia claro de inverno, e descrever em detalhes a partida e a viagem, quando as estradas de terra estavam encharcadas pela chuva dos dias anteriores, e as cercas vivas em torno dos pomares estavam queimadas pelo sol e imundas, a base de seus troncos — como ocorria antigamente — lambida por tufos de urtigas verdes, espremidas e molhadas. E depois narrar como a tarde daquele dia, uma tarde agradável e tranquila, foi aos poucos avançando, como sempre acontece, acabando por se transformar num anoitecer sombrio, quando tudo já tinha ficado para trás, encerrado e finalizado. 

No entanto, talvez seja preferível começar de outra maneira, recordando logo de saída aquilo que desde o início foi o propósito daquele dia: a “ordem de comando” número tal-e-tal, no dia tal-e-tal do mês, em cuja margem do último item, intitulado simplesmente “diversos”, lia-se numa simples linha e meia que, ainda que a ordem devesse ser cumprida com eficiência e precisão, independente do que ocorresse, “era necessário evitar surtos de desordem”— assim estava escrito — “e conduta violenta”, o que indicava de imediato que havia algo de errado, que tudo era possível (e que, inclusive, já estava dentro do planejado e do previsto). E era impossível avaliar de forma correta esse item final sem retornar ao início, sem levar em conta também o item introdutório digno de nota, intitulado “informação”, que logo alertava para o perigo intenso de “infiltrados”, “núcleos de desordem” e (eis aqui uma beleza de expressão) “responsáveis por ações hostis”; e também o item seguinte, igualmente digno de nota, que declarava explicitamente que era preciso reunir os habitantes a partir de um ponto específico (ver mapa anexo) até outro ponto específico (ver o mesmo mapa) — botá-los dentro dos caminhões e despachá-los para o outro lado das nossas linhas; explodir as casas de pedra e incendiar os casebres de barro; prender os jovens e os suspeitos, limpar a área de “forças hostis” e assim por diante —, de modo que assim ficava claro quantas expectativas boas e honradas eram depositadas naqueles que partiam para implementar todo aquele “incendiar-explodir-prender-carregar-despachar”, que iriam incendiar, explodir, prender, carregar e despachar com absoluta moderação e toda a civilidade característica da nossa cultura, um sinal de novos ventos, de uma boa educação e, talvez, até mesmo da alma judaica, a grande alma judaica. 

E assim ocorreu que saímos naquela manhã fresca e límpida de inverno, percorrendo alegremente o nosso caminho — limpos, bem-alimentados e bem-vestidos; e foi assim que, com esse espírito leve, descemos no ponto em que descemos, perto de uma aldeia que ainda não era visível, e nossa unidade foi enviada para um dos flancos, enquanto a tarefa de outros era proteger a retaguarda, e o restante deveria entrar no vilarejo. E, como sempre, nada melhor do que participar da unidade que flanqueia, enquanto ela se move em terreno desconhecido, percorrendo o território limpo e aberto dos campos, o ar puro e vítreo, em meio a plantações parcialmente aradas (antes dos dias raivosos) e parcialmente cobertas de mato (após os dias raivosos) — e era gostoso chapinhar pelas trilhas barrentas e escorregadias com poças d’água e lama fresca, sentir a juventude explodir renovada, apesar de não sermos mais tão jovens, e até mesmo nossa “espinhosa missão” era capaz de se transformar e ser imaginada apenas como algo corriqueiro, como um grupo a caminho do trabalho, por exemplo, ou até mesmo um bando de moleques tagarelando. Ali estávamos nós, enlameados, conversando e contando piadas, fazendo farra e cantando, sem estardalhaço e de coração tranquilo; estava claro: para nós naquele dia não haveria nenhuma batalha e se alguém tivesse algo com que se preocupar, não era da nossa conta, que Deus o acompanhasse — para nós era apenas um dia de passeio. 

Depois, chegamos a uma colina. Ali nos agachamos sob uma cerca de cactos, e estávamos prontos para comer alguma coisa, quando o homem, um tal de Moishe, comandante da unidade, nos reuniu e explicou a situação, os arredores e a missão em si. A partir daí ficou claro que as poucas casas que víamos nas encostas de outra colina pertenciam a uma tal de Hirbet Hiz’a, e que todas aquelas plantações e campos em volta pertenciam àquela aldeia, cuja água abundante, solo bom e cultivos de alta qualidade lhes valeram uma reputação quase igual a de seus moradores, que, segundo diziam, eram filhos do demônio, davam apoio ao inimigo e estavam dispostos a qualquer maldade se lhes fosse dada uma chance; ou, por exemplo, se por acaso encontrassem algum judeu na vizinhança, acabariam com ele num piscar de olhos, pois assim eram eles e assim era sua natureza. E quando fixamos bem o olhar naquelas poucas casas nas encostas da outra colina, não muito alta, separadas apenas pelas plantações, as hortas bem-cuidadas, os poços d’água espalhados pelo terreno, vimos que a totalidade daquela Hirbet Hiz’a não representava nenhum problema, realmente não justificava qualquer esclarecimento adicional. Por outro lado, havia árvores aqui e ali, aparentemente plátanos, tão antigas e tranquilas que quase pareciam não fazer parte da vegetação e sim de um reino inanimado. Depois alguém voltou com laranjas, e aí comemos laranjas. 

Então começamos a descer pelos finos sulcos cinzentos, que não tiveram tempo de semear, empurramos um grande portão de madeira numa cerca de barro e subimos por uma trilha estreita, junto a uma cerca viva de espinheiros cobertos de adubo e mofo gelado, onde urtigas mortas e tufos espessos de plantas sem flores se espremiam em profusão, curvando-se sob seu próprio peso flácido e cinzento, apertando-se entre os galhos tensionados da cerca viva. E fomos subindo a colina seguinte. Daqui avistava-se com clareza a aldeia à nossa frente. Tomamos nossas posições, preparamos a metralhadora e nos aprontamos para começar. Foi aí que o sujeito curvado sobre um aparelho, escutando e falando pelo rádio portátil uma melodia cerimoniosa, nos informou que ainda havia algum tempo até a hora zero; então cada um procurou um lugar seco para se sentar ou se esticar, e assim esperar sossegado o início de tudo.”


"A história de Hirbet Hiz'a"

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