Stefania Chiarelli - Especial para o Estado de Minas
Em “Tarântula”, o protagonista Eduardo recompõe um episódio traumático da infância. A abertura do livro sequestra a atenção de cara: em vinte linhas, estamos com dois irmãos, adolescentes de treze anos, dentro da barraca de um acampamento para crianças judias em uma floresta na Guatemala. No ano de 1984, exilados há três anos nos Estados Unidos com a família em função da guerra civil guatemalteca, os irmãos retornam ao país de origem. No romance, o autor Eduardo Halfon dá uma aula de literatura na cena inicial, ao trabalhar habilmente o significado desse lugar claustrofóbico, espaço liminar entre luz e escuridão, choro e silêncio. Tudo naquela experiência remete a uma rotina implacável, incluindo horários rígidos, uso de uniformes, instruções de defesa e atividades de doutrinação. Entre lágrimas, hematomas e arranhões, o objetivo é transmitir às crianças o “sentimento de sentir-se um judeu entre judeus”.
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“Você vai, e ponto”: pai e mãe haviam decidido que seria importante o aprendizado de técnicas de sobrevivência na natureza, ainda que o menino, até ali, rejeitasse seus ideais, a língua espanhola e sobretudo o judaísmo. Aos berros, a figura paterna impõe a tradição ao filho, incluindo a costumeira ida à sinagoga aos sábados. O avô polonês havia perdido a família inteira na esteira do nazismo e vivera anos em campos de concentração. Pertencer a essa história é ponto problemático para o garoto, que fala espanhol com sotaque norte-americano e não se vê conectado à linhagem dos seus.
De ascendência judaica, libanesa e polonesa, Halfon nasceu na Guatemala, em 1971. Engenheiro de formação, publicou mais de vinte livros, em que personagens, histórias e cenários constituem extensa galeria entrelaçando elementos ficcionais e biográficos. Foi assim com os contos de “O boxeador polaco”, publicados pela Rocco em 2014 e agora reeditados pela Autêntica Contemporânea com o título “O boxeador polonês” e tradução de Silvia Massimini Felix, e o romance “Luto”, pela Mundaréu em 2018, traduzido por Lui Fagundes. Em 2022, foi publicado o romance “Canción” também pela Mundaréu e traduzido por Joca Reiners Terron.
Ele chega ao Brasil como uma das atrações internacionais do programa principal da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). No sábado (25/7), às 10h, ele participa da mesa “A saída é a volta” com a argentina, radicada no Brasil, Paloma Vidal, e mediação de Gabriela Mayer. Dois dias depois, ele fará o lançamento de “Tarântula” e “O boxeador polonês” na Livraria da Travessa, em Ipanema.
A trama de “Tarântula” se articula em três fios; o primeiro narra fatos transcorridos no acampamento, o segundo, quando o narrador, aos 50 anos e já escritor consagrado, participa de um evento em Paris para falar de sua obra, e o terceiro, quando, em Berlim, reencontra o famigerado Samuel Blum, preceptor do grupo dos doze meninos do acampamento da infância.
Do braço esquerdo de Blum salta a imagem-síntese desse romance aracnídeo. A tarântula originou lendas na Europa mediterrânea, em que se acreditava que uma pessoa picada por esse tipo de aranha seria tomada de melancolia e poderia morrer, se não dançasse um ritmo que seria conhecido como tarantela. O bailado alegre difere em tudo do clima do livro, já que o olhar do adolescente Eduardo, de dentro da barraca, ao enxergar a aranha, capta algo sinistro. A partir dessa zona nublada do entendimento, o jovem ainda não compreende o significado do signo funesto exibido no corpo do preceptor. Trata-se de uma gramática da violência na qual está inserido ao longo de muitas gerações, e ainda assim será alfabetizado nela novamente.
Narrado em primeira pessoa, “Tarântula” transita no território das narrativas do eu. Conforme já analisou Leonor Arfuch, a cultura contemporânea demonstra uma espécie de obsessão por captar registros, rastros, impressões e inscrições, encarando a experiência como um modo essencial de tematização. É na porosidade da fronteira entre o factual e a fabulação que esse espaço biográfico pode se tornar tão instigante, na medida em que o sujeito forma uma visão sobre si mesmo, “independentemente de sua verdade referencial”, como sustenta a crítica argentina.
Halfon dá seu nome próprio ao personagem, construindo um relato com dados “verdadeiros”. Em meio a deslizamentos sem fim, a voz narrativa joga o leitor na dúvida em vários momentos. O narrador revisita acontecimentos que constituíram sua identidade do presente, mas nunca assina embaixo da veracidade do relato. Ao rememorar uma competição, afirma: “(embora seja provável que isso de pontos não tenha sido assim e eu esteja apenas inventando agora, para dar ao jogo uma ordem mais contável, mais numérica)”. Talvez aquilo não tenha acontecido exatamente assim, sinaliza. E tanto faz. Imaginar e “lembrar errado” é do jogo, afinal temos em mãos o livro daquele garoto que desde a infância quer contar histórias, seja disparando a máquina fotográfica Kodak, presente materno no Natal, seja decifrando o vivido por meio da escrita biográfica.
Nela, a palavra tem textura, perceptível na capacidade do autor de descrever a “pele dos objetos”, a forma de uma insígnia ou o formato inesquecível da mão do ser amado. Na fenda da memória, “na câmara secreta” da lembrança tudo isso se deposita. Em um sobressalto, o conteúdo da reminiscência pode voltar, e do espanto provocado por esse conteúdo que acreditamos esquecido brota a literatura, como neste precioso livro.
E se a infância é por excelência o espaço da imaginação solta, ela será também lugar do aprendizado doloroso, que inclui por vezes a tarefa de ler placas que gritam expressões antissemitas, panfletos agressivos e gestos ofensivos. Quando infância e vida adulta se misturam, o que fazer de tudo isso? “Tarântula” postula essa pergunta e aponta caminhos distintos: alguns, como Regina, antigo crush da adolescência e do acampamento, advoga em nome de causas humanitárias em torno de crianças traumatizadas pelas guerras. Outros, como Samuel Blum, apostam na experiência do encarceramento e reproduzem a barbárie, à semelhança de ações continuadas no presente por alguns dos próprios judeus.
O significante “campo” há muito se enraizou na cultura ocidental como tormento onipresente e é uma das terríveis heranças do século 20. Como formulou a filósofa italiana Donatella Di Cesare, estamos todos “à sombra de Auschwitz” por não fazer o dever de memória em relação aos crimes perpetrados em nome da suposta pureza racial. De lá para cá, proliferaram os campos - de extermínio, de concentração, de refugiados. E talvez acampamentos para jovens liderados por alguém que acredita na educação pela bomba.
No romance, Halfon trabalha temas complexos como a herança judaica e o nazismo sem dar aos leitores a sensação de estar diante de um livro que pretenda esgotar o tema em curto espaço de páginas. Já lemos livros e ensaios, vimos filmes, assistimos a documentários que abordam de inúmeras formas esse assunto. Mas, ainda assim, é preciso falar dele, porque a violência entra pelos poros, fica impregnada na saliva, se infiltra no cotidiano de palavras ditas ou silenciadas. O escritor cumpre com louvor essa tarefa, que inclui um dilema ético para o nosso tempo dilacerado, indagando sobre a responsabilidade de quem herda o trauma.
No desfecho do livro, voltamos à cena do acampamento, quando, perdido na floresta, Eduardo confronta o desamparo e encontra uma espécie de saída. Delírio, medo e cansaço compõem um quadro que irá reverberar no adulto para sempre. Halfon opta pela sugestão e não oferece uma resposta fechada. Miragem e pesadelo, a tarântula é também um aviso.
TRECHO
Meu peito ardia. Minha boca ardia. Um murmúrio começou a crescer entre as pessoas, entre tantos familiares e amigos e desconhecidos e sócios e empregados do meu avô que agora me olhavam com uma mistura de fascínio e perversidade (como quem descobre uma cicatriz ao longo do pulso de alguém). Não conseguiam entender minha recusa em participar daquela tradição, daquele espetáculo. Embora, quem sabe...Talvez alguns entendessem muito melhor que eu.
Meu pai se virou para mim. A testa dele estava perolada de gotinhas de suor ou talvez de chuva. E devagar, com discrição, ele me disse algo num sopro de voz que ninguém mais pôde ouvir nem compreender. Não por causa do tom tão baixo e quase inaudível, mas porque ele havia dito aquilo numa linguagem que só ele e eu falávamos. Uma linguagem privada, secreta, de pai e filho. Então dei dois passos à frente e me agachei e enfiei os dedos no montículo de terra preta e úmida e deixei cair uma bola de barro sobre meu avô.
STEFANIA CHIARELLI é professora e pesquisadora de literatura brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF). “Epigramas críticos” é uma de suas publicações mais recentes.
“Tarântula”
De Eduardo Halfon
Tradução de Silvia Massimini Felix
136 páginas
R$ 67,90
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