Luciana Ferreira Leal - Especial para o Estado de Minas
A novela “Angelim”, um dos mais recentes lançamentos do escritor paulista João Anzanello Carrascoza, apresenta-se como uma narrativa breve em extensão, porém profundamente densa em significados. Inserida na tradição da prosa poética contemporânea brasileira, a obra articula elementos do cotidiano com o sobrenatural para construir uma reflexão sobre a infância, a dor, a espiritualidade e os limites da experiência humana. Ao narrar a trajetória de um menino dotado de vidência, Carrascoza explora o extraordinário e investiga as consequências existenciais de possuir um dom que ultrapassa a capacidade humana de compreensão e de suporte emocional.
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A capa de “Angelim” contribui para a atmosfera da obra, antecipando visualmente os temas de delicadeza, estranhamento e transcendência que atravessam a narrativa. Sobre um fundo azul suave, a figura central: híbrida entre humano e inseto, com asas que lembram tanto folhas quanto estruturas frágeis, sugere uma existência em suspensão, entre o terreno e o etéreo. O traço aparentemente simples, quase infantil, contrasta com o desconforto que a imagem provoca, ecoando a própria condição do protagonista: um menino que, embora inserido na infância, carrega algo que o desloca desse lugar. A capa dialoga com o conteúdo da obra, funcionando como uma espécie de síntese visual de sua tensão central entre inocência e perturbação.
Desde o início, a obra se constrói a partir de uma tensão fundamental: a oposição entre a normalidade da infância e a irrupção do inexplicável. Angelim, até os cinco anos, é descrito como uma criança comum, inserida em uma rotina familiar típica. No entanto, essa normalidade é rompida quando surgem os primeiros indícios de sua vidência, como no episódio emblemático em que afirma haver um homem sobre seu guarda-roupa. A reação inicial dos pais, oscilando entre incredulidade e medo, estabelece o tom que se manterá ao longo da narrativa: a incapacidade dos adultos de lidar com aquilo que escapa à lógica racional.
À medida que a narrativa avança, os episódios de vidência se intensificam e se tornam mais complexos. Angelim passa a descrever pessoas falecidas, prever acontecimentos e acessar dimensões temporais distintas: passado, presente e futuro. Essa ampliação de sua percepção não é acompanhada por um desenvolvimento emocional correspondente, o que torna sua experiência dolorosa. Diferentemente de narrativas que tratam dons sobrenaturais como privilégios, Carrascoza constrói a vidência como uma espécie de condenação: saber demais implica sofrer demais.
Nesse sentido, Angelim pode ser interpretado como uma figura simbólica próxima do mártir. Sua condição o coloca em uma posição de isolamento, mesmo dentro do núcleo familiar. Ele não demonstra medo diante das visões, o que é particularmente significativo, mas isso não significa ausência de sofrimento. Ao contrário, sua serenidade diante do extraordinário contrasta com o desespero daqueles ao seu redor, evidenciando que o verdadeiro horror não está no que é visto, mas na impossibilidade de transformar ou evitar aquilo que já se sabe.
Os pais, por sua vez, representam o drama humano diante do inexplicável. Ao longo da narrativa, eles percorrem diferentes caminhos na tentativa de compreender e lidar com a condição do filho: negam, racionalizam, buscam explicações médicas, recorrem à religião e ao espiritismo. Essa multiplicidade de respostas mostra o desespero parental e também uma reflexão mais ampla sobre as formas pelas quais a sociedade tenta dar sentido ao que escapa à lógica. Ainda assim, nenhuma dessas tentativas parece dar conta plenamente da experiência de Angelim, o que mantém sempre em aberto uma inquietação que atravessa toda a narrativa.
Outro elemento central da narrativa é a relação entre Angelim e Lúcia. A menina, que compartilha experiências semelhantes, funciona como um espelho do protagonista. A conexão entre os dois sugere a existência de uma comunidade invisível de sujeitos que transitam entre mundos, ainda que de forma precária. No entanto, essa relação também acentua a dimensão trágica da história: Lúcia adoece e morre, antecipando o destino de Angelim e evidenciando a fragilidade dessas existências marcadas pelo excesso de sensibilidade.
A linguagem utilizada por Carrascoza é um dos pontos mais marcantes da obra. Sua prosa é fortemente poética, caracterizada por frases fragmentadas, imagens sensoriais e uma cadência que se aproxima do fluxo de consciência. Essa escolha estilística é estética e funcional: ela traduz a própria experiência de Angelim, marcada pela sobreposição de tempos, imagens e percepções. O leitor é, assim, convidado a vivenciar, ainda que parcialmente, o estado de confusão e intensidade que define o protagonista.
O clímax da narrativa ocorre com o agravamento do estado de Angelim, que passa a oscilar entre momentos de normalidade e crises intensas. Sua linguagem se torna incompreensível, seus comportamentos se afastam do esperado para uma criança, e seu corpo parece não suportar o peso de sua condição. A busca dos pais por soluções, envolvendo médicos, líderes religiosos e práticas diversas, revela-se infrutífera. Nesse ponto, a obra atinge um de seus temas mais profundos: a limitação do conhecimento humano diante do mistério da existência.
O desfecho da narrativa é abrupto e impactante. A trajetória de Angelim atinge um ponto de tensão máxima, em que os limites entre o que pode ser vivido, compreendido ou suportado começam a se desfazer. A partir daí, a narrativa se desloca para um plano mais simbólico, deixando no leitor uma sensação de ruptura e de pergunta aberta, como se algo essencial escapasse justamente no momento em que se tenta apreendê-lo.
Esse movimento é importante, pois revela uma ironia sutil da obra: ao longo da narrativa, Angelim é marcado pela incompreensão e pelo estranhamento, mas há indícios de que, em outro plano de percepção, sua existência adquire um sentido diferente. O leitor percebe, então, um deslocamento na forma como esse menino é visto, sugerindo que aquilo que não se compreende no presente pode ganhar novos contornos, ainda que nunca completamente decifráveis.
O sofrimento dos pais assume uma dimensão silenciosa, marcada pela permanência de tudo aquilo que o filho representa. A dor que enfrentam está ligada ao fato de conviverem com um mistério que jamais conseguirão compreender. Resta-lhes um estado emocional atravessado por culpa, impotência e memória: cada tentativa frustrada de ajudar o menino retorna como lembrança insistente. Como forma de consolo, passam a se agarrar à ideia de que o filho, que transitava entre mundos, poderia de algum modo ainda se fazer presente; assim, vivem em uma espera contínua e silenciosa. Essa espera cria uma tensão delicada, como se algo ainda pudesse acontecer, mesmo quando tudo parece já ter acontecido.
A dimensão simbólica de Angelim pode ser relacionada à figura do “anjo da história”, evocada no texto de orelha por meio da referência ao Angelus Novus. Assim como essa imagem, Angelim está voltado para o passado, o presente e o futuro simultaneamente, contemplando a totalidade da experiência humana como uma sucessão de ruínas. Sua vidência, nesse sentido, é um dom individual e uma metáfora para a consciência histórica e existencial.
Em termos temáticos, a obra articula de maneira complexa questões como a infância interrompida, a dor da existência, a relação entre vida e morte e a busca por sentido em um mundo marcado pela incerteza. A infância, em particular, é apresentada como um território vulnerável, suscetível a rupturas profundas. Angelim não tem a oportunidade de viver plenamente sua infância; ela é invadida e, em última instância, destruída por sua condição extraordinária.
A conclusão da obra destaca seu caráter trágico e reflexivo. Ao imaginar Angelim, por meio do sonho dos pais, reencontrando Lúcia em outra dimensão, a narrativa oferece uma espécie de consolo simbólico, tanto para as personagens quanto para o leitor. No entanto, esse consolo não resolve as questões levantadas ao longo da história; ao contrário, mantém abertas as inquietações que atravessam a obra, sugerindo que certas experiências talvez não possam ser compreendidas, apenas sentidas.
Outro aspecto relevante da obra é a presença de um diálogo intertextual que pode ser lido como uma homenagem à tradição literária brasileira, especialmente a João Guimarães Rosa. A epígrafe que menciona Miguilim remete diretamente ao personagem de “Campo Geral”, integrante de “Corpo de Baile”, cuja percepção do mundo é marcada por uma visão limitada fisicamente, mas profundamente sensível e simbólica. Ao evocar Miguilim, João Anzanello Carrascoza estabelece um paralelo com Angelim: ambos são meninos que enxergam o mundo de maneira singular, deslocada da lógica comum. Se Miguilim vê menos no plano físico, mas mais no plano sensível, Angelim, por sua vez, vê em excesso, ultrapassa os limites do visível ao acessar passado, presente e futuro. Nesse sentido, pode-se compreender Angelim como uma espécie de reconfiguração contemporânea dessa figura rosiana, em que a percepção extraordinária também implica sofrimento. Assim, a obra dialoga com a tradição inaugurada por “Sagarana” e consolidada ao longo da produção rosiana, como referência ecomo continuidade temática e estética, reafirmando o lugar da infância como espaço de revelação e conflito.
Além desse diálogo com a tradição literária, há também um movimento interessante na obra de João Anzanello Carrascoza no que diz respeito à construção de um universo ficcional interligado. No romance “Flor de pedra”, publicado antes de “Angelim”, a personagem já aparece no capítulo “Angelim, o vidente”, mas não como protagonista vivo, e sim como presença póstuma, um menino enterrado cujo túmulo se torna um dos mais visitados. Esse dado altera significativamente a leitura da novela posterior: ao escrever Angelim, Carrascoza parece retornar a essa figura para narrar sua origem, sua trajetória e seu sofrimento em vida. Assim, o leitor pode perceber um movimento inverso ao habitual: primeiro se conhece o mito, a memória cristalizada no cemitério, para depois acessar a história que o constitui. Com isso, o autor evidencia a ideia de que seus personagens habitam um mesmo território ficcional, em que a vida e morte não são limites definitivos, mas pontos de passagem dentro de uma mesma experiência narrativa.
Em síntese, “Angelim” é uma obra de grande potência estética e emocional. Sua brevidade contrasta com a profundidade de suas reflexões, e sua linguagem poética amplia o impacto de sua narrativa. Carrascoza constrói uma história que, ao mesmo tempo em que aborda o sobrenatural, permanece enraizada na experiência humana. Ao final, o leitor é confrontado com uma pergunta fundamental: até que ponto somos capazes de lidar com aquilo que ultrapassa os limites do nosso entendimento?
Mais do que uma narrativa sobre vidência, “Angelim” é uma meditação sobre o sofrimento, a incompreensão e a tendência humana de transformar o diferente em símbolo apenas após sua destruição. Trata-se de uma obra que permanece no leitor pela história que conta e pelas inquietações que provoca e é justamente nisso que reside sua maior força.
LUCIANA FERREIRA LEAL é professora de Literatura da Universidade Estadual do Paraná
“Angelim”
De João Anzanello Carrascoza
Edições Barbatana
80 páginas
R$ 69
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