Uma jornada épica de mais de 40 mil anos de um clã de neandertais lutando pela própria subsistência é a nova sensação da literatura brasileira que tem suscitado muitas críticas positivas. Mas não apenas pelo tema incomum. Em “Os imortais” (editora Fósforo), a escritora brasiliense Paulliny Tort une conhecimento de causa, beleza imaginativa e talento narrativo para reconstituir um notável encontro antropológico.
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Nessa viagem pré-histórica, a escritora faz o humano de hoje se enxergar no outro, nos seus parentes distantes em um mundo onde ainda é a coletividade que impera. “Numa literatura que gosta de olhar para si para explicar o mundo, é importante que uma autora olhe para o outro e consiga mostrar nós mesmos”, destaca o escritor Caetano W. Galindo na orelha do romance.
O eco de um passado remoto, que pode ser das profundezas de uma caverna ou de um vale, desperta uma memória ancestral, um retorno às origens milenares. Essa é uma sensação natural de quem mergulha na leitura de “Os imortais”: embarcar num instigante passeio atávico pelo mundo dos neandertais, por meio de um clã nômade que se depara com indivíduos sapiens, num choque de humanidades diferentes que caracterizou os estertores da longa era do Paleolítico, um elo nada perdido.
Em uma investida ousada que compensa a falta de diálogos com uma linguagem corporal e gestual, Paulliny opta por um narrador onipresente e, dessa forma, consegue descrever com habilidade a ambientação da jornada épica do Homem, da Mulher, da Velha, do fazedor de pedra, do “pequeno” encrenqueiro e de outras personagens significativas.
“Evolução, primatologia, etologia e outros estudos estão no meu raio de interesse há bastante tempo. Antes de me formar jornalista, cursei engenharia florestal. Em 2019, estudei mais dois e meio de ciências biológicas, quando também fiz um estágio em primatologia. E há imagens que me acompanham desde a infância, quando eu realmente folheava a edição que tínhamos em casa de “O macaco nu”, do Desmond Morris. Também me lembro de assistir à adaptação do Jean-Jacques Annaud para ‘A guerra do fogo’, do Rosny Aîné”, explicou Paulliny em entrevista ao Pensar sobre o processo criativo da obra.
Outro aspecto que engrandece “Os imortais” é a síntese dos principais dramas das duas humanidades, seja neandertal ou sapiens, a luta infindável contra a fome, o fogo sagrado, a violência corriqueira, a compulsão implacável para a guerra, a escravização do inimigo, o fluxo de consciência, a transcendência da morte. E um complemento essencial com sutileza, com os primórdios da música representada por pedaço de madeira com furinhos que fazem sons e deslumbra uma das protagonistas do romance, a menina/garota. E acima de tudo, a imortalidade, afinal, nossos ancestrais permanecem dentro dos humanos atuais, seja na ponte atávica da memória ou no DNA, como já comprovou a ciência.
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A FOME
Primeiro, a inexorável fome assediando a existência de todos: “A fome é um transe. Depois das tonturas e dos calafrios, que são até singelos, vêm a náusea estremecedora, a violência das cólicas, o desespero, então de repente não se sente mais nada e a cabeça flutua no vazio. Chega um momento em que o corpo se anestesia, se enche de ar, voando a metros do chão. E a menina se sente como se assistisse a tudo de longe, do alto de uma árvore, inclusive a si própria na marcha. Há um prazo nessa ruptura, nesse afastamento, na leveza que contrasta com uma desolação muito profunda. Na planície, rolam diante da mesma paisagem, dos mesmos arbustos, do mesmo cascalho, dentro do rio morto, sempre morto. À frente, a barriga vazia do Homem trovoa, dá para ouvir”, descreve o narrador.
O FOGO
“Não é preciso ser um escritor de ficção para imaginar o que sentiam as primeiras pessoas diante das chamas, basta se sentar em frente a uma fogueira, em silêncio, e admirar um pouco”, disse Paulliny ao Pensar, ao comentar a presença marcante do fogo na obra, elemento essencial que foi um divisor na história da humanidade quando passou a ser produzido pelas mãos ancestrais em tempos imemoriais.
A GUERRA
A guerra também é uma força bruta inevitável, como pensa o Homem em “Os imortais”: “É inevitável pensar em como são as batalhas, a estupidez a que se submetem a própria vida, o descaso com a vida em si, o fracasso, porque é sempre um fracasso, mesmo quando ganham é um fracasso, uma derrocada, um esfacelamento interior, uma obscuridade com a qual ele preferiria não lidar, mas o clã quer, precisa da caverna e, hoje, deverá guerrear. Mais uma vez. O Homem já precisou guerrear no passado e esperava não fazer isso de novo, mas cá está, armado, pronto. Os mais inexperientes se excitam com a aventura, arregalam os olhos, cochicham uns com os outros. Fantasiam a batalha e ele entende, também já foi jovem e sentiu assim.”
A TRANSCENDÊNCIA
Além da fome e da guerra, há a transcendência: “O Homem é tomado pelo sublime, mas justamente a beleza é a causa do seu assombro, a coisa em si que dá tanto medo, medo de perder, porque o belo é tão frágil, tão destrutível, não sendo também outra coisa senão a própria vida. Enquanto um morre, quantos brotos rebentam e se abrem, quantos peixes desovam nos estuários, quantos filhotes nascem e lampejam os olhos. Caminhando sob o cintilar das estrelas, é o que o Homem sente e nisso se conforta”. Há também o Sonho, um elo cognitivo e espiritual na sina do clã neandertal.
A MÚSICA
Outra referência memorável em “Os imortais” é a delicadeza do sopro como música, como descobre a menina com o seu congênere sapiens: “Nu e sem vontade, o homenzinho se levanta. Está segurando um osso muito parecido com a luneta da menina, porém, não leva ao olho, mas ajusta os dedos nos orifícios e encaixa e aponta nos lábios. Quando encontra a embocadura, sopra duas vezes e emite dois sons idênticos, que asssombram a audiência. Logo o prisioneiro começa a insuflar naquele cilindro, tamborilando os dedos sobre os orifícios. O som que sai é transparente, penetrante, passaresco, e amolece tudo em volta deles. (…) Então o ossinho não é um objeto para olhar as coisas, mas para soprar e fazer sons. A garota se sente estúpida. Foram tantos anos olhando pelo buraco de uma flauta sem intuir seu uso. Mas, afinal, fazer sons para quê?”
A saga dos neandertais, já em seu ocaso, e dos primeiros sapiens e a narrativa fluida fazem de “Os imortais”um livro vibrante, uma lembrança perene de que é necessário não esquecer as lições de um passado remoto que seguirá reverberando no mundo do sapiens e num futuro incerto.
“OS IMORTAIS”
De Paulliny Tort
Editora Fósforo
232 páginas
R$ 84,90
R$ 59,40 (digital)
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TRECHO DO LIVRO
“Há jovens que o admiram pela valentia, crianças que o temem e se encolhem cada vez que ele passa, caçadores que o consideram muito, então, quando o pequeno se coloca, eles param e atentam. Com uma mandíbula que parece ter pertencido antes a outra pessoa, de tão protuberane, ele incha o peito diante do guia. Não é o mais forte dos homens, inclusive pela pouca estatura, mas sempre espuma, estica os braços, parece maior. Tanto que, nas caçadas, costuma ser bestial, capaz de matar a dentadas e pedradas uma hiena como aconteceu e o Homem mesmo testemunhou, sem falar no ânimo que tem para bichos grandes, pois, antes de o gelo dominar os prados e as manadas desaparecerem, era quase sempre o pequeno quem se metia entre as pernas dos cavalos, em geral enlouquecidos pelos ferimentos que lhes rabiscavam o couro, e, sozinho, segurava o chuço que os atingia no peito, direto no coração. E os animais tombavam pelo golpe de um único caçador. Mas o Homem não é um cavalo e torce uma careta, também porque os couros que cobrem o pequeno, que lhe é quase um palmo mais baixo, fedem demais. Enfurecido, o outro golpeia a própria barriga, insiste apontando para os bichos. Porque deveriam continuar esfomeados quando há comido logo ali? Os javalis estão tão próximos que poderiam colhê-los como frutas. Porque fugir à sorte?”
