Rogério Faria Tavares - Especial para o Estado de Minas
Com lançamentos previstos também para São Paulo, Brasília, Ouro Preto, Poços de Caldas (na Flipoços), Paraty, Salvador e São Luís do Maranhão, “Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco”(Editora Miguilim, 592 páginas) foi lançado na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, no último 9 de abril, e terá sessão de lançamento no próximo sábado (25/4), às 11 da manhã, na Livraria da Rua, em Belo Horizonte, com a presença de Cesário Melo Franco, neto de Afonso Arinos.
Artigo: Nos arquivos do coração sensível: Afonso Arinos, memorialista
O volume reúne dezessete ensaios sobre o mineiro nascido em Belo Horizonte, em 27 de novembro de 1905, filho de Afrânio de Melo Franco e de Sylvia Alvim de Melo Franco. Concebido para assinalar o importante aniversário, o livro mereceu caprichada edição em capa dura preparada por Leonardo Mordente e por Gabriela Abdalla e traz muitas fotos de diferentes momentos da vida de Afonso, gentilmente cedidas pela família. Logo na abertura, os leitores encontram dois poemas escritos em homenagem a ele, há meio século: “Afonso Arinos, setentão”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Canto para Afonso Arinos de Melo Franco”, de Alphonsus de Guimaraens Filho.
No texto de apresentação, o professor Arno Wehling e eu – organizadores do livro– destacamos que a obra de Arinos precisa ser mais difundida entre as novas gerações e mencionamos o extenso e multifacetado corpus de que está composta. Chamado por seu amigo Pedro Nava de ‘poliedro humano’, Afonso Arinos produziu conhecimento altamente qualificado em áreas tão distintas quanto o Direito Constitucional, a Crítica Literária, o Memorialismo e a Ciência Política, o que acabou conferindo notável amplitude temática à publicação. Além dos textos analíticos, ela conta ainda com quatro preciosos depoimentos, de natureza mais pessoal: o do Presidente Sarney, que relata sua convivência com Afonso, desde os tempos em que foram colegas no Congresso Nacional, ainda no Rio; o do Professor Joaquim Falcão, que relembra a trajetória da famosa “Comissão Arinos”, incumbida de preparar um projeto de Constituição para o Brasil em redemocratização; o do jurista Bernardo Cabral, relator da Assembleia Nacional Constituinte, que trabalhou lado a lado com Afonso, então presidente da Comissão de Sistematização, e, finalmente, o de Cesário Melo Franco, que recorda casos e situações inesquecíveis vividas na íntima e diária convivência com o avô, como, por exemplo, os episódios relativos à última eleição que ele disputou (para o Senado, em 1986) - e ganhou - sem praticamente sair de casa.
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Airton Seelaender Cerqueira Leite estuda a contribuição de Afonso Arinos ao Direito Constitucional; Ângelo Oswaldo de Araújo Santos escreve sobre a relação entre ele e Minas Gerais, em trabalho que menciona o memorável discurso de recepção a Tancredo Neves, na Academia Mineira de Letras; o foco de Antônio Celso Alves Pereira está na carreira docente de Afonso, de que foi aluno; o de Arno Wehling reside sobre o que ele pensou no campo da História das Ideias. Já a historiadora Aspásia Camargo, que trabalhou com Afonso na Fundação Getúlio Vargas, desenha sua trajetória na política nacional, especialmente no parlamento (onde foi deputado federal por três vezes e senador por duas). Cabe sempre lembrar que AA foi o autor da “Lei Afonso Arinos”, de 1951, o primeiro diploma legal antirracista da República.
Christian Lynch disseca o pensamento político de Arinos, detalhando como suas reflexões foram evoluindo ao longo dos anos; Cláudio Aguiar examina as biografias de sua lavra, com destaque para a que escreveu sobre o pai, “Um estadista da República – Afrânio de Melo Franco e seu tempo”, lançada em três volumes, em 1955. Domício Proença Filho se detém sobre a crítica literária de Afonso, com ênfase nos livros “Espelho de três faces”, de 1937, “Mar de sargaços”, de 1944, “Algunos aspectos de la literatura brasileña”, de 1945, e “Portulano”, também de 45; Edmar Bacha avalia a história econômica do Brasil vista pelas lentes de Afonso Arinos, sobretudo em “Síntese da História Econômica do Brasil”, de 1938, “Desenvolvimento da civilização material no Brasil”, de 1944, e “História do Banco do Brasil”, de 1947.
O embaixador Rubens Ricúpero assina o ensaio sobre a passagem de Arinos pelo Ministério das Relações Exteriores, no governo de Jânio Quadros, quando foi um dos idealizadores da chamada ‘política externa independente’. Ricúpero foi seu oficial de gabinete. O diplomata Luiz Feldman empreende minuciosa análise da atuação de AA como titular da representação brasileira junto à Assembleia Geral das Nações Unidas, dando ênfase à postura de Arinos contra a presença colonial de Portugal na África. Sydney Sanches mostra como ele se integrou à vida associativa, por meio de ativa participação na Academia Brasileira de Letras, onde sucedeu a José Lins do Rego; no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Instituto dos Advogados Brasileiros e na Academia Mineira de Letras, onde sucedeu a Juscelino Kubitschek de Oliveira.
Escrevi sobre o Afonso Arinos memorialista. Para tanto, mergulhei nos cinco tomos de memórias que ele entregou à cultura brasileira. Neles, o autor medita sobre sua vida pública, mas também abre espaço para digressões de caráter pessoal, partilhando suas visões sobre a família e, corajosamente, abordando temas que alguns classificariam como incômodos, como os relacionados à própria saúde.
Personalidade incontornável para quem pretende entender a história do país, sobretudo entre 1930 e 1988, Afonso Arinos de Melo Franco foi caso raro de intelectual de alta performance que atuou na política. Sua paixão pela Cultura, no entanto, foi mais forte e o acompanhou durante toda a sua trajetória, sendo um testemunho eloquente de amor às artes, em especial à literatura. Potente, seu legado merece permanecer vivo e aceso, embora seja a marca de um país que praticamente não existe mais. Que os leitores percorram as páginas do livro com o mesmo prazer que tivemos ao organizá-lo.
“NOS 120 ANOS DE AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO”
Organização de Arno Wehling e Rogério Faria Tavares
Editora Miguilim
592 páginas
Lançamento em Belo Horizonte no próximo sábado (25/4), às 11h, na Livraria da Rua, com a presença de Cesário Melo Franco, neto de Afonso Arinos.
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ROGÉRIO FARIA TAVARES é jornalista, doutor em Literatura e presidente emérito da Academia Mineira de Letras (AML)
