ARTIGO

Nos arquivos do coração sensível: Afonso Arinos, memorialista

Em memórias de alta voltagem dramática, o ex-ministro detalha momentos pessoais e alguns dos principais acontecimentos políticos brasileiros no século 20

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Rogério Faria Tavares - Especial para o Estado de Minas 

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A obra memorialística de Afonso Arinos de Melo Franco é mais uma comprovação de seu vigor intelectual. Ao cabo de longa jornada, Afonso Arinos entregou aos leitores “A alma do tempo (formação e mocidade)”, em 1961, “A escalada”, em 1965, “Planalto”, em 1968, “Altomar maralto”, em 1977, e “Diário de bolso”, em 1979. Os quatro primeiros foram publicados pela Livraria José Olympio Editora, o último pela Nova Fronteira, junto com “Retrato de noiva”, reunião das cartas que o político trocou com Ana Guilhermina da Silva Pereira, a Anah, então sua noiva, entre 1927 e 1928, e depois sua esposa. Em 2018, a pentalogia memorialística foi reunida em um só volume sob o título “A alma do tempo”e relançada pela Topbooks.

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As recordações de Afonso Arinos são organizadas como num diário – em que cada entrada traz a data em que foi escrita. A primeira em “A alma do tempo” é a data de 16 de outubro de 1959, quando ele já estava com 53 anos e era senador, eleito um ano antes pela União Democrática Nacional (UDN), partido ao qual deu o nome. O que descortina nesse volume, porém, não são os debates políticos febris do fim da década de 1950 e depois (que se farão cada vez mais presentes nos demais livros). São sobretudo suas reminiscências da infância e juventude em Belo Horizonte, onde nasceu em 1905, oito anos depois da inauguração da capital, como nessa passagem:

“O mundo era para mim Belo Horizonte, as casas de meu avô e de meu pai; os passarinhos do viveiro e as frutas do quintal; o mês de Maria na matriz setecentista da Boa Viagem, com as meninas vestidas de branco, cantando; os círios acesos e a nave coberta de folhas de mangueira; os passeios de carro pelas alamedas do parque; os poentes estupendos, num desatino rubro-dourado, que íamos admirar nos altos da Avenida Álvares Cabral.”

Todo o texto dos cinco volumes de memórias foi manuscrito em cadernos. Ao longo da narração, Afonso Arinos vai partilhando com os leitores aspectos fundamentais de seu processo criativo, sem um plano previamente estabelecido, como ele conta. “A escrita é corredia e dá ideia de uma composição espontânea. De resto são sempre assim os meus trabalhos”, escreve. “O plano vai-se desenvolvendo à medida da composição. O que não quer dizer que sejam improvisados.” É o que reitera mais adiante, quando reafirma não possuir roteiro, mas não dispensar a bússola: “Quero navegar pelas ideias e recordações sem destino, mas sabendo a minha direção.”

No modelo empregado por Afonso Arinos, os leitores viajam com ele ao seu passado, em longos trechos destinados a recuperá-lo, mas também têm acesso ao que o memorialista vive enquanto escreve, o que confere especial complexidade ao seu texto, atravessado por temporalidades distintas. 

Algumas datas especiais ensejam recordações do memorialista, a ele permitindo certas digressões temporais, a despeito da linha cronológica que geralmente segue para reconstituir a sua trajetória. É o caso da entrada de 29 de outubro de 1959, também de “A alma do tempo”, na qual se dedica a relembrar a queda do Estado Novo varguista, em favor da qual ele e seu irmão, Virgílio de Melo Franco, tanto se empenharam. Virgílio foi assassinado em 1948, em circunstâncias nunca devidamente esclarecidas, episódio que ganha atenção neste trecho do livro “A escalada”, em que Afonso Arinos acusa o “submundo getulista”pela morte do irmão:

Hoje, com a serenidade trazida pelo tempo, fortaleço-me na hipótese de que meu irmão foi morto por uma trama política. Não atribuo nenhuma responsabilidade direta a Getúlio, mas os indícios foram se acumulando. Parece certo que eram dois assaltantes, duas as armas usadas por eles. Fatos conhecidos, ocorridos há muito com parentes de Getúlio: o atentado que vitimou o Major Vaz; outras razões que não preciso lembrar, me convencem da responsabilidade do submundo getulista no assassínio de meu irmão. Ele morreu como um bravo e eu, mais tarde, pude completar sua obra.

O motivo de Afonso Arinos para iniciar a empreitada memorialista é explicado na evocação de um pensamento atribuído aos romanos, que consideravam a “curva dos 50”como o limite inicial da velhice. Ele decide escrever e publicar suas reminiscências por considerar sua vida “cheia” o suficiente, tanto por causa do meio em que nasceu e se criou quanto pelos acontecimentos que presenciou ou por aqueles nos quais se envolveu.

De fato. Ao longo dos cinco volumes de memória, o que o leitor encontra é o testemunho privilegiado de alguém que esteve em grande parte no centro de alguns dos principais acontecimentos políticos brasileiros do século 20: a Revolução de 1930; a sucessão de Olegário Maciel, em Minas; a ditadura de Getúlio Vargas; o “Manifesto dos mineiros”(1943), pedindo a redemocratização do país e do qual ele foi um dos idealizadores; a queda de Getúlio, dois anos depois; a fundação da UDN; a volta de Getúlio ao poder central, em 1950, e o suicídio do presidente, em 1954; a eleição e o governo de Juscelino Kubitschek; a sua própria nomeação para o Ministério das Relações Exteriores no governo Jânio Quadros, quando elaborou a chamada “política externa independente”; a renúncia de Jânio – até a implantação da solução parlamentarista, que ele apoiou, a fim de garantir, contra uma ala dos militares, a constitucionalidade e a posse de João Goulart, que, no entanto, não era seu aliado político

Ainda que Afonso Arinos confira generoso espaço às suas memórias políticas e àqueles que desempenham papéis relevantes nos episódios históricos, é necessário ressaltar que “A alma do tempo”não se resume a elas. É mais abrangente. Oferece ao público, também, amplo e minucioso painel da chamada “vida privada” do autor, desde suas origens familiares até as lembranças de estudante, desde a paixão arrebatadora e o casamento com Anah até as suas frágeis condições de saúde – marcadas, na juventude, pela tuberculose e, na maturidade, pela depressão.

O retratista se mostra em plena forma, levantando argutos perfis de amigos ou de parentes. Os que redige sobre a mãe, Silvia Alvim de Melo Franco, e as irmãs ajudam bastante a entender o quadro em que se movem seus afetos. Vitimada pela gripe espanhola de 1917, Sílvia é relembrada na entrada de 22 de dezembro de 1963: 

“Hoje seria aniversário de minha mãe. Muito pouco representou ela na minha vida. Perdendo-a aos 12 anos, quase nenhuma influência tive dela na minha formação. Casando-se menina, morta pouco depois dos 40 anos, sua existência foi uma obscura luta, criando filhos numerosos. Morreu ao ter o último, que seria o décimo primeiro se tivesse nascido vivo. Não a vejo bem como mãe, mas como irmã mais moça, quase como filha, e me enterneço pensando no que não pude fazer por ela. Disse que pouco influiu na minha formação, e é verdade. Mas creio que muito do que sou, intrinsecamente, é dela, ou antes, é ela. Como forma de espírito, sensibilidade, gostos e inclinações, pareço-me muito mais com minha mãe que com meu pai. Minha vida se parece com a dele. Suspeito que minha alma, com a dela.” 

Outro traço que percorre as memórias de Afonso Arinos é o da continuada indagação a respeito da identidade do “eu”e dos caminhos que trilhou ao longo do tempo, num gesto que avalia as opções feitas e que, em alguns momentos, faz contas de perdas e ganhos:

“Que sou? Quem sou? eu me pergunto. Que fiz da vida, ou melhor, o que a vida fez de mim? [...] O que sou é o resultado do que fui, menos a angústia, mais a serenidade. O fogo do tempo consumiu tudo que era escória: angústia, ambição, cálculo – ódios nunca tive – e trouxe-me novas dimensões para o amor. Ou melhor, para o entendimento do que pode ser o amor.” 

Corajoso, o autor não foge do confronto com suas verdades mais íntimas nem do registro das situações mais difíceis que enfrentou, aí incluídas as questões de natureza pessoal. 

Na abertura de “Alto-mar, maralto”, refere-se à estafa que o levou, em março de 1968, a uma ausência (de cerca de um minuto), seguida de sucessivos acessos de depressão e de melancolia: “Depois de uma crise de saúde, que então me atingiu, passei a experimentar, não propriamente o medo da morte, mas um sentimento talvez pior, que poderia ser chamado o medo da vida”. E continua: “Durou desde 1968, com altos e baixos, a travessia do lúgubre túnel. Sua escuridão chegou a ser tão grande em certas semanas que, hoje, por mais que me esforce, quase não me lembro de nada, nenhum fato, nenhuma pessoa, daquele estranho mês de julho de 1972, que passei dormindo na Casa de Saúde São Vicente.” A internação, que durou todo o mês de julho de 1972, ocorreu aos seus 67 anos. Seu ostracismo político já durava seis anos, desde 1966. A volta para casa, depois do tratamento, é também referida como um período duríssimo.

É de alta voltagem dramática a cena em que pensou em tirar a própria vida, na esperança de livrar-se do terrível estado depressivo: 

“Matar-me só não me parecia uma solução, por causa dela [Anah]. Mas uma certa noite senti o risco sério de chegar até aí. Estava sozinho no meu quarto e com o crucifixo vindo de Jerusalém agarrado inutilmente. Então chamei Pedro Nava pelo telefone. Ele acudiu logo; deviam ser duas horas da madrugada. Recebi-o afetuosamente, mas sem demonstrações, e logo, sem meias palavras, abri o armário e entreguei-lhe o meu revólver: “Leve isto com você, pelo amor de Deus!”“Você está louco, Afonso!” “Não, meu caro, infelizmente não estou e é por isto que te peço que leves a arma daqui.” Nava tirou as balas do tambor, devagar, meteu-as num bolso e o revólver no outro, sem falar nada, a cabeça baixa, a poderosa inteligência em visível movimento. Eu também, calado, observava o meu amigo. De repente ele disse: “Por enquanto, nada a fazer, nem mesmo te receitar calmantes. Por causa do excesso deles você ficou assim. Receito a você coragem, Afonso.”

Sua reflexão sobre a morte aparece mais adiante, quando medita sobre a velhice, já com os ânimos pacificados: 

“Li, certa vez, que a morte é quase sempre um processo de suave anestesia, de calmo declive para o não ser. Talvez esta posição atual do meu espírito seja uma antecipação do processo, quanto à alma; uma etapa preparatória para a resignação final de desaparecimento.” 

Concluída cerca de doze anos antes de sua morte, ocorrida em 27 de agosto de 1990, no Rio de Janeiro, a escrita das memórias de Afonso Arinos acabou gerando um dos patrimônios mais valiosos da literatura brasileira. Nas palavras de Antonio Candido, “a ‘Alma do tempo’ corresponde a um dos pontos mais altos da língua portuguesa”.

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ROGÉRIO FARIA TAVARES é jornalista, doutor em Literatura e presidente emérito da Academia Mineira de Letras (AML)

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