A juventude do pensamento de Eduardo Sterzi: dois livros e alguns sintomas
Professor de teoria literária aponta a emergência do mito no universo poético contemporâneo como forma de ler os célebres ensaios de interpretação do Brasil
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Davi Pessoa - Especial para o Estado de Minas
“Juventude eterna” e “Brasil-sintoma”, dois livros recentes de Eduardo Sterzi, enunciam um sintoma de extrema vitalidade, por mais paradoxal que possa parecer: “O Brasil não existe”. Portanto, nossa tarefa de leitura é ouvir o concerto da nação ilusória atravessado pelo desconcerto do real do “Hino nacional”, de Drummond. O Brasil mostraria sua força em sua inexistência? Em ambos os livros há uma tomada de posição a partir de manifestações sintomáticas, cujos sinais ecoam em dimensões poéticas. O autor lança uma hipótese: “O sintoma, por oposição ao símbolo, nos diz de uma resistência à interpretação que é também um salto à poesia como reinvenção da linguagem. E reinventar a linguagem é reinventar muita coisa mais.” Em outras palavras, para lermos e elaborarmos o Brasil-sintoma, é desejoso que possamos dar escuta à raiz festiva da elaboração poética, à sua juventude eterna, situada entre assombração e graça.
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Publicado pelo Círculo de Poemas, “Juventude eterna” coloca uma exigência aos seus leitores: “Experimentar o mito como os poetas fizeram e fazem”. No entanto, para experimentá-lo, temos que descontruir os preconceitos contra o êxtase, o transe e a possessão. Sterzi argumenta que os mitos continuam a ser necessários para os poetas, embora o mundo moderno tenha – aparentemente – nos afastado deles. Mas como repropor tal experiência? Como essa experiência permeia e perturba a vida? Se os poetas nos dão a ler outros mundos no mundo em que vivemos, então é porque transmitem a nós outras formas de ser, como relembra o autor por meio de Rilke.
A translação do mito, assim, não se dá sem a dimensão da festividade como experiência que desativa noções como utilidade e produtividade: “a raiz festiva da elaboração poética: esse é um fato por vezes esquecido pelos próprios poetas e que pode produzir divergências notáveis entre seus poemas e os textos críticos ou teóricos que escreveram”. Sterzi estaria apontando que a dimensão do negativo, ambivalente e contraditoriamente, se encontra hoje domesticada no conformismo no qual artistas jamais deveriam fazer morada? Talvez seja por isso que a sua escuta se coloque à disposição do arcaísmo contemporâneo de Paulo Leminski e Torquato Neto: das máscaras que se erguem contra a própria noção de centro – que, aliás, é violentamente autoritária. Máscaras que revelam a luta pelo reconhecimento da dispersão e da multiplicidade, em detrimento da concentração e da unidade. Lançar-se à multiplicidade é correr riscos: “uma juventude eterna é a vida, a um só tempo, como saúde e risco, como plenitude e colapso”.
“Brasil-sintoma: como viver na pós-história?”, lançamento da coleção Galáxias de Bolso da editora Telaranha, frisa a “significativa anexação de obras literárias ao modelo da interpretação do Brasil”, tendo como fio condutor a coleção Intérpretes do Brasil, organizada por Silviano Santiago. A singularidade desse gesto se desdobra – ou melhor, se triplica – em 2005, quando Silviano publicou o ensaio “Mário, Oswald e Carlos, intérpretes do Brasil”. Como o crítico observa: “Em suma, há uma crítica e um novo projeto de Brasil nas palavras e nas polêmicas dos nossos primeiros escritores modernistas”. Eduardo Sterzi, tocado por essa afinidade, argumenta que “é preciso perceber, antes de tudo, que o tipo de interpretação que eles oferecem em seus textos é muito diversa daquela proposta pelos autores usualmente compreendidos como ‘intérpretes do Brasil’”. A partir dessa constatação, começamos a ler e sentir – e não apenas interpretar – os sintomas como gesto de irrupção e descompasso, algo que denuncia uma contradição da modernidade, da nação e da linguagem, “preferindo o momento da deformação ao da formação”, embaraçando-os, para “multiplicar os sentidos”. Surge, então, a questão: como ler os ‘ritmos dissolutos’ que ecoam em torno dos discursos da nação e do nacionalismo? A resposta do autor tem caráter visceralmente mitológico: “A afirmação da perda ou dissolução do ritmo é sempre, para o poeta, a afirmação de uma nova relação com o tempo e, portanto, com a história.”
“Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!”: como ouvir um verso tão dissonante? E ainda: como se sentir afetado pela extraordinária constatação de que “Nenhum Brasil existe”? A hipótese de Sterzi: “Drummond parece sugerir, aí, que é preciso distinguir entre a nação como unidade ilusória e o povo – ou melhor, os povos como potencialidade viva, ainda que dubitativa; afinal, os povos, sabemos desde pelo menos Deleuze, estão sempre ‘por vir’”. Assim, os sintomas se manifestam: sintoma como aquilo que não se resolve pela interpretação totalizante, mas que insiste, retorna e desloca sentidos; sintoma como deslocamento cultural, resto moderno que não se integra; sintoma como retorno deslocado do passado no presente: “O tempo do ‘míssil’ (a inscrição do futuro no presente como destruição da própria ideia de futuro) é também o tempo do ‘fóssil’ (a inscrição do passado no presente como realização do ‘programa’, no sentido que Flusser dá a essa palavra, mas também, talvez, como imagem de um outro caminho que, perdido outrora, resta, por isso mesmo, porque não realizado de todo, ainda possível”. A antropofagia como sintoma arcaicamente moderno e não como síntese reconciliadora: “É nesse sentido que Oswald propunha uma ‘Errática’, ou ‘ciência do vestígio errático’, como prática arqueológica.”
O negativo do ‘sintoma de cultura nossa’ se manifesta no segundo ensaio do livro, A “rasura do trágico” como operação infinita, no qual Sterzi dedica seu olhar ao texto “Da literatura brasileira como rasura do trágico”, escrito pelo crítico Eduardo Lourenço em 1984. Durante sua estadia em Salvador, testemunha e sente de maneira radical aquilo que havia sido rasurado em sua própria formação: “Foi aqui, no Brasil, que, paradoxalmente, comecei a interessar-me por este tema do império, da colonização, e no fundo foi aqui que nasceu a ideia de que não se podia ter uma leitura da história portuguesa, da cultura portuguesa, sem conhecer esta outra parte do que tinha sido o império português.” Sterzi apresenta as ambivalências do “crítico europeu” que vem ao Brasil para ouvir, por meio do “ouvido absoluto” de Jorge Amado, as vozes dissonantes e múltiplas das ruas. E mais: “Justamente na Tropicália, redescoberta e revelação do modernismo a partir da inspiração glauberiana, que as questões que se revelariam centrais para a interpretação do Brasil por Eduardo Lourenço ganham sua formulação mais radical – e, justamente por isso, mais inaceitáveis, pode-se depreender, para o ‘crítico europeu’”.
Enfim, nesses dois excelentes livros, lemos a vida-sintoma: “Nós só existimos no espelho dos outros”, diria Eduardo Lourenço. Eduardo Sterzi – o Outro – sente e transfere, por meio de um desconcerto de vozes, outras formas de ler as deformações do Brasil-sintoma: “O Aleph é uma figura latino-americana.” Em outras palavras, a nação é o real.
DAVI PESSOA é professor do Instituto de Letras da UERJ e autor de "Anacronismos: ensaios de arte, literatura e filosofia de exceção" (Mórula, 2025)
“Juventude eterna: a poesia do mito e o mito do poeta”
De Eduardo Sterzi
Círculo de Poemas
40 páginas
R$ 49,90
“Brasil-sintoma”
De Eduardo Sterzi
Coleção Galáxias de Bolso
Telaranha Edições
72 páginas
R$ 56
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Sobre Eduardo Sterzi
Nascido em Porto Alegre em 1973, Eduardo Sterzi é professor livre-docente de teoria literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Publicou, entre outros livros, “Por que ler Dante” (2006), “A prova dos nove: alguma poesia moderna e a tarefa da alegria” (2008) e “Saudades do mundo: notícias da Antropofagia” (2022). Também é poeta, dramaturgo e curador.