Fabrício Marques - Especial para o EM

Naquele livro em que Truffaut entrevista Hitchcock, somos apresentados à distinção entre suspense e surpresa. Enquanto esta corresponde a um impacto repentino, a um choque inesperado, o suspense se constrói como a expectativa diante do desenrolar de uma situação perigosa cujos elementos já são conhecidos pelo espectador, levando-o a antecipar e temer o que está por vir.

No cinema de Hitchcock, esse suspense assume um caráter profundamente psicológico, sustentado sobretudo pelo olhar. Situações aparentemente banais revelam, de forma súbita, uma fissura — algo estranho que rompe a normalidade, desperta a atenção e intensifica a expectativa. É assim que, sem pedir licença, o extraordinário eclode no cotidiano.

Essa concepção de suspense vem à tona ao se ler o livro mais recente de Francisco de Morais Mendes, A bala dos desarmados (Editora Sinete). Em especial, o conto “Hóspedes” remete a um tema caro ao universo hitchcockiano, o do “homem errado”, acusado de um crime cometido por outro. Na narrativa, um homem é esfaqueado por engano ao ser confundido, por um marido traído, com o amante da esposa.

Prestes a completar 70 anos, Francisco de Morais Mendes publicou seu primeiro livro, Escreva, querida, em 1996, obra duplamente premiada. Trinta anos depois, com 53 contos reunidos em cinco livros, mantém uma coerência estética, com seus personagens partindo de situações corriqueiras para subitamente deparar-se com riscos, conflitos, problemas, feridas, contradições e desencontros. É como diz Henrique, personagem de um dos contos de O sacrifício e outros contos: “Está sempre no desvio, nunca no caminho. O desvio é o caminho.” É nesse desvio que se inscreve a lógica de suas narrativas, marcadas por rupturas profundas no destino dos protagonistas.

Henrique, aliás, portador da síndrome de trocar de lugar com os outros, integra a galeria de personagens singulares do autor — figuras que aparecem aqui e ali ao longo de sua obra, como o homem que percorre apartamentos vazios ou o que rouba bolsas femininas, em A razão selvagem (seu segundo livro); o procurador Bernardo Larsen, que assume o lugar de um atropelado (em Onde terminam os dias); ou o livreiro Marcial, que tem o hábito de achar dinheiro na rua (em O sacrifício).

Mais importante que instaurar o suspense é saber sustentá-lo. Em Corredores, por exemplo, um homem segue outro, a 20 metros de distância, em direção a um parque. Por qual motivo? O que aconteceu? Mendes mantém a narrativa até o desfecho, preservando a tensão existente desde o primeiro parágrafo.

Nos contos, situações banais transformam-se subitamente em perigo. O acaso joga seus dados: o mero ato de sair de casa para colocar o lixo na rua ou guardar o carro na garagem pode desencadear eventos irreversíveis. Em A visita, Valéria vai ao apartamento conferir uma obra em um feriado, tenta resolver um problema e acaba em apuros. É uma situação semelhante a O tempo dos sinais, de seu terceiro livro (o já citado Onde terminam os dias), em que a motorista, parada no trânsito, fica com as mãos presas no cabelo e perde o controle da situação.

Episódios do passado assombram os personagens no presente. Em Incerta viagem, uma leitora aborda o escritor e revela algo perturbador envolvendo a personagem de um livro dele. Já em Fora de época, ambientado em um Rio de Janeiro sob intervenção militar, um homem reconhece, ao passar por São Cristóvão, um lugar de sua infância e um episódio marcante que volta à lembrança.

Estamos, nesses contos, invariavelmente imersos em uma atmosfera quase onírica e sufocante, na qual realidade e memória estão fora de compasso. Como em A caminho do grande espetáculo, a cena do pai de mão dada com o filho no meio de uma multidão mostra o momento em que percebe que a mãe já não está com eles. Trata-se de um mundo convulso e fragmentado, em que os personagens não detêm controle sobre os acontecimentos.

As múltiplas camadas narrativas exigem do leitor uma espécie de recomposição, como se fosse necessário recuperar o fôlego, ficar reconciliado com o ar, tal qual ocorre com a protagonista de Ar. A escrita de Mendes tende ao minimalismo, característica destacada por Eneida Maria de Souza ao apontar “a economia da linguagem” e “os enredos enxutos” de seus contos.

Nesse contexto de concisão, o autor mobiliza recursos variados para manter o leitor em permanente estado de tensão. Um deles é o paralelismo narrativo, em que duas ou mais situações vão se desenrolando ou planos distintos se entrelaçam, como em Névoa, com Aristides Bastos Caldeira envolvido em um sonho dentro de outro, enquanto o espera uma barra pesada. Estratégia semelhante se dá em Estado bruto, conto que encerra o livro. Nele, um narrador em estado vegetativo diz algo que pode ser replicado em muitos contos do autor: “Talvez um dia eu possa contar essa história, por ora só posso pensá-la. Mesmo confuso, ou pouco confiável, sou o único que pode contá-la.” A narrativa acompanha simultaneamente a trama do assassinato de um procurador e a tragédia pessoal de quem narra, reforçando a instabilidade do texto.

A bala dos desarmados é o livro mais explicitamente político do autor, no qual questões sociais emergem com mais força, notável nos contos Ar, Jardim das plantas e Um olhar, uma foto. Neles, encontramos uma família “que meio se esfacelou nas eleições”; um homem em Paris, separado da mulher e dos filhos, que vive “no beco sem saída dos refugiados”; e reflexões sobre a foto de uma menina nua “que parecia gritar”, vítima do nazismo, e que acabou de ser violentada.

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Como escreve Luis Alberto Brandão, em Espaços da obra literária, “A literatura é o triunfo da inteligência, mas de uma inteligência autoindagativa, vertiginosa, inseparável do universo das sensações; contrária, pois, a qualquer pretensão triunfante”. Para o ensaísta, “o papel da literatura é experimentar limites”, e “as margens do mundo se redefinem na aventura da palavra”. É nesse sentido que a palavra, quando manejada por um hábil escritor como Francisco de Morais Mendes, torna-se, de fato, a poderosa bala dos desarmados.

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