Kalil de Oliveira - Especial para o Estado de Minas

O debate público está adoecido, violento. A busca por hegemonia, que acaba por ser nociva ao exercício intelectual, cala vozes dissonantes. A agressividade, porém, tem caráter distinto em cada lado da polarização. Inexiste espaço para falsas equivalências. Discursos preconceituosos, com claro teor racista, devem, afinal, ser calados. São criminosos, aliás. Mas o que acontece quando, por exemplo, algum crítico indica elementos negativos em algum romance sobre escravidão escrito por autor negro? 

Em entrevista à "Folha de S.Paulo", a professora Aurora Bernardini disse que “Torto arado”, de Itamar Vieira Junior, não é literatura – uma hipérbole, como apontou José Falero em ensaio publicado na revista "Piauí". O jornalismo é feito de edições. Portanto, exatamente o que a professora aposentada da Universidade de São Paulo disse e a profundidade dos argumentos são ocultos ao leitor. Em nenhum momento do texto, porém, há indicativos de discriminação feita pela pesquisadora. O argumento é meramente estético: o conteúdo se tornou mais importante que a forma. Mesmo assim, foi classificada nas redes sociais como “elitista” e “racista”.

É desnecessário olhar para mazelas sociais tão profundas. Qualquer crítico musical que apontar defeitos na cantora Taylor Swift será linchado em praça pública. Ou melhor, virtual. O resultado, infelizmente, é o silenciamento. Basta ver as agressões – misóginas – que a jornalista Carol Prado sofre com frequência. É proibido questionar o consenso. Resta aos críticos exaltarem as obras “urgentes” e “incontornáveis”. Isso explica a má qualidade das resenhas publicadas ao longo das últimas décadas: são curtas, adjetivas e não dizem nada.  

Sobre as doenças do Brasil: os críticos, de maioria progressista, querem contribuir no encerramento das desigualdades no país. Ao menos, assim espero. Ao receber rótulos do tipo que Bernardini ganhou, o único comportamento possível é calar-se e pedir desculpas. Será? 

 A ensaísta Dirce Waltrick do Amarante encara o problema em seu novo livro, “Interferências: censura, apagamentos e outros temas contemporâneos” (Iluminuras). A orelha, aliás, é assinada por Bernardini, que classifica o trabalho como oportuno, seminal e instigante – concordo com a avaliação. (Antes de seguir com a resenha, por fins de transparência aviso ao leitor que a autora é minha orientadora de mestrado.)

Composto por 43 ensaios curtos – a maioria, publicada em jornais e revistas –, a autora também explora outros aspectos de seleção que apagam e excluem expressões literárias. Há discussão sobre teatro, tradução – área em que a autora é referência –, feminismos etc. 

Dirce denuncia a corrente “anti-intelectual”, que busca calar professores, cientistas, intelectuais. São atores do debate público que se encarregam de analisar o mundo e expor contradições. O mundo é feito de paradoxos. Sobretudo em países colonizados por múltiplos povos, as gretas são enormes. Acontece que, com a excessiva polarização impulsionada pelas redes sociais, tudo é preto ou branco. É a luta do bem contra o mal. Os diferentes grupos aprendem discursos prontos e os repetem à exaustão. Isso pode, isso não pode. É pecado ou glória. Mas a vida é real e de viés, canta Caetano. E apontar as nuances é tarefa do crítico, que, muitas vezes, promove autocensura para evitar o confronto. 

Olhar para o estado pútrido da conversação pública talvez seja o caminho para diagnosticar as doenças da democracia liberal e o que podemos fazer para recuperá-la. “Posso não concordar com uma só palavra que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de a dizeres”, escreveu Evelyn Beatrice, apesar da frase ser atribuída a Voltaire. 

Kalil de Oliveira é jornalista, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, com intercâmbio na Universidade de Buenos Aires 

“Interferências: censura, apagamentos e outros temas contemporâneos” 

De Dirce Waltrick do Amarante

Iluminuras

144 páginas

R$ 69

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Trecho do livro

Tornou-se “difícil” discutir qualquer assunto. Em primeiro lugar, porque, parece-me, desaprendemos a arte do diálogo; em segundo lugar, porque talvez não estejamos entendendo muito bem o significado de “lugar de fala”, uma das primeiras barreiras para encetar uma conversa ampla. Nesse sentido, o livro O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro, publicado em 2017 e com acesso gratuito on-line, é fundamental.

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