Gustavo Silveira Ribeiro - Especial para o Estado de Minas

A reedição da “Antologia mamaluca”, de Sebastião Nunes, que sai agora pela editora Fósforo, com organização e posfácio de Fabrício Marques, repõe em circulação um objeto incômodo e difícil de descrever. Já era hora dessa poética paradoxal – do precário e do laboratório, do riso solto e da austeridade rigorosa – voltar a assombrar a literatura brasileira. 

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Reunião depurada dos livros de poemas escritos pelo autor durante mais de vinte de anos, a “Antologia”traz um pouco de tudo: elegias experimentais, verbetes, fotografias próprias e alheias, exercícios tipográficos, textos e imagens em graus variados de composição e decomposição. O livro é o testemunho de uma procura incessante por caminhos e modos de expressão. A sua forma fundamental é a sabotagem dos discursos estabelecidos, trabalho que se faz ao mesmo tempo pela destruição do que existe e pela invenção de novas e inesperadas maneiras de articular a linguagem. 

A variação de formas e o disparate lógico-discursivo moldam o horizonte do livro, assim como o virtuosismo e a curiosidade permanente do artista-artesão que testa sem cessar os seus materiais. O poeta quer surpreender e desconcertar o leitor, mas quer também encontrar, no amplo repertório de possibilidades da arte, a forma exata que deve ter cada projeto e cada poema. Para Sebastião Nunes, não há modelos a seguir, assim como não há chefes a obedecer nem público a agradar. O texto e o poeta querem ser ingovernáveis. Na “Antologia Mamaluca”, ética e estética se entrelaçam de modo profundo, como ocorre nos melhores momentos da arte moderna. A rebelião da forma é também um modo do inconformismo político. 

O desconforto que o livro provocou no seu tempo (a primeira edição é de 1989) continua ativo e atual. Num momento como o presente, no qual o gosto médio do leitor (de poesia e outros gêneros) parece pouco receptivo à experimentação e à negatividade radical dos gestos da vanguarda, a “Antologia mamaluca”é um corpo estranho e sem lugar certo. O humor cáustico das suas páginas, a mistura de recursos expressivos, a preferência pelo erotismo escatológico e por certas imagens de mau gosto (segundo o padrão razoavelmente decoroso de nossa época), fazem com que o livro permaneça único, um anti-objeto intratável, espécie de ouriço armada contra o mundo, ainda que ele também seja, no horizonte histórico contemporâneo, um clássico da contracultura e da poesia intersemiótica brasileira.

O incômodo que pode causar e a necessidade urgente da “Antologia mamaluca”hoje não são apenas resultados da insubmissão fundamental de um poeta que quis manter-se à margem da margem, ou na vanguarda da vanguarda. A busca pelo caminho próprio e a desconsideração irreverente por tradições poéticas, quaisquer que fossem elas, antigas ou pós-modernas, são apenas uma face da aspereza (e da graça) do livro. Há outras. Tudo na “Antologia” é crítico, isto é, tudo o que essa poesia toca (e tudo o que a constitui) parece estar em crise. Os arranjos da sociedade capitalista, a ditadura civil-militar brasileira e suas violências, a moralidade burguesa, a ética do trabalho, a função e o sentido da arte e da literatura, a própria linguagem poética. Nada está a salvo na poesia de Sebastião Nunes. 

Paira sobre cada uma das esferas da vida e da arte um halo de dúvida e uma sombra negativa. O poeta se põe a desmontar certezas e a zombar de consensos. Seus versos e imagens (trata-se de uma poesia radical e inseparavelmente verbo-visual) são ferozes, mirando igualmente senadores da República (“em Brasília redundam basiliscos sentadores”), preceitos religiosos e um “mesquinho ditador de boas maneiras literárias”qualquer. A sátira, a paródia e a maledicência estão entre seus métodos de trabalho.

Singular, sem dúvida, na cena poética atual, a “Antologia”está, no entanto, cercada de outros textos e autores solitários. Uma verdadeira família de inclassificáveis se soma ao livro e se aproxima de Sebastião Nunes. Alguns dos procedimentos experimentais e algumas das atitudes antiliterárias do autor são compartilhados por alguns dos melhores (e mais curiosos) casos de exceção da cultura brasileira. As colagens e as intervenções feitas com e sobre imagens de jornais, revistas e peças de publicidade de Valêncio Xavier; a fascinação por monstros e o gosto pelo nonsense de Sebastião Uchoa Leite; o humor chulo e o sentido da paródia total e desmoralizante de Zuca Sardan são exemplos célebres entre os contemporâneos do autor de um ethos anárquico em comum. 

O poeta buscava criar também a sua genealogia de orgulhosos e desconformes. O lirismo duro, mas comovente, de “Papéis higiênicos” (1983-1985), o mais impressionante conjunto da “Antologia mamaluca”, inventaria também toda uma comunidade de artistas e personalidades dissonantes, em meio aos quais se destacam Ascânio Lopes e Augusto dos Anjos, precursores do destino poético anômalo do escritor. Em “Papéis Higiênicos”está ainda, além de pintores e poetas, “Levi Araújo, o menor dos Nunes”, ao qual o autor dedica a ‘elegia rupestre’“Enfisema pulmonar”. O parente, devotado ao pequeno comércio e homem apagado do interior, deixou a Sebastião Nunes, no entanto, a lição selvagem da “preguiça e da irresponsabilidade”, formas de recusa do mundo e de suas obrigações. 

Paralisar o trabalho e colocar-se à margem do sistema produtivo (cultivando o ócio) despertou o poeta, quem sabe?, para outros modos de ação e outras formas de criar valor. A liberdade despudorada com que compôs a sua obra, desligado de cânones e contratos sociais, talvez não existisse de outro modo. O descompromisso temerário do homem que escolheu a vida de editor dos próprios escritos, fiel a si e orgulhoso dos descaminhos que tomou, é parte da herança recebida, e também da vida refeita e compartilhada com aquele, o próprio pai, que “nunca pediu nada. nunca aceitou nada. nem de deus”. Projetando-se, de algum modo, no ancestral que se foi, Sebastião Nunes assinalava, a fogo, os termos severos da sua arte e da sua solidão. 

GUSTAVO SILVEIRA RIBEIRO é professor de literatura da UFMG e um dos editores da “Ouriço” - revista de poesia e crítica cultural

“ANTOLOGIA MAMALUCA”

De Sebastião Nunes

Círculo de Poemas/Fósforo

296 páginas

R$ 99,90

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Lançamento: 21/3, às 11h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi) com a presença do autor em bate-papo com João Barile

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