“Flutuações”

Quando o montante cambial e os seus

derivativos não são o que assomam, a

tarde torna-se noite e tu choras como

uma coroa de corvos para logo

adormeceres no meu ombro

Porquanto o amanhã é substância

de especulação, o teu coração é causa

macroeconómica deste respirar na

cozinha às escuras ao som assíduo da

máquina de lavar

Se é verdade que os nossos membros

não agem, apenas reagem passivamente

às consequências de ventos, como talas

de gesso branco nas junturas turvas

dos mercados

Então deixa-me receber os teus beijos

como moedas de chocolate.

*

“Raiva”

Ladraste-me ao ouvido (rugidos em forma

de cálculo) e dizes agora que a rima é cáustica.

Morderam fundo: eu seco bem a pele

(para ressequir zoonoses, nevoeiro em nódoa)

o barco em que dormimos

vela sobre o fel.

Por onde andámos, membros fechados

de corporação em corporação, sonhando

com o mel de uma amputação, partilhámos

Raiva: porta perfeita para

o nervo periférico.

E, assim, prenunciados,

rendidos a um estado

sem graça nem jurisdição

vadiamos pelo branco adentro,

bocas espumando tinta em papel

*

“Investimento ou notas de uma espera”

Apareces-me assim sem avisar e

observas em silêncio pronto a

corroer ou a beijar. Não importa.

A mim que sempre te esperei. Nada

mudou senão metade da totalidade

do que já devíamos a bancos sem

dono, a amos de França, corsários

de Espanha, vigários de Itália. As

seguradoras oferecem ao príncipe

a minha sandália. Hoje não espero

mais mas se esperasse, esperaria

por ti como sempre, sem me

atrasar nessa minha espera

sentada com um livro ao colo

a fingir que leio, enquanto tu corres

de um lado para o outro, para mim

também. Nunca tinha reparado

que não tens pescoço.

Chamam-te atarracado mas eu nada oiço, és

apenas encorpado lindo, fruto sem caroço.

Porque é que nunca

me mostraste a pele já tocada?

E quando regressei como sempre, sem

me atrasar, no meu regresso, a pé, livros a

tiracolo a fingir que lia, já éramos náufragos

desse passado que nada valia. Agora temos

tudo pela frente: lucros, ações, obrigações

investimentos, a vida: um sem o outro.

*

“Longo abdutor”

Tenho um tendão

junto ao polegar da mão direita

que tenta deslizar sobre os ossos

para chegar até aí

É um tecido conjuntivo:

dói-me porque se engana

e porque se desengana.

*

“Sala de espera”

há coisas que

demoram muito tempo

tu és uma delas.

SOBRE O LIVRO E A AUTORA 

A escritora portuguesa Susana Araújo (foto) é ensaísta, ficcionista, professora e poeta. É professora, desde 2019, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. “Corpos a Crédito” reúne textos de Susana Araújo selecionados de dois livros: “Dívida Soberana”, publicado pela Mariposa Azual em 2012, e “Discurso aos Pacientes Cirúrgicos”, que saiu pela não (edições) em 2020. “Nestes poemas, a dívida não pertence apenas ao corpo social que as crises financeiras expropriam e hipotecam mas, principalmente, a um espaço íntimo em que a paixão e a doença atuam de forma semelhante, e se instalam como uma segunda escrita — em carne. Fala-se de uma economia assassina, perante um corpo precário: fala-se da pele, do osso, e do dia que se arrasta como uma prestação vencida. Disserta-se sobre a doença e a cura, fala-se de corpos abertos em negociações silenciosas com o futuro”, avisa o texto de apresentação. Susana lançou o livro no início da semana em Juiz de Fora.

“CORPOS A CRÉDITO”

De Susana Araújo

Editora Macondo

84 páginas

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