Primeira leitura: ‘Pequenos fantasmas’, de Humberto Werneck
Livro reune contos do autor belo-horizontino escritos entre 1965 e 1970, antes de se mudar para São Paulo
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“Acontecimento de família”
Quando a mulher, torcendo as mãos, a voz difícil, cabeça derreada, lhe contou enfim que a menina, a única, já não era moça, e contou isso devagar, a coisa lhe custando a sair, o homem pensou primeiro foi na morte. Imaginou engasgado que ia morrendo, que ia aos poucos morrendo, mãos, pernas, o resto. A velha, sabedora bem antes do ocorrido, carregou com a filha para a casa de uns parentes. Passado o momento do baque, o homem sentiu precisão de quebrar tudo, e desse rompante não ficou coisa inteira na casa. A vizinhança excitada nas janelas: é hoje. Todo mundo sabia — na rua, tirando o chapéu para os conhecidos, ele certamente é que não. Alguns tinham até presenciado (uma noite, sabe?, depois que os pais foram dormir, e foi assim e assim) e só agora contavam com a boca inteira, testemunhas de dentro do quarto, debaixo da cama, os mínimos detalhes, e o sedutor saindo (do guarda-roupa?), olhos verdes, bigodinho, um metro e setenta. Dependuradas nas janelas apagadas, olhos acesos e ouvidos captando a sensação do acontecimento, o pai que gritava, que gritava muito e alto, aos arrancos, o nome da filha. Mas que ninguém se metesse: que era coisa séria, assunto de honra, de honra de família.
Depois estalou pesado na cadeira de balanço e perdeu a noção do tempo e de tudo. O padeiro veio todos aqueles dias, deixava o embrulho na soleira — o cachorro apanhava sorrateiro e descia a rua. A mulher então esquecida, na rua, na igreja, mesmo ali na igreja quando os joelhos penitenciavam a alma de todos os pecados seus e do marido e da pobre filha, mesmo ali era mãe de moça falada, o olho vermelho de Deus pesando em cima dela, mãe descuidada, mãe de moça falada: perdão, Senhor. Junto do fogão, na véspera dos sapatinhos de lã, sentiu que envelhecia depressa.
Tantos dias esperou o homem que a filha voltasse. Na cristaleira, no meio da louça de seu casamento, ficaram, puro desgosto, o maço de cigarros, a binga parecendo bala de canhão: ele, mão sobre o Livro Santo, nunca mais haveria de fumar. Um dia, nem sabe como, perdeu o ânimo de tudo. A filha entrando, maleta na mão, passou por ele sem suspender a vista, nem oi. De repente foi como se todo o trabalho da vida lhe pesasse muitos anos no ombro. Para sempre ficaria no bar, os olhos à beira do copo. Às vezes, quando as coisas lhe doíam muito, largava a janela e espantava o choro com um gesto, feito quem espanta moscas. A filha trancada no quarto — no que será que pensava? Uma barriga crescia imensa no pesadelo do pai. À luz da cozinha as roupas se faziam com vagar, os dedos precisando de novo aprender o ofício há muito esquecido.
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Um dia: quem que viu o rapaz, e onde? Nunca mais apareceu, tinha olhos verdes e bigodinho, quem o tivesse visto na sala, perguntando coisas e ouvindo sério, não haveria de dizer. Oh, mas era a vida, falavam. O velho balançava o silêncio e as lembranças na cadeira da sala, na cristaleira o maço e a binga. Era a vida, quem haveria de dizer. De repente dormia.
Uma noite a moça gemeu, veio a mãe, vizinhas foram chegando. Os gemidos agora mais altos, vozes, será que as mulheres rezavam? A cadeira ia e vinha, de novo estacava. Quando foi de madrugada um choro destampado — menino ou menina, meu santo?, ele na sala teve um estremecimento, um instante só, logo a cadeira recomeçou, o homem foi apanhar os cigarros, a binga.
Belo Horizonte, 1966
SOBRE O AUTOR E O LIVRO
Nascido em Belo Horizonte em 1945, Humberto Werneck mora em São Paulo desde 1970 e trabalhou em jornais e revistas da capital paulista e do Rio de Janeiro. É autor de livros como “O santo sujo” e “O desatino da rapaziada”. Os contos reunidos em “Pequenos fantasmas” foram quase todos escritos entre 1965 e 1970, com exceção de “A invasão”, de 1977. ”O que contou, e conta ainda, foi a experiência da criação”, ressalta o autor, na apresentação da edição da Seja Breve, “editora independente de pequenos grandes livros de ficção e não-ficção.” A ilustração da capa é de um dos editores, o jornalista e escritor Cadão Volpato.
“PEQUENOS FANTASMAS”
De Humberto Werneck
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Lançamento em Belo Horizonte neste sábado (14/3), às 11h, na Quixote Livraria e Café (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi), em bate-papo com Afonso Borges.