Ludimila Moreira - Especial para o Estado de Minas

O celebrado “Histórias reais”, da artista visual francesa Sophie Calle, lançado originalmente na França em 1994, ganha uma nova edição brasileira pela Relicário Edições com tradução da poeta e ensaísta Marília Garcia. Trata-se de um livro cheio de intimidades e suas cosmogonias, um álbum carregado de memórias fictícias, teatralizadas e autênticas, um caderno escritural com espessura de crônica, voltagem de romance e dicção de dossiê detetivesco com boa dose de humor e melancolia. A publicação da Relicário amplia a versão original publicada no Brasil em 2009, pela Agir, há anos esgotada, e inclui 27 histórias e fotografias.

O livro funciona como bilhete de acesso às geografias urbanas e sentimentais palmilhadas, experimentadas e forjadas por Calle, artista, personagem, narradora e autora, com fragmentos que revelam cenas de interioridades e ritos como o início da vida sexual, divórcio e as mortes de Monique, a mãe, Souris, o gato e Bob, o Pai. É emblemático dessa jornada o episódio intitulado “Sonho de moça”, sobremesa que a autora pede em um restaurante aos 15 anos contendo uma banana descascada e duas bolas de sorvete. Diante da postura irônica e misógina do garçom, Calle escreve “Prendi o choro e fechei os olhos, exatamente como fiz alguns anos depois quando vi pela primeira vez um homem nu diante de mim.” 

A obra estabelece um circuito incessante de imaginação e criação ao borrar as fronteiras entre público e privado, entre o acaso e o voyeurismo, em um crescente de simbolizações de angústias e escancaramentos às manifestações do patriarcado. Toda essa movimentação de linguagens escrita e visual acontece através de cerimônias e performances que redimensionam e convertem sentimentos e categorias como vazio, desejo, inadequação, medo e violência em um repertório vívido de ações que radicalizam a estagnação do tempo. Calle cria algo entre o fotorromance e o catálogo raisonné e desorbita a ideia de que a voz narrativa se conformaria como personagem ou narradora: aqui a escritora se torna cenógrafa, performer, figurinista, dramaturga e documentarista. 

Em trechos como “Mau hálito”, acompanhamos o registro emancipador do episódio em que o pai a encaminha a um clínico para tratar dessa suposta condição e a filha se dá conta do engano quando é interpelada por um psicanalista que lhe pergunta “você sempre faz o que seu pai manda?”. Noutros momentos, temos um ânimo cinematográfico como em “O falso casamento”, quando familiares e amigos são convocados para um simulacro de rito, com a artista e sua ânsia de controle e fabulação de um imaginário que no patriarcado se manifesta de maneira quase sempre cruel. 

Calle elabora via chiste, melancolia e altivez erótica um feminino que não se enverga, antes se precipita e se torna agente de atrito desde um turbilhão de pensamentos e ações, como quando decide antecipar um divórcio a partir de uma leitura de uma carta extraviada que o marido havia escrito para outra e sela essa ruptura com um ensaio fotográfico do casal numa foto icônica.  



Cartas, cama e núpcias 

Alguns signos se reinscrevem ao longo das histórias como as cartas, a cama e a noite de núpcias, rasurando a utopia de um imaginário romântico que funda tantas experiências amorosas. Ao invés de representar a espontaneidade do amor, a encomenda de uma carta apaixonada expõe a artificialidade das convenções e ironiza a promessa de intimidade: “Custou 100 francos e o homem dizia: ... sem um pingo de esforço, eu estava sempre aonde você ia…”.                                         

Já a cama aparece em sua ontologia terapêutica e fantasmática, no episódio “Viagem à Califórnia”. Calle decide enviar sua cama a um desconhecido que havia lhe pedido estadia para curar seu luto por um término avassalador. Considerando a distância, a artista remete o estrado e o colchão e lençóis por avião. Em “Quarto com vista”, a autora nos conta de sua performance na Torre Eiffel, desconhecidos se sucediam em uma contação de histórias com a chamada “Conte-me uma história para que eu não durma” enquanto estaria deitada e se a narrativa a fizesse dormir o visitante deveria se retirar. São muitas as núpcias catalogadas, algumas concretizadas entre fetiches e estetizações suspensas como o caso de “Núpcias do sonho” que o casamento no aeroporto fora embargado antes que o noivo embarcasse para a China.

O deboche é outro recurso manejado pela artista como no caso da máscara e do sorriso que compõe a cena de “O porco”: Calle transforma o julgamento de um anfitrião sobre seus maus modos de mastigação em uma piada sobre o ridículo dos homens que exigem submissão e se vingam com insultos infantis. Os temas da maternidade e do luto experimentam uma simbiose em um jogo aflito entre julgamentos e desejos de desrecalques. Diante da morte da mãe, a artista compra uma girafa embalsamada e a batiza com o nome dela: “Monique me olha do alto, com ironia e tristeza”. Cansada de ser nomeada como mãe de pet, decide simular uma gestação para parir Souris, seu gato de estimação, mas não leva essa performance a cabo “Será que foi porque o verão era pouco propício para andar com uma barriga falsa ou porque fiquei com medo de ser ridicularizada pelos meus conhecidos do vilarejo?”. 

A fricção entre melancolia e o fascínio pela escuta de si e do outro faz de “Histórias reais” um grande projetor de narrativas visuais sobre um feminino que se debruça, se torna perplexo e inventivo diante do abandono, da curiosidade, do desejo e da morte. Viagens, camas, vestidos de noiva, alcachofra, gravata, lápide, tudo ganha aura e testamento na linguagem concisa e nostálgica de Sophie Calle. n

LUDIMILA MOREIRA é historiadora e doutora em literatura pela Universidade de Brasília (UnB)

“Histórias reais”

De Sophie Calle

Tradução de Marília Garcia

Relicário

152 páginas

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