DESTAQUES DE 2025

'Aluvião' transforma o Rio São Francisco em matéria de poesia

Livro de estreia do artista mineiro Davi de Jesus do Nascimento une linguagem experimental, memória ribeirinha e imaginação mítica em versos em prosa

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Prisca Agustoni - Especial para o EM 

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No rico e diversificado cenário da poesia brasileira contemporânea, está difícil se mover com destreza para acompanhar as “novas vozes” surgindo e reconhecer linhas de força, em diálogo com as gerações já atuantes na cena. No entanto, às vezes algum livro logra, por sua singularidade, se destacar desse coro multifacetado e levantar um canto solo. É o caso do livro de estreia do artista plástico mineiro Davi de Jesus do Nascimento, “Aluvião”.

Publicado no segundo semestre de 2025 pela Círculo de Poemas, “Aluvião” chama a atenção por apresentar um universo imagético e simbólico coeso, peculiar, uma língua-mundo das Gerais que, apesar de longínquos ecos de herança roseana, mais pelo rumor de fundo do que pela linguagem em si, se impõe como uma tentativa de inserção de um imaginário “outro” na pulsante cena poética brasileira. 

Como aponta no texto de orelha a poeta Brenda Souza, o livro “nos coloca próximos a essa língua que flerta com o mistério”, fenômeno que, ao longo do livro, é muitas vezes representado pela morte. Trata-se, porém, de uma morte que se faz folia na linguagem (“parece folia mas é velório”, p. 15) e que reinaugura na palavra seu sopro iniciático, úmido, perto da origem do mundo: “ela tornou o segredo de nossas mortes e está viva em cada barco. ela é o rio. ela é o mar agridoce” (p.10). 

Ela, a mãe, para quem o livro está endereçado e de quem lhe chegam (nos chegam) muitas das imagens que povoam seu fértil imaginário, é frequentemente representada misturada à água: “não tem profundidade que dê conta da raiz forte guardada na orelha quente dos remos da nossa mãe. Nunca vão entender o que foi ela, a barranqueira” (p.11). A água se presentifica mesmo quando não mencionada, na função de quem rema, de quem transita pelo rio, de quem vive perto do rio e cujo corpo é o rio. Trata-se de uma cosmovisão de herança materna: a mãe é encontro das águas, a mãe é língua que – sinuosa, sonora, primeva – surge do molhado, de um nascimento constante. 

No livro a água é movimento propulsor de um imaginário que está em constante metamorfose, assim como de um afeto feminino, primeiro, sem bordas, que extensivamente acolhe uma comunidade de viventes: bichos, seres mortos, rios, peixes, crianças, avós, tias, lavadeiras, muitas mulheres. Desse ‘aluvião’, inclusive de personagens e vozes que povoam seu corpo e sua língua, enxurrada que se faz presente desde o título, irradiam-se metáforas e vivências ancestrais ligadas à descoberta de si e da própria alteridade, que nos capturam no redemoinho de uma comunidade ribeirinha, na margem do Rio São Francisco, em Pirapora. 

Pirapora, claramente identificada, se torna palco mítico dos mínimos acontecimentos, como são a escuta do canto das rãs no charco, que assumem um protagonismo de total relevância na linguagem: pois é aqui onde o livro dá uma dobra, potencializando as cenas descritas em sustos fonéticos, em imagens pujantes, em vertigens de sentido atrás da calma aparente do contexto interiorano. O silêncio onipresente no branco das páginas, envolvendo suas palavras-redemoinhos, contribui para conferir um tom de suspensão atemporal às cenas, suspensão reforçada por um caderno de fotografias antigas, inserido no meio do livro, recuperando flashes de um cotidiano piraporense.

A realidade de quem vive nesse limiar, entre a terra e a água, parece diluir-se, inclusive nas fotografias, borrar as margens nítidas da representação do mundo. Da mesma forma, sua poesia –apresentada sob a forma do poema em prosa ou do verso quase aforismático - também parece seguir esse fluxo e refluxo, levada ora por uma metáfora inesperada, ora pelo puro prazer do jogo fonético, em travalínguas que nos puxam de volta à origem, à infância da fala: “da carranca arranco o ronco da rã ruindo o raro riso raso do arroto morto” (p.25). 

A metamorfose, elemento seminal do livro, vivida como um devir dos sujeitos em outros de si, acontece principalmente na materialidade do poema, no prazer do poeta em brincar com a palavra, assim como a criança brinca com a terra, ou como os seres ribeirinhos gostam de misturarem e confundirem seus corpos com a água. De nada adianta o aparente coloquialismo ou confessionalismo, ou o tom em “menor” dos poemas– não tem nenhuma maiúscula no livro –: são apenas disfarces da enorme complexidade do pensamento popular, ribeirinho, barroco, que marca a paisagem humana, geográfica e simbólica do poeta. 

“Aluvião” é um livro quimérico, como quiméricas são as figurações dos viventes que dele emergem: metade bichos, metade humanos; insetos-anfíbios; criaturas que se dividem entre a vida e a morte, entre o reino vegetal e o reino mineral, numa paisagem fantástica atravessada por carrancas à procura de um lugar de ancoragem no passado atemporal da mãe e do mito. 

Impossível, para terminar, não lembrar do seu belíssimo trabalho como artista (várias vezes indicado ao Prêmio Pipa) e de seu gesto de brincar com os limiares entre a terra e a água, representado pela sequência de suas aquarelas (expostas em Belo Horizonte em 2024 no Palácio das Artes, na mostra solo “madeira doce, água áspera”) que apresentam criaturas de contornos fantasmagóricos, híbridos. 

Ao ler o impactante “Aluvião”, parece que a dimensão plástica não basta ao Davi-artista para fixar aquilo que, em sua peculiar forma ribeirinha de se reportar ao espaçotempo, está em perene acontecimento, como o deslizar sonoro da carranca no rio. Por isso agora ele se metamorfoseia no Davi-poeta, que com sua língua-embarcação se lança ao desafio, felizmente fadado ao fracasso, de transportar para nossa margem o sentido de um mundo belíssimo, porque inexplicável. 

PRISCA AGUSTONI é poeta, tradutora e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora 

“Aluvião”

De Davi de Jesus do Nascimento

Círculo de Poemas/Fósforo

120 páginas

R$ 69,90

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O AUTOR NAS PRÓPRIAS PALAVRAS

“quando nasci alevim, em 1997, no fulgor norte-mineiro, banharam-me com o mesmo nome de meu pai, Davi de Jesus do Nascimento. sou barranqueiro curimatá, arrimo de muvuca e escritor fiado. gerado às margens do Rio São Francisco – curso d’água de minha vida – trabalho coletando afetos da ancestralidade ribeirinha e percebendo “quase-rios’’, no árido. fui criado dentro do emboloso da cumbuca de carranqueiros, pescadores e lavadeiras. o peso de carregar o rio nas costas bebe da nascente dos primeiros sóis que chorei na vida. sustentar na cacunda a carranca tem feito eu sentir a força do vento de minha taboca envergada no seguimento da rabiola solta que desceu em espiral gongo caracol envoltório para o calcanhar direito como cobra, isca, peixe e pedra.”

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