“Um romance de memória”. Assim Cristovão Tezza define o livro escrito a partir de 26 cadernos de anotações deixados pelo pai, João Batista, que morreu quando o autor de “O filho eterno”, nascido em 1952, tinha apenas seis anos de idade. “Não escrevi nem uma biografia objetiva, nem um estudo sociológico, nem uma autoficção tradicional. Fiz uma viagem conduzida pela memórias documental e familiar, e não pelos fatos em si”, afirma o escritor catarinense, radicado em Curitiba, em entrevista ao Estado de Minas sobre “Visita ao pai” (Companhia das Letras).

Da entrada no Exército e a mudança do interior para Florianópolis, em 1931, até a morte após um acidente de lambreta, em 1959, o professor e advogado João Batista Tezza manteve a “obsessão compulsiva” de registrar, em cadernos pautados, o seu cotidiano e transcrever cartas, documentos, telegramas, bilhetes. “Ele anotava realmente tudo: era um tabelião de si mesmo, mantendo uma compulsão infantil de arquivista”, narra Cristovão em “O quartel”, primeiro dos 46 capítulos do livro de 448 páginas a respeito de “uma vida cortada ao meio” e recriada pela prosa fluente e cristalina de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

O “filho escritor” não se limita a narrar a vida do pai a partir das anotações. Além de reflexões sobre a própria trajetória profissional, Tezza se impôs o que chama de “tarefa impossível”: “Descobrir em que instante nos tornamos nós mesmos, como um estalo na casca do tempo.” Para isso, foi fundamental o trabalho de contextualização dos fatos anotados por João Batista à luz das transformações sociais, políticas e econômicas ocorridas na região sul do Brasil na primeira metade do século 20. O livro, portanto, é mais do que uma ‘visita ao pai’; é uma incursão no país que fascinou – e desiludiu – o mais velho de nove irmãos de uma família de descendentes de italianos. 

“Ele seguia o clássico caminho trilhado por milhares de brasileiros, movendo-se para a capital em busca de uma vida melhor. Tento imaginá-lo daqui, quase um século depois, alguém que eu não cheguei a conhecer, exceto em poucas e vagas memórias infantis, e não muito boas”, reconhece Cristovão Tezza. “Em vários momentos percebi a distância entre a tradicional memória familiar, aquilo que se diz em casa e que as crianças absorvem, o imaginário caseiro que nos explica e tranquiliza, e os fatos em si, que as cartas indiretamente revelavam”, conta o escritor, nascido em Lages, autor de 25 livros e vencedor dos prêmios Jabuti, APCA, São Paulo e Portugal Telecom com o romance “O filho eterno”.

Em “Visita ao pai”, o ficcionista compartilha descobertas, dúvidas, lacunas, traumas familiares. Compara decisões do pai com o próprio comportamento em situações de ruptura, breves momentos de grandes consequências “que todas as pessoas, em algum momento, quando ainda não sabem exatamente o que são, o que vão ser, o que os aguarda, têm de passar.” 

Ao se reconhecer como integrante de uma “geração inebriada” e se enxergar “no espelho do privilégio” por ter se permitido entrar no ensino superior apenas depois de uma experiência de vida comunitária, Cristovão Tezza acentua as diferenças de visão de mundo para o carteiro de Lages, “caso exemplar da criação da classe média de um Brasil modernizante que ainda engatinhava no horizonte” e que tenta, por meio da linguagem, determinar sua condição social.

O filho aponta algumas das heranças deixadas por um pai ausente nas lembranças e presente nas palavras: o instinto de autonomia, o senso de responsabilidade pessoal, a “busca de alguma coisa que dê simultaneamente o pão e a paz”. “Ambos fizemos do ato de escrever o centro de nossas vidas”, reconhece o autor, ao destacar a tentativa de João Batista de alcançar a transcendência por meio da escrita. Assim fez o pai em seus cadernos. Assim faz o filho em uma disfarçada, inquietante e reveladora autobiografia.

"“Não escrevi nem uma biografia objetiva, nem um estudo sociológico, nem uma autoficção tradicional. Fiz uma viagem conduzida pela memória, memória documental e memória familiar, e não pelos fatos em si. Vou seguindo o que o meu pai revela nas cartas, mas não sei o que de fato aconteceu.”"
por Cristovão Tezza

João Batista Tezza (1911-1959): início das anotações ao entrar no exército como soldado, em fevereiro de 1931

Reprodução e Arquivo Pessoal

Entrevista // Cristovão Tezza

Como surge “Visita ao pai”? 

Foi um livro de lenta maturação. Desde criança eu sabia dos cadernos do meu pai, mas eles nunca me interessaram especialmente: eram só uma curiosidade. Quando terminei meu último romance, “Beatriz e o poeta”, enfim comecei a pensar em escrever alguma coisa sobre eles. Nada nítido — apenas um vago desejo. O primeiro impulso foi trazer os cadernos aqui para o escritório, deixá-los à vista. Em seguida, meio às cegas, comecei a escrever uma espécie de reflexão pessoal, a partir da leitura errática de algumas cartas do meu pai. Mas abandonei essas primeiras páginas e passei a fazer uma leitura sistemática de todos os cadernos, do começo ao fim, ainda sem um plano. Pouco a pouco o livro foi tomando forma e me conduzindo. O projeto se fez enquanto eu avançava.

Como podemos definir o livro?

Ao contrário de todos os meus livros anteriores, “Visita ao pai” nasceu naturalmente sem concepção de gênero: uma reflexão pessoal, uma análise documental, percepções literárias, uma narrativa que cruza memória e imaginação, uma história de família. Acabei por chamá-lo de “romance da memória”, a partir da sua constituição narrativa: eu conto uma história, baseado em fatos reais. É uma definição imprecisa, assim como o próprio conceito de romance, este camaleão que atravessa os séculos. A não-ficção predomina, mas não esgota o projeto: não escrevi nem uma biografia objetiva, nem um estudo sociológico, nem uma autoficção tradicional. Fiz uma viagem conduzida pela memória, memória documental e memória familiar, e não pelos fatos em si. Vou seguindo o que o meu pai revela nas cartas, mas não sei o que de fato aconteceu. Num momento eu digo que na vida é a imaginação que nos move, não os fatos. O que determina nossa vida não são as coisas em si, todas inexoráveis, mas a imagem fluida que fazemos delas. O imaginário familiar, mesmo o mais falso — e a família é o terreno da fantasia por excelência —, tem muito mais peso que a frieza simples dos acontecimentos.

O que o fez acreditar que as anotações de seu pai poderiam ser o ponto de partida para um novo livro?

Antes de mais nada, as anotações são um gesto impressionante da vontade pessoal — meu pai passou seus quase 30 anos de vida letrada, desde que entrou no Exército, transcrevendo em cadernos praticamente todas as cartas que escreveu na vida, além de documentos, telegramas e até dedicatórias de livros ou fotos. O estranho é o instinto puramente documental; não se trata de um diário íntimo, de reflexões filosóficas, de viajadas poéticas (embora um pouco disso transpareça por acaso aqui e ali); ele transcreve fielmente “documentos”, cartas para pessoas reais. São muito raras as semanas em que não há anotações. Isso certamente quer dizer alguma coisa, imaginei — eu fui atrás desse sentido. Para isso serve a literatura: buscar sentido.

Por que afirma, no início do livro, que não desejava fazer um romance histórico, por isso não iria “conversar com meu pai sob o álibi da ficção”?

Eu não queria me afastar mais ainda do meu pai, a quem eu praticamente não conheci; ele morreu quando eu tinha seis anos. Eu quis me aproximar, chegar perto dele, e para isso eu teria de manter intacta a sua palavra original, o mais fielmente possível, até na ortografia. A ficção pura iria desgarrá-lo de mim, levá-lo para longe, transformá-lo em outra pessoa, colocá-lo por completo a meu serviço — é isso que os ficcionistas fazem; eles se afastam. Mas a não ficção também é impura: ninguém consegue escrever o mapa de Borges, que seria idêntico ao fato que representa. É preciso escolher, selecionar, depurar, interpretar, reduzir. O frágil fio que me manteve como narrador foi a intenção de fidelidade, o desejo de não me afastar muito do homem que se oculta nas cartas.

O que mais o surpreendeu nos registros?

Em vários momentos percebi a distância entre a tradicional memória familiar, aquilo que se diz em casa e que as crianças absorvem, o imaginário caseiro que nos explica e tranquiliza, e os fatos em si, que as cartas indiretamente revelavam. O mais surpreendente foram alguns detalhes da vida da minha mãe, coisas que eu jamais soube e que se escancaram na correspondência. Em alguns momentos ela também transcreveu suas cartas nos cadernos (e às vezes o meu pai mesmo as copiava). O que é visível é que ela, por formação de infância, tinha um domínio da escrita mais sofisticado que o meu pai.

O que representou, para seu pai, o domínio da linguagem escrita? E para você?

Para meu pai, o domínio da escrita era o único caminho possível de mobilidade social, e ele sabia perfeitamente disso. Depois de trabalhar muito jovem, ainda adolescente, como peão de estrada no interior do Rio Grande do Sul e do Paraná, a admissão no quartel de Florianópolis como soldado foi o acesso possível ao mundo das letras e da educação, um caminho em que ele se manteve com vontade férrea, até se formar advogado. Enquanto que para mim, em um outro Brasil, trinta anos depois, a educação letrada já era parte inseparável da vida urbana, mesmo sob a segregação social que se mantinha (e ainda hoje se mantém entre ensino fundamental público e privado, origem e fruto da nossa tradicional desigualdade desde crianças). Isto é, a minha geração viveu facilidades culturais impensáveis para a geração e a classe social do meu pai.

 

Como o interesse e o envolvimento de seu pai com a política, com o fascínio inicial pelo Integralismo, refletem aquele momento da relação do cidadão com a possibilidade de poder? Consegue estabelecer paralelos com o atual momento do país?  

O primeiro sinal político que aparece nas cartas, ainda na sua vida de soldado na década de 1930, é justamente uma referência a uma palestra de Plínio Salgado (com a presença de outras figuras importantes do Integralismo), que o deixou impressionado a ponto de enviar revistas do movimento para os parentes. É um entusiasmo juvenil que logo se apaga, provavelmente por contradições da sobrevivência — ele será ajudado, quando ainda carteiro em Lages, pela família Ramos (Nereu Ramos, que seria interventor no período Vargas, e Celso Ramos, político importante da família, adversários do Integralismo). Graças a eles, depois de concluir o curso de Madureza (o supletivo da época), meu pai demite-se dos Correios e começa a dar aulas em Florianópolis. Mas ele só vai se interessar objetivamente por política — com alguma ambição de se candidatar — em meados dos anos 1950, pouco antes de morrer. Decididamente, as cartas demonstram, ele não tinha de fato vocação política.

Um aspecto central que me chamou atenção foi o paralelo entre as circunstâncias de seus anos de formação, sob a longa ditadura Vargas, e os meus anos de formação, sob a também longa ditadura militar dos anos 1960 em diante, um período espelhando o outro, num mesmo Brasil que patina desde sempre. Esse paralelo acabou conduzindo boa parte do “Visita ao pai”.

É a sombra de um país que prossegue viva: há pouco tempo, tivemos a tragédia do governo Bolsonaro, que, entre outros desatinos, como a recusa medieval à vacina no meio de uma pandemia, se dedicou do primeiro ao último dia a planejar um golpe de Estado, sustentado por um imaginário autoritário que entre nós nunca sai de cena.

Cartas, ao longo dos séculos, se tornaram documentos preciosos e/ou matéria-prima para ficção, nos chamados “romances epistolares” – e seu pai reproduz muitas das cartas que enviou nas anotações. O que se perdeu no século 21 com o fim do hábito da correspondência?   

É uma ironia: com o advento da internet, ainda nos anos 1990, eu sonhei com alguma nova revolução iluminista que recolocasse a palavra escrita, devorada pelo triunfo da televisão, no centro do mundo. Afinal, diante do computador, ler e escrever eram exigências absolutas: o teclado vinha junto. Por um curto momento isso parecia verdadeiro: lembro da fúria dos professores, indignados contra os males do computador, as pessoas grafando “casa com zê”, “saudade com cedilha” — na verdade, eram milhões de pessoas de um mundo ágrafo abrindo pela primeira vez a porta da escrita. O e-mail surgia como a epístola dos novos tempos.

Mas a fragilidade do meio digital, palavras ao vento, logo mostrou sua força — a correspondência simplesmente desapareceu da vida das pessoas, uma vida que também já se tornava completamente outra, sinalizando uma espécie de morte do indivíduo e de sua privacidade.

O advento avassalador do celular e sua portabilidade onipresente foram as últimas pá de cal no enterro do século 20. O velho hábito da correspondência era a expressão de relações sociais e pessoais que não existem mais: o espírito da solidão, o valor da intimidade, a introspecção, as relações analógicas, a geografia pessoal, os filtros culturais institucionais, tudo isso virou pó; a linguagem hoje só consegue se realizar aos gritos caóticos no púlpito universal da internet, sempre dirigida a todos e a ninguém. O conceito de indivíduo foi soterrado: ele não existe mais. A destruição é também moral: indivíduos começam a ser percebidos como seres nocivos. As vozes só podem existir como expressão coletiva, num lento movimento tectônico de essência político-religiosa.

Pressinto que estamos vivendo um retorno ao espírito da Idade Média, numa forte deriva cultural regressiva, mas, é claro, sem o charme que a perspectiva histórica nos dá. Bem, talvez essa seja uma ideia excessivamente literária. Escritores exageram.

Cadernos de João Batista Tezza

Reprodução

Em muitas passagens do livro, você se coloca, em primeira pessoa, lembrando ter vivido o “inescapável espírito do tempo” e confrontando passagens da vida do seu pai com a sua, ressaltando diferenças geracionais. Em certo sentido, “Visita ao pai”  é, também, o retrato de duas gerações?

Eu não pensei nisso, mas o livro acabou indo nessa direção, pelo contraste entre a vida do meu pai e a minha, o que ficou mais nítido pelo corte que representou a morte dele para mim. Não houve uma passagem geracional por etapas, como acontece normalmente com as pessoas; foi um corte abrupto. De repente eu estava entrando nos anos 1970, sem pai nem referência, como se a vida começasse ali.

Consegue enxergar conexões, além, claro, das familiares, entre “Visita ao pai” e “O filho eterno”?

São dois livros brutalmente pessoais, por assim dizer. Mas são concepções literárias bem distintas. O que me levou ao meu pai foram as cartas, e daí a escrita do livro foi me conduzindo meio por conta própria. O livro não nasceu de uma inquietação pessoal íntima, como no caso de “O filho eterno”. No livro sobre meu filho, o problema era eu; no “Visita”, o problema é meu pai.

Em uma das digressões do livro, você se pergunta: “Em que sentido sou ou não sou um escritor brasileiro?” Chegou à resposta?

Era um pergunta retórica, provocada por um estrangeiro olhando o Brasil; o que define a nação do escritor é a sua língua e, é claro, eu tenho a língua brasileira nos poros e no espírito desde sempre. Como a língua não é um instrumento frio, mas uma rede inextricável de relações, sentidos e afetos, não há escape possível. A existência de escritores que mudam de língua — figuras monumentais como Conrad ou Nabokov — sempre me assombrou, porque se trata de um transplante de alma, uma viagem sem volta. Uma das questões que o “Visita ao pai” enfrenta  é a chamada “brasilidade” e a sua instrumentalização, esse fantasma que, desde Alencar, assombra a literatura brasileira.

Por que seu pai escreveu? O que o aproxima e o difere dos motivos pelos quais você escreve?

Na obsessão cartorial dele se cruzavam variáveis diferentes: o desejo de estudar, o traço compulsivo da determinação pessoal, a percepção social da importância da escrita (detalhe que transparece bastante na correspondência) e, enfim, um projeto literário que ele não tem coragem de nomear mas que num momento escapa, ao dizer a um amigo que ainda vai escrever o “romance” de sua vida. É bem provável que ele visse a sistemática anotação das cartas como a base do projeto futuro.

Para mim, em outro tempo e outras condições, bem mais confortáveis que as dele, o projeto de escrever já nasceu literário desde o primeiro verso escrito: aos treze anos eu já me via, arrogante, como escritor.

“Tento encontrar meu pai em mim.” Encontrou? Que pai foi esse que foi encontrado? E que país era esse onde viveu seu pai?

Difícil dizer. Eu encontrei algumas pistas no “Visita ao pai”, mas é um quebra-cabeças sem resposta. Obviamente, há um abismo cultural entre a visão de mundo do meu pai e a minha (os anos 1960 viraram o mundo de cabeça para baixo), mas percebo em mim traços e manias que talvez tenham vindo dele (o sentido da organização, o prazer do método, o espírito realista, a compulsão da escrita, um instinto conservador — e até mesmo o gosto dele por fotografia, quando jovem, uma surpresa para mim). Mas vivi também o contraponto emocional explosivo da minha mãe, o que é outra história. Ela foi praticamente forçada a casar com o meu pai, as cartas revelam, o que, é claro, marcará sua vida. 

“Visita ao pai”

De Cristovão Tezza

Companhia das Letras

448 páginas

R$ 89, 90

Trecho 

(De “Visita ao pai”, de Cristovão Tezza) 

“Meu pai começa a alimentar um certo orgulho da própria solidão e das conquistas de seu aprendizado; os toques de ressentimento que aqui e ali deixa transparecer vão se transformando defensivamente em sentimento de superioridade e condenação moral, ainda que tenha uma clara noção de seus limites:

As vezes sou criticado, sobre este ponto de vista, por indivíduos destituídos de qualquer conhecimento; - colegas – posso afirmar – vegetam mas não vivem; quando os oço volvo-lhe as costas e ensurdeço.

Permiti vós que eu  dê por terminado este ponto: se me detiver pretendendo descrevel-o todo bem detalhado como desejo, seriam precisas muitas folhas de papel, algumas pennas, e talvez mais de um vidro de tintas; mesmo assim, com minha pouca cultura ser-me-a impossível.

O sentimento de solidão às vésperas do Carnaval deve ter sido grande naquele fevereiro de 1935, com as férias previstas canceladas. Enquanto o Carnvaal explodia nas ruas, o primeiro-cabo João Batista, trancado no alojamento do quartel, prossegue seu incansável relatório à família, agora com uma espécie de metacrítica: A carta que ora vôs escrevo é succeptivel de critica por ser muito longa e em muitos trechos sahir do estylo epistolar (do latim epistola = carta) para trilhar o caminho da descripção.

E é engraçado como o texto, como numa aula, avança da “descrição técnica” do gênero (cartas de intimidade, cartas de negócios etc.) para uma avaliação moral: A carta é o grande leme para se conhecer o valor do estudante, é na carta que se revelam todas as tendências; a energia ou a fraqueza com que o mesmo lucta na senda da vida. “Energia”, “fraqueza” e “luta” são palavras sintomáticas, ecos dos fantasmas do tempo daquele 1935 no Brasil e no mundo, e ao mesmo tempo uma pequena síntese de como o meu pai vê a própria vida: nem dádiva, nem prazer – apenas uma dura missão a cumprir, suavizada às vezes pelo sopro da nostalgia.

De novo penso em mim neste espelho.      

Premiado três vezes, romance “O fotógrafo” ganha reedição

Lançado em 2004 e vencedor dos prêmios da Academia Brasileira de Letras, prêmio Bravo! e Jabuti de melhor romance, “O fotógrafo” ganhou nova edição da editora Record. “É um romance especial porque abriu uma nova fase da minha escrita, depois de um longo intervalo”, reconhece Cristovão Tezza.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O autor lembra que, no final dos anos 1990, havia interrompido a produção ficcional para se dedicar integralmente à vida acadêmica e ao doutorado. Os estudos o levaram a publicar o ensaístico “Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e o formalismo russo” em 2003. “Não sei que influência esse longo mergulho teórico teve na minha ficção, recomeçada com ‘O fotógrafo’, que abriu alguns caminhos da minha linguagem literária”, analisa. “Logo em seguida escrevi ‘O filho eterno’,  que foi um grande sucesso e de fato mudou minha vida”, lembra: “Larguei a Universidade e passei, enfim, a viver da literatura e seus derivados (eventos e palestras), o que na época ainda era uma façanha rara.” 

compartilhe