Tarso de Melo - Especial para o EM
É sempre uma grande notícia a reedição dos livros de poesia de Murilo Mendes (1901-1975). E por várias razões. Primeiro, porque, neles, você vai encontrar alguns dos mais incríveis poemas da língua portuguesa de todos os tempos. Segundo, como se não bastasse, porque Murilo ocupa um lugar único — frise-se: único — no modernismo brasileiro, ou melhor, em toda a poesia brasileira. E, terceiro, porque ele, como poucos, é nosso contemporâneo, chegando agora, nos anos 20 deste século, com o frescor, o humor, a rebeldia, o vigor, que o distinguiram já a partir dos anos 20 do século passado.
Justamente por isso, é curioso — e lamentável — que a poesia de Murilo Mendes circule de modo tão lacunar. A edição de sua “Poesia completa e prosa” (Nova Aguilar, 1994) tornou possível a leitura de títulos que, nas décadas anteriores, eram de dificílimo acesso. De lá para cá, isso não mudou muito: a Cosacnaify lançou, há mais de dez anos, alguns livros separados, e nos últimos anos a Companhia das Letras começou a lançar sua prosa, mas o leitor que quisesse ter contato com o conjunto da poesia de Murilo teria que dar a sorte grande de encontrar a edição da Nova Aguilar.
A mais recente edição da Companhia das Letras, sob os cuidados de Augusto Massi, Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura, que há tempos se dedicam a manter a poesia de Murilo Mendes no lugar que ela merece, vem solucionar esse problema. Em mais de 900 páginas, o volume reúne todos os livros de poemas publicados por ele, de “Poemas” (1930) a “Convergência” (1970). Além disso, traz também os poemas italianos de “Ipotesi” e outros não reunidos em livro, traduzidos por Maurício Santana Dias; os poemas franceses de “Papiers”, traduzidos por Júlio Castañon Guimarães; outros conjuntos de poemas (“O infinito íntimo”, “Quatro textos evangélicos”, “A invenção do finito” e “Conversa portátil”); a comunicação “O poeta e a terra dos homens”, apresentada na Exposição Universal de Montreal, em 1967; e, por fim, ensaios críticos de Davi Arrigucci Jr., Murilo Marcondes de Moura e Júlio Castañon Guimarães.
Mas quem foi Murilo Mendes? Nascido em Juiz de Fora (MG) em 1901, o grande fato de sua infância se dá, digamos, bem longe de sua cidade natal: no espaço sideral. Em 1910, ele se deslumbra com a passagem do cometa Halley: “Durante as três noites em que apareceu não dormi um minuto sequer e talvez tenha sido esse o primeiro instante em que me senti tocado pela poesia”. Outro “cometa” que passa pela vida de Murilo é o bailarino Nijinski, quando ele foge do internato em Niterói para o assistir ao balé russo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Muitos anos depois, citando Halley, ele escreverá sobre essa experiência: “Tenho 16 anos, logo rejeito a dimensão comum do mundo. Precipita-se o carro do meu destino. Alço-me à faixa do relâmpago”.
Essa paixão por “cometas” — e pela poesia — talvez explique a dificuldade de Murilo para se manter em ocupações mais terrestres: entra e sai de diversas instituições de ensino; assume e abandona diversos empregos que lhe foram conseguidos por seus parentes e amigos; aproxima-se e rompe diversas vezes com familiares, grupos, associações... Constantes, na vida de Murilo, são apenas a dedicação à poesia, às artes, à colaboração com jornais e revistas. Apenas por volta dos 50 anos, já casado com Maria da Saudade Cortesão, começa a construir a “carreira europeia”, bem mais próxima de sua vocação, que lhe daria os melhores frutos nos últimos anos de vida (a convivência com artistas e intelectuais na Europa, o cargo de professor nas universidades de Roma e de Pisa, melhores edições brasileiras e europeias de sua obra, participação em festivais internacionais de grande prestígio, o prêmio Etna-Taormina 1972, entre outros). Murilo morreu em Lisboa, em agosto de 1975, durante férias com sua esposa.
“Passagem de cometa”
“Vou onde a Poesia me chama”. A poesia escrita por Murilo Mendes é, a meu ver, em tudo condizente com essa “passagem de cometa” que foi sua aventura pelo século 20: tempo histórico, sim, mas sobretudo “elástico”, que, aliás, sua obra nos ensina a ver como uma fração da eternidade. Desde o primeiro livro, é ele próprio a “matéria em convulsão ardendo para se definir” e, a cada novo título, mergulha ainda mais na experimentação dessa “alma que não conhece todas as suas possibilidades”.
Nas mais de cinco décadas de “Poesia completa”, é tão fácil quanto espantoso constatar que a inquietação de Murilo nunca baixa a frequência, das questões estéticas às existenciais, entre Juiz de Fora e o cosmo, entre “as meninas que eu gostei” e o enigma de Deus, e talvez por isso sua obra ostente tantas “cicatrizes da liberdade” (como diz um de seus poemas mais impressionantes, “Aproximação do terror”), isto é, aquilo que Joana Matos Frias definiu como “irregularidade essencial” em sua poética.
Também por conta dessa inquietação, dessa escrita que tem fome e se alimenta de “novas perturbações” (para citar novamente “Aproximação do terror”), a efervescência artística do século 20 lhe cai como uma luva. Como disse José Guilherme Merquior, enquanto Mario, Oswald e Bandeira “chegaram ao modernismo”, Murilo e Drummond “nasceram modernistas”. E isso se pode dizer de cada volta da espiral em que Murilo dialogou com outras tendências que encontrou no caminho (surrealistas, concretistas etc.).
É tentador fazer o paralelo de vida e obra com Drummond, seu parceiro de geração, nascido apenas um ano depois (e que morreria mais de uma década depois de Murilo). Eles partem quase do mesmo ponto, mas, em muitos momentos decisivos, parece que, onde havia uma bifurcação, decidiram seguir caminhos diferentes. Infelizmente não é possível aprofundar essa questão aqui, tampouco detalhar o comentário que cada livro certamente merece, mas fica a nota: que sorte a nossa ter Murilo Mendes de volta às livrarias e aos leitores. Que esse cometa fique sempre por aqui!
TARSO DE MELO é poeta e editor do Círculo de Poemas. Autor de “As formas selvagens da alegria” (Alpharrabio, 2022) e “Desdobrar Paulo Leminski” (Impressões de Minas, 2025), entre outros.
“Poesia completa”
De Murilo Mendes
Organização de Augusto Massi, Julio Castañon e Murilo Marcondes de Moura
904 páginas
R$ 299,90
Canção do exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil-réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
[Poemas, 1925-1929]
*
Pós-poema
O anteontem — não do tempo mas de mim —
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.
[Poesia liberdade, 1943-1945]
*
Montanhas de Ouro Preto
A Lourival Gomes Machado
Desdobram-se as montanhas de Ouro Preto
Na perfurada luz, em plano austero.
Montes contempladores, circunscritos
Entre cinza e castanho, o olhar domado
Recolhe vosso espectro permanente.
Por igual pascentais a luz difusa
Que se reajusta ao corpo das igrejas,
E volve o pensamento à descoberta
De uma luta antiquíssima com o caos,
De uma reinvenção dos elementos
Pela força de um culto ora perdido,
Relíquias de dureza e de doutrina,
Rude apetite dessa coisa eterna
Retida na estrutura de Ouro Preto.
[Contemplação de Ouro Preto, 1949-1950]
*
Final e começo
Lacerado pelas palavras-bacantes
Visíveis tácteis audíveis
Orfeu
Impede mesmo assim sua diáspora
Mantendo-lhes o nervo & a ságoma.
Orfeu Orftu Orfele
Orfnós Orfvós Orfeles
FIM?
[Convergência, 1963-1966]
