'Eram profissionais fazendo gambiarra', diz mãe de vítima da Voepass
Parentes dizem que indiciamento de 16 pessoas encerra etapa e abre nova frente por justiça
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Parentes de vítimas do acidente com um avião da Voepass, que matou 62 pessoas em 9 de agosto de 2024, após cair em Vinhedo, no interior de São Paulo, dizem que agora vai começar nova um etapa com o indiciamento criminal de 16 pessoas pela tragédia.
A Polícia Federal apresentou nessa quinta-feira (6/8), em São Paulo, o relatório com a conclusão das investigações a representantes das famílias.
O indiciamento foi divulgado às vésperas de a tragédia completar dois anos, no próximo domingo (9/8).
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"Estamos fechando um ciclo e começamos um de mais luta ainda", afirmou Fátima Albuquerque, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do voo 2283.
O indiciamento é uma etapa da fase policial em que a autoridade indica provas suficientes contra suspeitos. Agora, o Ministério Público Federal deve avaliar o inquérito para decidir se oferece uma denúncia criminal à Justiça Federal.
Caso a Justiça aceite a denúncia, tem início uma ação penal, fase na qual a defesa e a acusação apresentam os argumentos que o juiz responsável apreciará. Não há prazo para isso ocorrer.
O advogado Thalles Andrade, que representa a associação de famílias, acredita que o processo judicial será longo.
A PF apresentou uma medida cautelar à Justiça Federal nessa quinta, e o pedido foi aceito, segundo a polícia, impedindo que os indiciados saiam do país. Por enquanto, a PF descartou pedidos de prisões preventivas.
"Nos sentimos esperançosos, mas é preciso não tirar o olho. Eles precisam ser punidos, não só para a aviação civil, mas para a construção, para as fábricas e para qualquer empresa que tenha esse tipo de modus operandi criminoso", disse Fátima.
Ela é mãe da médica Arianne Risso, uma das vítimas do acidente. "A gente recebe com profunda indgnição [o resultado do relatório], mas com grande esperança que a partir disso nunca mais vai ver um acidente aéreo sem resultado."
Conforme a investigação da Polícia Federal, a tragédia foi resultado de uma sucessão de falhas operacionais e de manutenção, e não de um evento isolado.
A investigação conclui que a aeronave foi despachada para uma rota com previsão de condições de formação de gelo. O modelo ATR 72-500 não é certificado para operar nessas condições e apresentava falhas conhecidas no sistema de degelo, o que deveria impedir seu despacho.
Os peritos apontam ainda que a empresa mantinha uma cultura organizacional de omissão de registros de panes e de priorização da disponibilidade da frota em detrimento da segurança operacional.
Segundo eles, isso permitiu que problemas recorrentes persistissem até culminarem na perda de controle da aeronave após o acúmulo de gelo nas superfícies aerodinâmicas.
Em nota, a companhia aérea disse que "a segurança operacional sempre foi sua prioridade". "Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações."
Acrescentou que a tripulação do voo 2283 era "composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo". A empresa disse ainda que colabora desde o início das investigações e solidariza com as famílias das vítimas.
"A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente."
Para a presidente da associação, pessoas que acabaram indiciadas foram convencidas a cometerem crimes.
"Eram profissionais preparados, engenheiros formados na USP (Universidade de São Paulo), fazendo gambiarra em uma aeronave que iria matar. Todos sabiam que aquela aeronave iria cair. Só são não sabia quem subiu naquela aeronave, como minha filha, e os filhos de mães e pais."
Entre as pessoas que estão sendo responsabilizadas pelo acidente está o presidente da empresa, José Luiz Felício Filho, e os então diretores Eric Cônsoli, David da Costa Faria Neto, Carlos Alberto Costa e Marcel Sarquis Moura. Também estão na lista pilotos, despachantes operacionais e funcionários ligados ao centro de controle.
Para a jornalista Adriana Ibba, 38, mãe da menina Liz, uma das vítimas do acidente, na época com 3 anos, o inquérito foi muito bem cronstruído e trouxe materialidade para as provas do crime. "Agora é trabalhar para que esses indiciados respondam pelos seus atos."
O advogado Andrade afirmou que, paralelamente, a associação irá propor uma ação coletiva por danos morais contra todos os responsáveis, pessoas físicas e jurídicas, incluindo diretores, empresas envolvidas na operação e na comercialização das passagens e todos os que, por ação ou omissão, tenham contribuído para o acidente.
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"A expectativa sempre foi de que fosse realizado um trabalho técnico, preciso e capaz de apontar, de forma robusta, os responsáveis por essa tragédia", disse.