FOLHAPRESS - Um adolescente brasileiro, que mora na França, investigado por patrocinar pelo menos 15 ataques a escolas e creches, virou alvo de um alerta azul da Interpol após investigação da Polícia Civil de São Paulo. Um ano e meio depois, a corporação afirma que ainda não recebeu informações da França sobre as providências adotadas no caso.
A delegada e coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), Lisandréa Salvariego Colabuono, explica que essa é uma das dificuldades enfrentadas pelas autoridades brasileiras no combate à radicalização on-line.
A investigação conduzida pelo núcleo identificou que o adolescente, de 16 anos, financiava ataques planejados em diferentes estados brasileiros e atuava na indução de meninas à automutilação e ao suicídio. Para a delegada, o caso não é um episódio isolado, mas parte de um fenômeno crescente de violência extrema praticada e estimulada pela internet.
"É um adolescente infrator que financia ataques em creches e escolas no Brasil. E também induz meninas à automutilação e ao suicídio. Esse caso é um caso típico de radicalização online, de violência extrema on-line. Esse menino financiou alguns ataques, que não se concretizaram porque a gente estava no monitoramento", diz a delegada.
Segundo ela, nenhum dos 15 ataques, planejados para diferentes regiões do país, chegou a ser executado.
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Investigação
A delegada detalhou que, depois da identificação do adolescente, a investigação prosseguiu até o limite da competência das autoridades brasileiras. "A partir daí, as informações foram compartilhadas com a Polícia Federal (PF), que fez o encaminhamento internacional por meio da Interpol. O alerta saiu da PF. Prosseguimos nas investigações até onde chegou a competência da PF. Em seguida, acionamos via canal exclusivo que temos com eles."
Como o investigado era menor de idade, foi emitido um alerta azul da Interpol, utilizado para localização e troca de informações sobre investigados internacionalmente. "Adolescente não pode entrar com um alerta vermelho."
Desde então, porém, a Polícia Civil paulista diz não ter recebido atualização sobre as medidas adotadas pelas autoridades francesas. "Ele sumiu depois de uns dois meses. O que eu deduzo é que alguma providência tenha sido tomada. Mas não há obrigatoriedade de eles nos informarem o que foi feito. Até por questões de direito internacional."
A delegada explica que esse tipo de situação faz parte da própria dinâmica da cooperação internacional. O objetivo do compartilhamento é alertar o país onde o investigado está localizado para que as medidas cabíveis sejam adotadas pelas autoridades locais.
Na avaliação dela, o caso guarda semelhanças com o do jovem português condenado no início do mês por cumplicidade moral em uma tentativa de ataque no Brasil. Apesar disso, ressalta que a Polícia Civil paulista não participou daquela investigação. "O caso de Portugal, por exemplo, não é uma exceção. Nós temos outros casos equivalentes. Um deles é esse."
Noad
Criado após a sequência de ataques a escolas registrada no país, o Noad atua com foco em inteligência e prevenção. Diferentemente de uma delegacia, a unidade não preside inquéritos policiais, mas monitora plataformas digitais, trata informações e produz relatórios que subsidiam investigações conduzidas por outras unidades da Polícia Civil.
Foi a partir desse monitoramento, destaca a delegada, que os investigadores passaram a perceber que diferentes modalidades de crimes estavam conectadas. O trabalho do núcleo é permanente e combina monitoramento próprio com informações enviadas por diferentes órgãos, inclusive do exterior. "Também recebemos reports, que são alertas, relatórios técnicos de outros lugares, até de outros países, que vêm via Polícia Federal, sobre um provável ataque, um provável suicídio ou uma provável indução à automutilação."
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Ao receber um alerta, a equipe faz a análise das informações, solicita as medidas iniciais cabíveis e encaminha o caso para a unidade responsável pela investigação.
