Formada pela UFMG, atua no jornalismo desde 2014 e tem experiência como editora e repórter. Trabalhou na Rádio UFMG e na Faculdade de Medicina da UFMG. Faz parte da editoria de Distribuição de Conteúdo / Redes Sociais do Estado de Minas desde 2022
Drauzio Varella defendeu que o SUS funciona melhor que o NHS, do Reino Unido crédito: Ze Paulo Cardeal/Tv Globo
Em coluna publicada no jornal Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (29/1), o médico Drauzio Varella defendeu o Sistema Único de Saúde (SUS) e criticou a idealização do National Health System (NHS), do sistema público de saúde do Reino Unido, frequentemente citado como modelo superior ao brasileiro. A partir de um relato pessoal, o autor do livro “Carandiru” expõe falhas estruturais do sistema inglês e aponta o que considera um traço recorrente da cultura nacional: o desprezo pelo que é público no Brasil.
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No texto, Drauzio fala de um amigo que morava em Londres e que estava com muita tosse. Ele havia se engasgado com uma cápsula e, mesmo diante do risco, recusava-se a procurar atendimento médico. O motivo era a experiência recente em unidades de emergência britânicas, onde aguardou 11 a 13 horas para ser atendido pelo NHS.
Segundo Varella, a experiência britânica é um contraste de um outro episódio, vivido pelo mesmo amigo. Durante uma viagem ao Rio de Janeiro, o homem torceu o pé e foi levado a uma unidade do SUS. “Em dez minutos veio o ortopedista, me examinou e pediu uma radiografia”, contou o amigo ao médico. Todo o atendimento, segundo o relato, durou cerca de uma hora.
O médico questiona por que o sistema britânico é motivo de orgulho nacional, enquanto o SUS costuma ser alvo de críticas. Varella lembra que o NHS foi celebrado na cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres, em 2012, e provoca: “Por que na abertura da Olimpíada no Maracanã [em 2016] não fizemos o mesmo?”. Para ele, a resposta está na “vira-latice brasileira”.
Para ele, a comparação entre os dois sistemas ignora diferenças estruturais profundas. O NHS tem 80 anos e funciona em um país menor, com maior nível educacional e menos desigualdade social. Já o SUS atende 215 milhões de pessoas, em um país continental e marcado por desigualdades regionais. “É tão difícil que nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes ousou oferecer acesso universal à saúde”, afirma.
Dados recentes do British Medical Journal mostram a crise no sistema britânico. Segundo a revista, 8 em cada 10 hospitais ingleses acomodam pacientes em macas e cadeiras espalhadas por corredores e áreas improvisadas. Ian Higginson, presidente do Royal College of Physicians, classificou a situação como “um completo escândalo”.
De acordo com a publicação, esperas superiores a 12 horas estariam associadas a 16,6 mil mortes evitáveis em 2024. Enfermeiras ouvidas pelo sindicato da categoria relataram condições degradantes de atendimento. Uma delas afirmou que “pacientes lamentam não ter ficado em casa, mesmo correndo o risco de morrer”; outra disse que “não tratamos assim nem animais na prática veterinária”.
“É cada vez maior o número de técnicos do NHS que consideram o único caminho para evitar o colapso do sistema a adoção do Estratégia Saúde da Família, o programa brasileiro de atenção primária que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera um exemplo para o mundo”, aponta o médico.
Ao final do texto, Drauzio Varella reconhece que o SUS tem falhas, mas defende que as críticas sejam feitas com base na realidade, e não em idealizações estrangeiras. “Antes de repetir frases feitas sobre a excelência da saúde pública na América do Norte e na Europa, procure se informar sobre a realidade local. O SUS está cheio de defeitos que precisamos corrigir, mas, antes de vilipendiá-lo, dobre a língua”, afirma.
O “Fantástico”, da TV Globo, revelou como criminosos vêm se apropriando indevidamente da imagem de médicos, como Drauzio Varella, e outras personalidades públicas para dar aparência de legitimidade a anúncios fraudulentos nas redes sociais.
Reprodução de vídeo TV Globo
Drauzio Varella é a personalidade mais mencionada nessas peças falsas que prometem tratamentos milagrosos, com curas rápidas, explorando a confiança do público em figuras conhecidas. Reprodução de vídeo TV Globo
“Existe um curso dado pela internet para ensinar os falsários a imitar a minha voz por inteligência artificial e a criar as imagens para vender remédios falsos", disse Drauzio, que entrou com processo na Justiça contra a Meta - controladora de Facebook, Instagram e Whatsapp - por não impedir que essas propagandas falsas sejam veiculadas.
Reprodução de vídeo TV Globo
"Fui obrigado a contratar um escritório de advocacia para tentar tirar do ar essas propagandas porque a gente tentava explicar, olha, isso aí é absurdo, eles não davam nem bola nem respondiam, você mandava um e-mail explicando que aquilo era falso, eles nem não se davam o trabalho de responder", afirmou o médico.
Reprodução de vídeo TV Globo
“Toda vez que você vir meu nome ligado a um medicamento, é mentira. Cai fora, porque isso é golpe", recomenda Drauzio, que também ressaltou que o Código de Ética Médica proíbe profissionais da área de fazer propaganda de medicamentos.
Reprodução de vídeo TV Globo
Nascido em São Paulo, em 3 de maio de 1943, Antônio Drauzio Varella construiu uma das trajetórias mais reconhecidas da medicina brasileira ao unir atuação científica, trabalho clínico, produção intelectual e comunicação direta com o grande público.
Arquivo Pessoal
Médico oncologista formado pela USP, onde foi aprovado em segundo lugar no vestibular, ele se destaca não apenas pela carreira acadêmica e hospitalar, mas também pela capacidade de traduzir temas complexos da saúde em linguagem acessível, tornando-se uma das principais referências na popularização da informação médica no país.
Reprodução do Flickr Fernando Willadino
Ainda no início da década de 1970, Drauzio Varella passou a atuar na área de moléstias infecciosas ao lado do professor Vicente Amato Neto, no Hospital do Servidor Público de São Paulo.
Reprodução do Flickr Davidyson Damasceno
Ao longo dos anos seguintes, consolidou sua atuação em instituições de peso, dirigindo por duas décadas o serviço de imunologia do Hospital do Câncer de São Paulo e comandando, entre 1990 e 1992, o serviço de câncer do Hospital do Ipiranga.
Reprodução do Flickr Davidyson Damasceno
Ele permaneceu no local até 2002, ano da desativação do presídio, e chegou a idealizar iniciativas educativas, como a criação de uma revista em quadrinhos voltada à prevenção da Aids no ambiente carcerário.
Reprodução do Flickr Fórum de Justiça da Comarca de São Gabriel da Cachoeira
Ao mesmo tempo, tornou-se uma voz ativa na defesa da medicina baseada em evidências, posicionando-se de forma crítica em relação a práticas de medicina alternativa sem comprovação científica.
Reprodução do Flickr Fernando Willadino
A partir da segunda metade da década de 1980, Drauzio ampliou sua presença nos meios de comunicação. Iniciou campanhas educativas no rádio para esclarecer a população sobre a Aids e suas formas de prevenção e, mais tarde, consolidou-se como um dos principais divulgadores de temas de saúde na televisão.
Reprodução Instagram
Na TV Globo, tornou-se conhecido nacionalmente por seus quadros no programa “Fantástico”, abordando assuntos como funcionamento do corpo humano, tabagismo, obesidade, gravidez, primeiros socorros e transplante de órgãos.
Reprodução do Instagram @sitedrauziovarella
Paralelamente à medicina e à comunicação, Drauzio Varella construiu uma sólida carreira como escritor. Em 1999, lançou “Estação Carandiru”, livro em que relata sua experiência como médico no presídio, obra que se tornou best-seller, venceu o Prêmio Jabuti de não ficção em 2000 e foi adaptada para o cinema em 2003, sob direção de Hector Babenco.
Reprodução de vídeo TV Globo
Sua produção literária inclui ainda títulos como “Nas ruas do Brás”, “Por um Fio", "O Médico Doente", “Carcereiros”, “Prisioneiras” e “Correr”, no qual mistura informações médicas com relatos pessoais sobre a prática da corrida, atividade que mantém há décadas como parte essencial de sua rotina de saúde.
- Reprodução do X @drauziovarella
Drauzio Varella também conduz, na região do Rio Negro, um projeto de bioprospecção de plantas brasileiras, com o objetivo de obter extratos naturais para testes experimentais no combate ao câncer e a bactérias resistentes a antibióticos. Essa experiência rendeu histórias que ele descreve no livro "O sentido das águas: Histórias do Rio Negro", lançado em 2025.
Divulgação
Drauzio Varella é casado com a atriz Regina Braga, com quem está junto há mais de quatro décadas. O médico tem duas filhas, Mariana e Letícia, frutos de um casamento anterior.
Reprodução do Instagram @reginabragaoficial