EM DEFESA DO SUS

Drauzio Varella: ‘Dobre a língua antes de falar mal do SUS’

Em artigo, médico afirmou que nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes ousou oferecer acesso universal à saúde

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Em coluna publicada no jornal Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (29/1), o médico Drauzio Varella defendeu o Sistema Único de Saúde (SUS) e criticou a idealização do National Health System (NHS), do sistema público de saúde do Reino Unido, frequentemente citado como modelo superior ao brasileiro. A partir de um relato pessoal, o autor do livro “Carandiru” expõe falhas estruturais do sistema inglês e aponta o que considera um traço recorrente da cultura nacional: o desprezo pelo que é público no Brasil.

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No texto, Drauzio fala de um amigo que morava em Londres e que estava com muita tosse. Ele havia se engasgado com uma cápsula e, mesmo diante do risco, recusava-se a procurar atendimento médico. O motivo era a experiência recente em unidades de emergência britânicas, onde aguardou 11 a 13 horas para ser atendido pelo NHS.

Segundo Varella, a experiência britânica é um contraste de um outro episódio, vivido pelo mesmo amigo.  Durante uma viagem ao Rio de Janeiro, o homem torceu o pé e foi levado a uma unidade do SUS. “Em dez minutos veio o ortopedista, me examinou e pediu uma radiografia”, contou o amigo ao médico. Todo o atendimento, segundo o relato, durou cerca de uma hora.

O médico questiona por que o sistema britânico é motivo de orgulho nacional, enquanto o SUS costuma ser alvo de críticas. Varella lembra que o NHS foi celebrado na cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres, em 2012, e provoca: “Por que na abertura da Olimpíada no Maracanã [em 2016] não fizemos o mesmo?”. Para ele, a resposta está na “vira-latice brasileira”.

Para ele, a comparação entre os dois sistemas ignora diferenças estruturais profundas. O NHS tem 80 anos e funciona em um país menor, com maior nível educacional e menos desigualdade social. Já o SUS atende 215 milhões de pessoas, em um país continental e marcado por desigualdades regionais. “É tão difícil que nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes ousou oferecer acesso universal à saúde”, afirma.

Dados recentes do British Medical Journal mostram a crise no sistema britânico. Segundo a revista, 8 em cada 10 hospitais ingleses acomodam pacientes em macas e cadeiras espalhadas por corredores e áreas improvisadas. Ian Higginson, presidente do Royal College of Physicians, classificou a situação como “um completo escândalo”.

De acordo com a publicação, esperas superiores a 12 horas estariam associadas a 16,6 mil mortes evitáveis em 2024. Enfermeiras ouvidas pelo sindicato da categoria relataram condições degradantes de atendimento. Uma delas afirmou que “pacientes lamentam não ter ficado em casa, mesmo correndo o risco de morrer”; outra disse que “não tratamos assim nem animais na prática veterinária”.

“É cada vez maior o número de técnicos do NHS que consideram o único caminho para evitar o colapso do sistema a adoção do Estratégia Saúde da Família, o programa brasileiro de atenção primária que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera um exemplo para o mundo”, aponta o médico. 

Ao final do texto, Drauzio Varella reconhece que o SUS tem falhas, mas defende que as críticas sejam feitas com base na realidade, e não em idealizações estrangeiras. “Antes de repetir frases feitas sobre a excelência da saúde pública na América do Norte e na Europa, procure se informar sobre a realidade local. O SUS está cheio de defeitos que precisamos corrigir, mas, antes de vilipendiá-lo, dobre a língua”, afirma.

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