"Live" com frei Gilson promovendo ‘Oração Milagrosa’ é suspeita de fraude
A proliferação de deepfakes por IA, como esse material divulgado no Facebook, destaca um problema maior: a erosão da confiança online. Golpistas exploram idosos
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Em um mundo cada vez mais dominado pela inteligência artificial, os deepfakes – vídeos manipulados que clonam vozes e imagens de pessoas reais – tornaram-se uma ferramenta poderosa para golpistas. Um exemplo recente é o conteúdo hospedado no site sagrada-face.com, que promove uma suposta "live" do Programa Palavra de Fé, alegadamente ligado à Canção Nova, uma rede católica brasileira respeitada.
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O vídeo, acessado via um link cheio de parâmetros de rastreamento de anúncios do Facebook, promete revelar uma "Oração Sagrada Que Realiza Milagres em 7 Dias", atribuída ao Arcanjo Rafael. Mas uma análise detalhada revela indícios claros de falsidade, incluindo o possível uso de deepfake para imitar o frei Gilson, um padre popular conhecido por suas pregações autênticas.
Conteúdo Suspeito: uma "Live" que não convence
O link leva a uma página promocional que se apresenta como uma transmissão ao vivo datada de 07/01/2026, com o título "[AO VIVO 07/01/2026 ] Palavra de Fé | Revela a Oração Sagrada Que Realiza Milagres em 7 dias!". A descrição menciona temas espirituais como "por que suas orações não são respondidas", "o segredo da oração de gratidão" e "preparando o coração para receber milagres em 7 dias". Há um botão vermelho chamativo incentivando o usuário a "tocar para assistir", o que sugere uma tática clássica de funil de vendas: atrair fiéis desesperados por soluções rápidas para problemas pessoais, como saúde ou finanças.
No entanto, o domínio sagrada-face.com não tem qualquer ligação oficial com a Canção Nova, cuja presença online legítima está em cancaonova.com. A página carece de elementos de autenticidade, como selos de verificação, links para canais oficiais ou referências cruzadas com eventos reais da instituição. Em vez disso, os parâmetros do URL (como utm_source=FB e fbclid) indicam que se trata de um anúncio pago no Facebook, projetado para viralizar em grupos religiosos e explorar a fé das pessoas. O conteúdo promove uma oração "transformadora" que supostamente mudou "milhares de vidas", mas sem evidências concretas ou testemunhos verificáveis – um sinal clássico de propaganda enganosa.
Curiosamente, embora o usuário tenha mencionado o frei Gilson, a descrição da página refere-se a um "padre Alberto" como o apresentador. Padre Alberto Gambarini é, de fato, um sacerdote real associado à Canção Nova, conhecido por pregações sobre cura interior e o Espírito Santo. No entanto, isso pode ser uma distração ou erro intencional para confundir os espectadores. Análises de conteúdos semelhantes mostram que golpistas frequentemente misturam nomes de figuras religiosas para dar credibilidade, enquanto usam deepfakes para clonar a aparência e voz de padres populares como o Frei Gilson.
Evidências de deepfake e fraude: um padrão recorrente
Investigações revelam que frei Gilson tem sido vítima recorrente de deepfakes. Em dezembro de 2025, veículos como UOL e Estadão Verifica desmentiram vídeos falsos onde o padre supostamente promove uma "oração milagrosa" contra doenças, incentivando as pessoas a abandonarem remédios. O próprio religioso emitiu alertas via redes sociais, listando sinais de fraude: desprezo a tratamentos médicos, promessas de milagres rápidos sem base teológica e chamadas para ações financeiras, como doações ou compras de produtos "milagrosos". Em um vídeo de esclarecimento, ele enfatizou: "Nunca farei uma oração que manda você jogar fora os seus remédios. Isso é totalmente falso."
Esse padrão se alinha perfeitamente com o conteúdo analisado. A "oração sagrada" prometida em 7 dias ecoa as fraudes denunciadas, que frequentemente levam a páginas de vendas de itens como estatuetas religiosas ou cursos pagos. Em março de 2025, o Terra Checamos reportou um deepfake clonando a voz do frei Gilson para promover uma estatueta falsa de Nossa Senhora de Fátima. Plataformas de verificação confirmaram o uso de IA para gerar esses vídeos, explorando a popularidade do padre – que tem milhões de seguidores nas redes – para lucrar com fiéis vulneráveis.
Sem acesso direto aos frames do vídeo (devido a limitações técnicas na extração), não é possível uma análise forense pixel a pixel. No entanto, os indícios contextuais são esmagadores: qualidade inconsistente, ausência de interatividade real em uma "live" (como comentários ao vivo) e o foco em milagres "garantidos" contrariam a doutrina católica autêntica, que enfatiza a fé sem promessas mecânicas.
Exploração da fé em tempos de IA
Essa "live" não passa de uma armadilha cínica, que transforma a espiritualidade em commodity. Ao prometer milagres em 7 dias via uma oração "secreta", o conteúdo desrespeita a teologia católica, que vê a oração como diálogo com Deus, não como fórmula mágica. Isso não só engana os devotos, mas pode ser perigoso: incentivar o abandono de tratamentos médicos, como visto em fraudes semelhantes, coloca vidas em risco.
A proliferação de deepfakes como esse destaca um problema maior: a erosão da confiança online. Golpistas exploram algoritmos de redes sociais para targeting preciso, atingindo idosos ou pessoas em crise. A Canção Nova, por sua vez, não endossa tais conteúdos – uma busca em seu site oficial não revela qualquer evento similar. Em vez de cair nessas armadilhas, os fiéis devem buscar fontes oficiais, como o canal da Canção Nova no YouTube ou o Instagram do frei Gilson.
Recomendações: como se proteger
Verifique fontes: Sempre confira domínios oficiais (ex.: cancaonova.com) e evite links de anúncios suspeitos.
Denuncie: Relate conteúdos falsos ao Facebook, Instagram ou autoridades como a Polícia Federal no Brasil.
Eduque-se sobre deepfakes: Ferramentas como o detector de IA do Google ou sites de fact-checking (UOL Confere, Estadão Verifica) ajudam a identificar manipulações.
Busque espiritualidade autêntica: Participe de eventos reais da Canção Nova, que priorizam a fé genuína sem promessas ilusórias.
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Em resumo, essa "live" é falsa, provavelmente um deepfake explorando a imagem do frei Gilson para fins lucrativos. É um lembrete sombrio de como a tecnologia pode corromper o sagrado. Fiéis, fiquem vigilantes: a verdadeira oração não precisa de cliques para milagres.