A escolha de Gadi Eisenkot para tentar formar um novo governo em Israel representa uma possível mudança no cenário político do país, mas não necessariamente uma abertura para atender às reivindicações históricas dos palestinos. Principal rival do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, o ex-chefe das Forças Armadas defende mudanças na política israelense na Cisjordânia, com medidas para conter a expansão dos assentamentos e os ataques de colonos. Ainda assim, rejeita a criação de um Estado palestino independente e defende a manutenção do controle militar israelense sobre os territórios.

A indicação foi feita neste sábado (7/11) pelo presidente Isaac Herzog, poucos dias após as eleições legislativas de 27 de outubro. Nenhum dos blocos políticos conquistou a maioria necessária no Parlamento, o Knesset, que tem 120 cadeiras. Eisenkot recebeu o maior número de indicações partidárias para assumir a tarefa, inclusive de legendas que representam a minoria árabe.

"O presidente Herzog convidou Gadi Eisenkot para a residência presidencial, onde amanhã [domingo, 8] receberá a tarefa de formar o governo", afirmou o porta-voz do presidente.

Para os palestinos, a possível saída de Netanyahu do poder pode representar um alívio. Nas últimas duas décadas, o premiê se tornou um dos principais símbolos da expansão territorial israelense, da violência de colonos contra a população local e das operações militares na Faixa de Gaza.

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Sob os governos de Netanyahu, a construção de assentamentos avançou, apesar de ser considerada ilegal pela maior parte da comunidade internacional. O resultado é um território palestino cada vez mais fragmentado, dividido em pequenos trechos desconectados, alguns sob administração da Autoridade Palestina.

Eisenkot pretende frear esse avanço, mas não propõe a retirada dos assentamentos nem uma mudança profunda na ocupação. Assim como Netanyahu, defende que Israel mantenha o controle militar e de segurança sobre a Cisjordânia.

A mesma posição se aplica à Faixa de Gaza. O ex-general afirma que Israel não deve deixar o território enquanto o Hamas não for desarmado. A divergência entre os dois está mais na condução da política israelense do que em seus objetivos para os territórios palestinos.

Eisenkot também já classificou a solução de dois Estados —um israelense e outro palestino— como um erro grave. Após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, chegou a afirmar que defender essa possibilidade era um delírio.

Disputa pela maioria

Além das divergências sobre a questão palestina, Eisenkot enfrenta um desafio imediato: reunir apoio suficiente para governar. O bloco de Netanyahu conquistou 53 cadeiras, enquanto os partidos da oposição liderados por Eisenkot e seus aliados somaram 48. São necessários pelo menos 61 assentos para garantir maioria no Knesset.

Uma das alternativas seria negociar com os partidos árabe-israelenses Ra’am e Lista Conjunta, que alcançaram um resultado histórico nas eleições, com 19 cadeiras. A possibilidade, porém, enfrenta resistência dentro da própria oposição. Eisenkot já descartou uma coalizão com essas legendas, embora uma delas tenha participado das indicações que o levaram à escolha de Herzog.

Outra saída seria conseguir o apoio externo dos partidos árabes, sem que eles integrassem formalmente o gabinete. Nesse modelo, as legendas poderiam apoiar propostas do Executivo no Parlamento. Mesmo essa possibilidade encontra resistência entre alguns aliados do ex-general.

Eisenkot também poderia atrair os partidos ultraortodoxos, tradicionalmente alinhados a Netanyahu. Juntos, eles somam 13 cadeiras, número suficiente para levar o bloco oposicionista à maioria. O obstáculo é o preço político dessa aproximação: as legendas defendem a manutenção da dispensa de estudantes ultraortodoxos do serviço militar, tema controverso na sociedade israelense.

Quem é Eisenkot

Aos 66 anos, Eisenkot foi chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel e ingressou na política em 2022. Filho de imigrantes marroquinos, pode se tornar o primeiro premiê israelense originário da comunidade mizrahi, formada por judeus com raízes no Oriente Médio e no Norte da África.

Reservado e avesso à exposição na imprensa, integrou brevemente o gabinete de guerra de Netanyahu após os ataques do Hamas, em 2023. Posteriormente, voltou à oposição e criticou a condução da campanha militar em Gaza. Também afirmou que não voltaria a participar de um governo liderado pelo atual primeiro-ministro.

Sua trajetória é marcada ainda por perdas familiares na guerra: um filho e dois sobrinhos morreram em combate na Faixa de Gaza.

Na área militar, Eisenkot também é associado à chamada doutrina Dahiyeh, estratégia de resposta com força desproporcional a ataques inimigos, utilizada por ele durante a guerra contra o Hezbollah, no Líbano, em 2006. Durante a campanha eleitoral, enfatizou sua experiência na área de segurança e criticou os integrantes da extrema direita que compõem o governo Netanyahu, entre eles Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich.

Em uma publicação na rede social X após ser escolhido, Eisenkot defendeu a formação de um "governo de emergência nacional" e afirmou que faria o possível para cumprir a tarefa.

Ele tem 28 dias para negociar a composição de uma coalizão, prazo que pode ser prorrogado por mais 14. Caso não consiga reunir apoio suficiente, Herzog poderá indicar outro nome para tentar formar o Executivo. Netanyahu, portanto, ainda pode permanecer no poder.

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Mesmo que a oposição assuma o governo, as propostas de Eisenkot não contemplam as principais reivindicações palestinas por soberania e autodeterminação.

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