Noruega: por que o país que eliminou o Brasil é mais feliz?
Colunista do NYT explica como o investimento em pessoas leva países nórdicos ao topo dos indicadores de bem-estar
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No mesmo domingo em que a Noruega derrotava — por um modesto 2 a 1 — as pretensões de hexacampeonato do Brasil no MetLife Stadium, em Nova Jersey, o país escandinavo também vencia os Estados Unidos em outro campeonato: o da qualidade de vida. É o que argumenta o colunista Nicholas Kristof, do “The New York Times”, em texto publicado no dia 4 de julho, véspera da eliminação brasileira nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.
Kristof não fala de futebol. Mas a coincidência de calendário é quase didática: enquanto Erling Haaland decidia a partida diante de Alisson — e devolvia ao país mais um capítulo de um retrospecto invicto contra o Brasil, agora com três vitórias e dois empates em cinco confrontos —, o colunista descrevia como a Noruega transformou caixas de mercado, garçons e frentistas em profissionais mais bem remunerados e protegidos do que muitos executivos brasileiros. E argumenta que isso não tem relação com sorte, petróleo ou um punhado de craques como Haaland, mas com sete décadas de política pública.
No país nórdico, trabalhadores da construção civil, camareiras de hotel e operadores de caixa frequentemente ganham mais de US$ 20 por hora. O valor é acrescido de adicionais por trabalho noturno ou aos finais de semana.
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Os benefícios incluem cerca de cinco semanas de férias remuneradas por ano, previdência privada e licenças maternidade e paternidade que, somadas, chegam a um ano. O pacote ainda prevê dias pagos para cuidar de filhos doentes e até licença remunerada para mudança de residência.
Segundo o ex-primeiro-ministro norueguês Jens Stoltenberg, o próprio sonho americano está hoje mais presente nos países nórdicos do que nos Estados Unidos. A Noruega, por exemplo, é mais rica que os EUA em termos per capita e possui produtividade por hora de trabalho superior à americana.
Equívocos sobre o modelo nórdico
Kristof reconhece que críticos já apontaram os altos impostos e o Estado de bem-estar social como freios ao crescimento — a revista The Economist chegou a decretar, em 2006, o fim do "modelo nórdico".
Ele destaca que o sucesso do modelo não se deve ao socialismo, mas a um forte investimento em pessoas. Ele lista três mal-entendidos comuns sobre o sistema:
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Não são países socialistas: são economias de mercado, geralmente governadas por social-democratas. A Suécia tentou políticas de cunho socialista nas décadas de 1970 e 80, o que resultou em crise econômica.
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Não é um sistema de acomodação: a taxa de participação da força de trabalho é maior nos países nórdicos do que nos EUA, mesmo com uma generosa rede de proteção social.
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Não é apenas o petróleo: embora o recurso tenha ajudado a Noruega, o aumento da participação feminina no mercado de trabalho desde os anos 1970 contribuiu para o PIB tanto quanto o setor petrolífero.
Parte do avanço se deve à oferta de creches de qualidade a baixo custo. Na Noruega, o valor mensal é de aproximadamente US$ 120, com gratuidade para famílias de baixa renda. Em 2025, 62% das mulheres em idade produtiva na Noruega estavam empregadas, contra 56% nos EUA.
Compressão salarial e desafios
Kristof também recorre ao economista Kalle Moene, da Universidade de Oslo, para explicar as origens do sistema, gestado nos anos 1930, quando trabalhadores de setores mais prósperos aceitaram conter reivindicações salariais para sustentar setores em dificuldade. Segundo Moene, essa "compressão salarial" eleva os salários mais baixos — o que tende a eliminar empregos ruins — e reduz os mais altos, o que abriria espaço para mais empregos de qualidade.
A rede de proteção social também reduziria o medo de trabalhadores em relação a perdas de emprego por automação ou comércio exterior, o que facilitaria a adoção de políticas de crescimento mesmo quando ameaçam postos específicos, segundo o ex-primeiro-ministro Stoltenberg.
Apesar do sucesso, o modelo enfrenta pressões como o envelhecimento da população, a imigração e o aumento da desigualdade. A alta participação feminina no trabalho, por exemplo, reduz a disponibilidade de cuidado informal a idosos, sobrecarregando o sistema de saúde.
É um modelo exportável?
A pergunta que fecha o texto é se caixas e frentistas americanos poderiam um dia ganhar US$ 20 por hora com previdência e cinco semanas de férias. Segundo economistas ouvidos por Kristof, trabalhadores noruegueses tendem a ter taxas de alfabetização mais altas, maior facilidade com tecnologia e permanecem mais tempo no emprego — o que tornaria os empregadores dispostos a pagar mais por uma força de trabalho mais experiente e produtiva.
A conclusão do colunista é que reproduzir o modelo nórdico não se resume a elevar o salário mínimo: exige investimento contínuo em capital humano, da primeira infância à universidade. Isso implica impostos mais altos, mas resulta em trabalhadores mais qualificados e produtivos.
Fica o contraste, ainda que involuntário: a Noruega que eliminou o Brasil da Copa do Mundo de 2026 é a mesma que, fora de campo, segue goleando o país em indicadores que Kristof considera mais decisivos no longo prazo do que qualquer resultado de domingo.
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Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.