O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, um dos maiores intelectuais e pensadores contemporâneos, morreu aos 104 anos nesta sexta-feira (29/5). A morte foi anunciada pela Multiversidad Mundo Real Edgar Morin. “Com profundo respeito e gratidão, lamentamos o falecimento de Edgar Morin, um pensador universal, mestre da complexidade e guia humanista para nossa comunidade acadêmica. Seu trabalho perdurará em cada esforço para reconectar o conhecimento, compreender a condição humana e pensar o mundo a partir de uma perspectiva integrativa”, informou a instituição internacional sediada no México e dedicada à difusão do conhecimento do pesquisador.

O secretário pessoal de Morin, Nelson Vallejo Gomez, também confirmou a morte em seu perfil no Instagram. “Ao pôr do sol de uma majestosa tarde de primavera, no Hospital Americano de Paris, nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026, encerrando um fabuloso ciclo existencial que começou em Paris em 8 de julho de 1921, o espírito brilhante do amado sábio da #PoéticaDaCivilidade, meu pai espiritual, querido e admirado Condor, Edgar Morin, tornou-se pura energia. Agora ele está muito mais intensamente presente em nós. Sempre carregarei seu sorriso em meu coração como um farol de inteligência viva, e o manual da UNESCO, que é como um legado”, escreveu Gomez. A causa da morte, entretanto, não foi revelada.

Edgar Morin nasceu em Paris em 1921 e completaria 105 anos em 8 de julho. Era filho de uma família de sefarditas, judeus que viviam na Península Ibérica. Era formado em Filosofia, Sociologia, Direito, História e Geografia. Antes de completar 20 anos, no início dos anos 1940, Morin se filiou ao Partido Comunista francês e atuou na Resistência Francesa, ativa no enfrentamento à ocupação feita pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Nessa época, adotou o pseudônimo Morin na clandestinidade, já que o seu nome era Edgar Nahoum. No fim da década, entretanto, rompeu com o comunismo quando tomou conhecimento dos abusos cometidos por Josef Stálin em campos de concentração na União Soviética. Para ele, a base da longevidade estava nos relacionamentos saudáveis, manter a mente ativa e focada na espiritualidade e no afeto.

Obras

Ao longo de sua vida, Morin se destacou pela visão humanista e por combater o pensamento reducionista e fragmentado. Escreveu mais de 50 livros, entre eles “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Entre suas obras também estão “O método” (6 volumes), “Introdução ao pensamento complexo” e “Ciência com consciência”.

O primeiro livro é de 1946, “O ano zero da Alemanha”, um relato contundente sobre a situação desoladora da Alemanha logo após a derrota na Segunda Guerra Mundial para os Aliados e a União Soviética. Nessa obra, ele analisa não apenas o horror do Holocausto, mas também as esperanças de reconstrução do país e as disputas políticas nos bastidores que culminariam na divisão da Alemanha em duas partes, entre capitalismo e comunismo.

Suas obras tratam do “pensamento complexo” ou “paradigma da complexidade”, uma abordagem filosófica e científica que busca superar a fragmentação do conhecimento. Em vez de dividir o mundo em partes isoladas, propõe uma análise integrada da realidade, na qual o todo e as partes interferem mutuamente, lidando com incertezas e ambiguidades. Segundo ele, os fenômenos naturais, sociais e humanos não podem ser explicados por uma única ciência ou área do saber. É necessário entrelaçar as conexões entre eles.

Um dos últimos livros publicados pelo pensador foi lançado em 2023, aos 101 anos, pela editora Denoël. Ainda sem tradução para o português, a obra é uma coletânea de ensaios e tem o título “Encore un moment... Textes politiques, sociologiques, philosophiques et littéraires”. Em 2023, Morin também publicou um ensaio sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, defendendo um acordo de paz urgente. Em 2021, havia lançado suas memórias, “Lições de um século de vida”.

Pensamento

Em entrevistas em vídeo no Instagram, Morin falou sobre seus sentimentos em relação à vida. No perfil Vila dos Poetas, ele afirmou: “O problema da felicidade é aquilo que chamo de 'o problema da poesia da vida'. A vida, a meu ver, é polarizada entre poesia e prosa, ou seja, as coisas que fazemos por obrigação, que não nos interessam para sobreviver, e a poesia, o que nos faz florescer, o que nos faz amar, comunicar. E é isso o que importa. Então, eu digo que o verdadeiro problema não é a felicidade, porque a felicidade é algo que depende de uma multiplicidade de condições”.

Morin então completa o seu pensamento: “E eu diria até que o que causa felicidade é frágil, porque, por exemplo, no amor por uma pessoa, se essa pessoa vai embora, cai-se da felicidade para a infelicidade. Ou seja, não se pode sonhar com uma felicidade contínua para a humanidade. É impossível, porque a felicidade, repito, depende de uma soma de condições. Por outro lado, o que se pode dizer é que se pode tentar favorecer tudo o que permita a cada um viver poeticamente a sua vida. E, se você vive poeticamente, encontra momentos de felicidade, momentos de êxito e de alegria. Na minha opinião, essa é a questão da poesia da vida, mais importante do que a felicidade.”

Em outra entrevista, Morin afirmou: “A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel”.

Repercussão

A morte de Morin repercutiu entre intelectuais brasileiros. “Ele até atravessou o século que lhe foi dado viver como um cometa. Ele era filósofo, sociólogo, participou da resistência francesa durante a Segunda Guerra, tendo combatido o nazismo, e, ao longo de sua trajetória intelectual e política, tornou-se também um crítico firme do stalinismo e de todas as formas autoritárias de poder. Dedicou sua vida a combater uma das maiores ilusões da modernidade: a ideia de que o mundo pode ser compreendido por partes isolada”, escreveu a historiadora, antropóloga e escritora Lilia Schwarcz.

Duas das maiores referências e estudiosas brasileiras da obra de Morin, responsáveis por difundir, traduzir e adaptar a teoria da complexidade para a realidade educacional no Brasil, Izabel Petraglia – diretora do Centro de Estudos e Pesquisas Edgar Morin – e Maria Cândida Moraes divulgaram nota conjunta anunciando a morte: “Amigos/as, com muita tristeza, comunicamos o falecimento de nosso querido amigo, mestre e presidente de honra, Edgar Morin.”

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Professores da Universidade de São Paulo também lamentaram a morte. “É uma notícia muito triste!! Uma referência importante na minha vida acadêmica", disse Pedro Jacobi, professor do Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo (USP).

compartilhe