BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - A ativista brasileira Beatriz Moreira, de 23 anos, que integrava a flotilha de ajuda humanitária à Faixa de Gaza, diz ter sido agredida por soldados israelenses durante a prisão. Membro do Movimento dos Atingidos por Barragens no Brasil, ela estava em barco que foi interceptado na segunda-feira (18/5).
Ela e mais de 400 integrantes da flotilha foram presos por Israel em águas internacionais e deportados para a Turquia. No grupo, estão outros três brasileiros - todos desembarcaram em Istambul na quinta-feira.
Leia Mais
Beatriz é natural de Belém (PA). Educadora, foi uma das lideranças que atuaram na Cúpula dos Povos, evento de movimentos sociais durante a COP30, conferência do clima da ONU realizada na capital paraense em novembro do ano passado.
Segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens, o médico Cássio Pelegrini, brasileiro que também estava na flotilha, precisou ser internado em um hospital em Istambul por ferimentos causados por tortura.
Integram ainda o grupo de brasileiros Ariadne Teles, advogada de direitos humanos e coordenadora da Global Sumud Brasil (organização que coordena a flotilha), e Thainara Rogério, desenvolvedora de software. A previsão é que eles retornem ao Brasil na terça-feira (26).
Nesta sexta-feira, a ONG que lidera as flotilhas acusou soldados de Israel de agressões e estupros de ativistas detidos na última missão do grupo.
O serviço prisional israelense negou as acusações. "São falsas e inteiramente sem base factual. Todos os prisioneiros e detidos são mantidos de acordo com a lei, com toda consideração pelos seus direitos básicos e sob a supervisão de equipe prisional treinada e profissional", afirmou um porta-voz em comunicado.
Beatriz afirma que as agressões das forças israelenses começaram no momento da abordagem do barco em que ela estava, Amazon. Nove mulheres e um homem navegavam na embarcação.
Uma lancha com um grupo de 11 soldados israelenses surpreendeu o barco a mais de 250 milhas náuticas de Gaza. "Já vínhamos acompanhando pelo rádio e nossas comunicações internas, mas eles usaram antenas que cortam o sinal de internet. Na hora, achamos que nem as câmeras estavam funcionando, pois não conseguimos fazer live", relata à Folha de S.Paulo.
O grupo foi levado para um navio-prisão. Dentro da embarcação, os presos sofreram maus-tratos durante dois dias, segundo ela. "Não havia condições básicas de sobrevivência. Tinha que fazer motim para ter água. O pão era congelado e eles molhavam o chão para ficarmos com frio. Eram pelo menos 60 pessoas dormindo amontoadas em contêineres", descreve.
Os soldados também atiraram balas de borracha nos presos, segundo Beatriz. "Se a gente cantasse 'Palestina Livre' a resposta era imediata: eles vinham com bala de borracha. No navio em que eu estava, três pessoas ficaram feridas, e não havia medicamentos."
Para a brasileira, o pior momento da prisão, porém, foi quando o navio ancorou, e ativistas começaram a ser torturados. "Quando nós atracamos no porto, começou a parte mais violenta. Eles chamavam a gente pelo passaporte e a gente ia saindo. Eu consegui ouvir os gritos, eram assustadores, especialmente das pessoas do Sul Global. Eles tinham um tratamento muito mais violento com os turcos", diz. "Quando alguém era torturado, a gente gritava e eles reagiam com bala de borracha na gente."
Na retirada do navio, a brasileira diz que foi algemada, ofendida e ferida pelos soldados. "Fomos algemados [com lacres de plástico] e apertaram muito os meus pulsos, me puxaram de toda forma, me seguraram de uma forma que não conseguia respirar. Me jogaram no chão, me chamaram de puta, bateram minha cabeça num ferro."
Durante uma revista, ainda segundo o relato de Beatriz, houve mais violência. "Fizeram uma revista pesada. Eu, já bem machucada, fui levada para uma tenda maior, com mais pessoas, e só escutava os gritos das pessoas sendo torturadas."
Beatriz conta que, além da violência física, a humilhação dos presos era recorrente. "Colocaram a gente de joelho com a cabeça no chão, e o hino de Israel tocando. Os mais agressivos eram os jovens. O pior deles devia ter 19 anos."
As forças israelenses também tentaram obrigar os presos a assinar documentos admitindo que estavam em situação ilegal, segundo a brasileira, que recusou a assinatura. "Em todas as outras flotilhas, um nível de violência como esse nunca tinha sido observado. Eles querem fazer dessa flotilha um exemplo, mas a gente vai continuar navegando, sim", afirma.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Agora os planos são de seguir por via terrestre para levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza por meio de uma caravana a partir da Líbia.
