Quem espera ônibus à noite em Belo Horizonte pode recorrer a uma videochamada para ter companhia até a chegada do coletivo. Desde 1º de agosto, o projeto Abrigo Amigo registrou 3,8 mil chamadas nos 100 pontos de ônibus em que foi instalado na capital mineira. A maior parte dos contatos teve como objetivo oferecer companhia aos passageiros, mas quatro acionamentos resultaram na mobilização de serviços de emergência, entre eles um caso de violência doméstica.
O balanço foi apresentado pelo secretário adjunto de Mobilidade Urbana de Belo Horizonte, Lucas Colen. Segundo ele, o serviço recebeu, em média, de 47 a 50 chamadas por dia durante os primeiros meses de funcionamento. O período de maior procura é entre as 20h e as 23h, e cada atendimento dura, em média, cinco minutos.
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A proposta é ampliar a sensação de segurança de quem utiliza o transporte coletivo durante a noite, especialmente mulheres que aguardam sozinhas nos pontos. Para acessar o serviço, não é necessário instalar aplicativos ou fornecer dados pessoais: basta apertar um botão instalado no próprio abrigo para iniciar uma chamada de vídeo com uma atendente.
“Quase na sua totalidade, as chamadas foram para companhia, que é o principal objetivo do projeto. Como ele funciona à noite, proporciona companhia ao usuário até a chegada do ônibus”, afirma Colen.
Embora tenha sido concebido especialmente para atender às necessidades de segurança das mulheres, o Abrigo Amigo não é exclusivo para o público feminino. Qualquer pessoa que esteja em um dos pontos contemplados pode utilizar o recurso.
Companhia e atendimento em situações de risco
Dos 3,8 mil acionamentos registrados, a maior parte correspondeu a pedidos de companhia. Em quatro situações, porém, foi necessário mobilizar serviços de emergência. Três envolveram atendimentos médicos, e a quarta resultou no acionamento da Polícia Militar e da Guarda Municipal.
Entre as ocorrências de saúde relatadas pelo secretário adjunto estão dois casos envolvendo idosos: um homem que passou mal após ingerir bebida alcoólica e outro que apresentava um corte na cabeça. Houve ainda um terceiro atendimento médico, a uma pessoa que também passou mal enquanto aguardava em um ponto de ônibus.
O quarto caso envolveu uma mulher que procurou auxílio por estar sofrendo violência doméstica. Conforme Colen, ela recorreu ao serviço para relatar a situação, e a ocorrência recebeu os encaminhamentos necessários.
Até o momento do balanço, segundo o secretário, não havia registro de acionamento relacionado a uma pessoa que estivesse sofrendo importunação sexual ou outra abordagem desse tipo enquanto aguardava o ônibus na rua. Isso não significa, contudo, que os riscos estejam ausentes, mas que os registros do período se concentraram em pedidos de companhia e em situações que exigiram assistência médica ou policial.
O funcionamento do projeto permite que as atendentes acionem serviços públicos de emergência quando identificarem a necessidade. Os contatos e as ocorrências são encaminhados ao Centro de Operações da Prefeitura (COP), que acompanha as situações e possibilita a mobilização das equipes responsáveis.
A estrutura busca fazer com que o abrigo funcione não apenas como um local de espera, mas também como um canal de comunicação para quem precisa de ajuda. As profissionais responsáveis pelo atendimento recebem treinamento de assistentes sociais e especialistas em violência contra a mulher, com preparação para acolher usuários e orientar os encaminhamentos necessários.
Como funciona o Abrigo Amigo
O serviço funciona diariamente das 20h às 5h. Nos pontos contemplados, os abrigos contam com identificação visual do projeto, bancos vermelhos e botões instalados nas laterais da estrutura. Ao pressionar o dispositivo, o passageiro inicia uma videochamada com uma atendente da central.
O contato pode ser encerrado quando o usuário embarca no ônibus ou decide finalizar a conversa. Não é necessário se identificar para utilizar o recurso, o que permite buscar companhia sem fornecer informações pessoais.
A estrutura tecnológica inclui conexão à internet por fibra óptica e 5G, câmeras de alta resolução para uso noturno, microfones e alto-falantes. O sistema também prevê recursos de acessibilidade, como sinalização em braile e botão instalado a uma altura acessível. O suporte em Libras está previsto entre os recursos do projeto, e a implementação de legendas está em andamento.
A instalação dos 100 pontos foi concluída na primeira fase do projeto. Os equipamentos estão distribuídos pelas diferentes regionais de Belo Horizonte, em áreas que concentram atividades noturnas, como regiões próximas a faculdades, estabelecimentos comerciais, bares, restaurantes e hotéis. A intenção é alcançar pessoas que deixam o trabalho, voltam de compromissos ou dependem do transporte coletivo em horários de menor circulação.
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Segurança integrada ao transporte noturno
A implantação do Abrigo Amigo faz parte de uma estratégia de reorganização do transporte coletivo noturno em Belo Horizonte, segundo Colen. A iniciativa integra o programa Madrugão, que também inclui mudanças nas linhas e a criação de serviços para ampliar o atendimento aos passageiros durante a noite.
De acordo com o secretário adjunto, a ampliação da oferta de transporte precisava ser acompanhada por medidas voltadas à segurança durante a espera. “Ele é voltado para as mulheres, mas não é exclusivo. A ideia é proporcionar uma sensação maior de segurança e acolhimento para quem está esperando o ônibus”, explica.
O projeto é realizado em parceria com a Eletromidia e a Claro. Além das videochamadas, os pontos contemplados contam com painéis digitais do sistema Próxima Parada, que informam o tempo estimado para a chegada dos ônibus. A integração permite que o passageiro acompanhe a previsão de chegada do coletivo enquanto aguarda o atendimento ou decide se deseja acionar a central.
Segundo Colen, a informação sobre o tempo de espera também pode influenciar a decisão de utilizar o recurso. Saber quanto falta para o ônibus chegar ajuda o passageiro a organizar a permanência no ponto e a avaliar a necessidade de solicitar companhia.
A prefeitura também prevê ampliar a instalação dos painéis digitais. Conforme o secretário, a meta é chegar a 400 locais equipados com o sistema Próxima Parada até dezembro. Desse total, 100 correspondem aos pontos que já contam com o Abrigo Amigo, e os demais terão os painéis de informação sobre os ônibus, sem necessariamente oferecer o serviço de videochamada.
